- Nº 2718 (2025/12/31)

Mentalidade de Cristiano com salário liliputiano

Opinião

O Governo PSD/CDS tenta responder à greve geral ensaiando tom “passivo-agressivo” no discurso. A greve geral foi de facto uma importante jornada de luta com impactos tremendos, que continuam a fazer-se sentir. O conteúdo e tom passivo-agressivo da declaração de Natal do chefe do Governo PSD/CDS não pode ser desligado do impacto dessa poderosa demonstração de rejeição do pacote laboral e de força dos trabalhadores que foi a greve geral do passado dia 11 de Dezembro.

Um Governo em “estado de negação”, mas realidade da luta impor-se-á!

O Governo PSD/CDS parece tentar prolongar o estado de negação, patente nas declarações ridículas que fez no dia da greve. Mas, por mais selectivo que o Governo seja na realidade que escolhe aceitar, a realidade da luta e da vida das pessoas voltará sempre para assombrá-lo. Logo no dia 16 de Dezembro, aquando da inauguração do Metrobus entre Coimbra e Serpins (Lousã), em que, perante as audíveis palavras de ordem contra o pacote laboral gritadas por manifestantes, o primeiro-ministro, outra vez de forma ridícula, fingiu não conseguir ouvir e quando um jornalista clarificou o conteúdo, passou a desvalorizar expondo, mais uma vez, os tiques antidemocráticos e o estado de negação da realidade por parte Governo.

Montenegro quer aprofundar mentalidade de “bar aberto” à exploração

O primeiro-ministro invocou a necessidade de uma mudança de mentalidade para, na realidade tentar manter e aprofundar a velha mentalidade de “bar aberto” à exploração de quem trabalha. Um Governo que se tem pautado por uma política de favorecimento aos grupos económicos, tenta agora, de forma torpe passar o ónus aos trabalhadores. Num quadro em que, nos últimos 25 anos, a produtividade cresceu mais do dobro do crescimento dos salários o que significa maior acumulação de lucros e maior desequilíbrio na distribuição da riqueza a favor do Capital, o governo vem invocar crises futuras para acentuar a exploração.

Luís Montenegro fez mais um exercício de submissão ao esgotado modelo assente em baixos salários que tanto tem prejudicado o desenvolvimento do país. O primeiro-ministro fez esta declaração num país em que 60% dos trabalhadores recebe menos de 1000 euros, em que mais de 9% dos trabalhadores está abaixo do limiar da pobreza, empobrecendo a trabalhar, e em que um em cada três trabalhadores tem um contrato a termo.

É preciso mudar a mentalidade de submissão dos sucessivos governos

Aparentemente apelando uma mudança de mentalidade acaba por vincar a incapacidade do Governo PSD/CDS de olhar para além da sua própria narrativa de submissão aos grupos económicos e ao directório de potências da União Europeia. A pequenez da mentalidade de quem se sujeita aos ditames da divisão do trabalho imposta pela União Europeia e tão bem resumida na frase “Portugal a Florida da Europa” que na prática significa que para produzir estão cá os países do norte da Europa e que a Portugal fica reservado o papel de economia de serviços, de baixo valor acrescentado e de fraca incorporação tecnológica.

Em 2026 a luta será o caminho!

O desenvolvimento e intensificação da luta dos trabalhadores e das massas populares serão factores decisivos para a derrota do pacote laboral e para a melhoria das condições de vida do povo.

É com a luta que resistiremos e avançaremos. No imediato é também decisivo o desenvolvimento do trabalho para levar a luta até ao voto, afirmando a candidatura de António Filipe a Presidente da República como factor de afirmação do trabalho e dos direitos dos trabalhadores. Uma candidatura que, como refere o Comité Central, «rejeita a submissão do País ao poder económico, que afirma a soberania e independência nacionais como condição para o desenvolvimento do País, que corresponda aos interesses e às aspirações do povo; que defende a paz e rejeita o militarismo e a guerra; que dá continuidade a um imenso legado de luta em prol das liberdades e direitos democráticos e contra o fascismo; que é portadora e que projecta os valores de Abril no futuro de Portugal».

 

Vladimiro Vale