- Nº 2718 (2025/12/31)
De súbito a cidade parece banhada de alegria
estamos juntos meu Amor
possessos da mesma ira justiceira
Daniel Filipe
Somos o tempo em marcha, a antologia que as edições Avante! publicaram para comemorar os 100 anos do nascimento de Daniel Filipe, é um dos grandes acontecimentos literários deste final de ano.
Contando com um valioso prefácio de José António Gomes, num texto que enquadra a poesia do autor de Pátria, Lugar de Exílio (1963), percorrendo o labor poético de uma das vozes poéticas mais singulares da nossa literatura, referindo esse percurso desde os tempos iniciais na revista Távola Redonda, do livro de estreia Missiva (1946) e, nos finais dos anos 1950, a passagem muito impressiva de Daniel Filipe pela direcção literária (entre o 1.º e o 6.º números) dos importantes fascículos de poesia Notícias do Bloqueio, ao lado de Egito Gonçalves, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão, António Rebordão Navarro e Ernâni Melo Viana, considerados nomes pendulares da geração neo-realista do Porto, ou de uma segunda geração neo-realista, como bem a definiu J.B. Martinho11 até a esse título referencial que é A Invenção do Amor e Outros Poemas (1965). José António Gomes investe a sua incursão crítica mais substantiva nos dois livros que constituem este Somos o tempo em marcha: Amiga Distante (1956) e Pátria, Lugar de Exílio (1963).
José António Gomes não deixa de assinalar, em relação ao 2.º título, ser um livro que «não podia deixar o leitor indiferente ao quadro nacional e internacional em que estes versos vinham à luz do dia: a Guerra da Coreia, terminara em 1953; na Indochina, agravava-se a guerra no Vietname; e, contrariando as aspirações independentistas dos povos colonizados, o governo português decreta, em 1961, pela voz do ditador Salazar: Para Angola e em força!. Era o início, então, da Guerra Colonial em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.»
Recado para a Amiga Distante (1957), está dividido em dois tempos: Prelúdio e Canta Um Pássaro Azul na Madrugada. A abrir o primeiro campo de poemas, e tendo como interlocutor privilegiado a amiga distante, ou a “mulher amante”, recorrente em quase toda a poesia de Daniel Filipe, temos um poema que, corajoso, logo nos primeiros versos, não esconde ao que vem: Cerraram as janelas. Proibiram/os caminhos, além./Negaram-nos a esperança,/o sonho, a própria morte voluntária./Mas não estão ainda satisfeitos. Querem o nosso amor, também./Nada podemos conservar – a não ser as algemas,/prisioneiros que somos na pátria dominada.
Na segunda parte de Recado para a Amiga Distante, o discurso é menos caudaloso, mais lírico e contido, embora os poemas mantenham o mesmo fulgor combativo e de denúncia: Canta/pássaro azul de asas inúteis/tua sede de sonho e horizonte/E tu peixe cativo/olha à volta da célula de vidro/o mundo e a liberdade proibida.
A poesia de Daniel Filipe, como a dos seus companheiros de jornada (para utilizar aqui um termo caro aos autores neo-realistas), não está dissociada do posicionamento resistente que esta geração, como a anterior, mantiveram em relação ao fascismo de Salazar, dado não ser possível pensar-se esta poesia, como a do Novo Cancioneiro, desligada de uma preclara participação política e da vertente crítica que ela consubstanciava, aliada ao materialismo dialéctico. Assim, ainda no primeiro grupo de poemas de Recado para Uma Amiga Distante, um poema aborda o estupor da bomba fascista dos EUA, sobre Hiroxima e Nagasáqui, Ergue-se a tua voz sobre os escombros/do que foi o país, a cidade, o teu lar:/oito milhões de mortos alinhados/de encontro ao muro branco derradeiro. No poema seguinte, o discurso denunciador das guerras e da normalização do horror, é ainda mais claro, A guerra bacteriológica a bomba atómica/oh que súcia meu Deus […] E guerras e mais guerras e mais guerras/que hão-de pôr fim a todas as guerras/ a mesma cantiga de sempre.
Em Pátria, Lugar de Exílio, que abre com uma epígrafe de Aragon, as “representações do fascismo” são ainda mais explícitas, temos na 4.ª canção, o grito absoluto, o desejo que a Pátria, esse lugar de homens exilados no seu próprio chão, se regenere e a esperança, apesar dos pesares, seja possível: Roga por nós, ó pátria, ó sonho sem fronteiras/por nós a quem recusam a alegria, /a liberdade, o pão de cada dia/a vida verdadeira! […] Contigo iremos pela noite fora/cantando. Erguendo rútilas bandeiras/por sobre aldeias, campos, sementeiras, /como os arcanjos portadores da aurora.
Esta antologia, enriquecida pelas expressivas ilustrações de Manuel San Payo, junta dois títulos maiores da poética de Daniel Filipe e é, ainda hoje (sobretudo, hoje!), um livro actualíssimo e necessário. Estamos nestes insanos tempos, perante as mesmas angústias existenciais, o mesmo ultraje, envoltos na mesma placidez burguesa, que ergueram a torrente discursiva dos poemas do autor de A Invenção do Amor: o mesmo pendor belicista que se vivia nos anos 1950/60, os senhores da guerra, agora mais aguerridos, armados de inflamada retórica, dispostos a dizimar gerações de sangue alheio, o mesmo ódio ao outro, impondo o mesmo exílio às ideias que libertam, o mesmo Bloqueio. Um livro que, como afirma José António Gomes, reclama, por isso, leitores nas novas gerações.