Cantar a Paz, defender a vida
A música, as canções, não têm esquecido a defesa deste combate em que as cantigas são as armas
Numa das primeiras canções de Sérgio Godinho pós-25 de Abril fala-se de Liberdade. Nela o cantor/autor diz-nos quando é que pode haver “Liberdade a sério”, enumerando quais as condições para isso e colocando em primeiro lugar a Paz, logo a abrir, mesmo antes da Saúde, do Pão, da Educação. Não que isso queira dizer que estas outras condições sejam secundárias, mas sem Paz difícil será ganhá-las.
Começamos 2026 com um mundo, o nosso mundo, salpicado de guerras ou ameaçado por elas, no Leste da Europa, no Médio Oriente, na Ásia, na África ou na América do Sul. Há quem diga defender a Paz armando uma das partes em contenda (e assim desenvolvendo incomensuravelmente o muito lucrativo negócio da venda de armas…). Isto é “apagar” o fogo com gasolina, é falar de solidariedade usando a frase “quanto mais ardes mais gosto de ti”. E, no entanto, as vozes (e são já muitas, embora muitas mais sejam precisas) que defendem conversações, diplomacia e não a “oferta” de armas, vão caindo em saco roto quando a ambição desmedida, o lucro, a cegueira do poder, o capital entram na dança.
A razão porém, inclina-se, como sempre acontece quando se coloca a beligerância num prato da balança e o entendimento pacífico no outro, para o lado dos que defendem que a Paz está acima de tudo, que nem todos podem ficar a ganhar ou a perder totalmente, salvo raras excepções, que o bom senso, que é o que move quem defende que as palavras, primeiro enviesadas, depois aplanadas e finalmente postas em prática, são como o sonho e hão-de comandar a vida, tal qual escreveu Gedeão e cantou Manuel Freire.
A música, as canções, não têm esquecido a defesa deste combate em que as cantigas são as armas. John Lennon escreveu e cantou “all we are saying is give peace a chance” (nós só dizemos: dêem uma oportunidade à Paz”) e, em “Imagine”, pediu que imaginássemos que “não há nada por que matar ou por que morrer” e acrescentou “imaginem toda a gente vivendo a vida em Paz”.
Vinicius de Moraes, o grande poeta brasileiro e autor de inúmeras letras para cantigas, escreveu “Rosa de Hiroshima”, que foi estreada por Ney Matogrosso e os Secos e Molhados e é uma clara condenação das bombas atómicas lançadas pelos EUA em duas cidades japonesas (a outra foi Nagasaki) na Segunda Guerra Mundial. Canção em defesa da Paz que foi considerada pelas revistas da especialidade como uma das mais importantes cantigas brasileiras de sempre.
E podíamos continuar uma lista interminável de canções que nos lembram que a Paz é precisa e indispensável. Alguns exemplos: “Dias Melhores” de Jota Quest, “A Paz”, de Gilberto Gil, “Eternamente Cantarei a Paz”, da banda “Naitiruts”, todas estas canções brasileiras, ou cantigas de Bob Marley e dos U2 ( “One Love” e “Peace on Earth”, respectivamente).
Em Portugal aconteceu brilhantemente um “Canto de Paz” com música de Fernando Lopes-Graça e poema de Carlos Oliveira. Ouvi-lo, na interpretação excelente do Coro da Academia dos Amadores de Música, é escutar uma força da natureza. E podemos falar do Zeca, do Adriano, do Zé Mário. E podemos dizer que “Grândola, Vila Morena” é uma canção de Paz.
Teremos, ainda, de perguntar aonde nos levará a guerra, que alastra desastradamente pelo mundo, como se comprovou nos últimos dias. Aonde nos levará a passividade perante o desrespeito pela vida, pela diferença, pelo aconchego dos dias.
Devemos dar, à Paz, a oportunidade que merece. Exigimo-lo cantando. Mas, já dizia o poeta, “cantar não é talvez suficiente”…




