Olhares artísticos sobre a Reforma Agrária
Esta iniciativa da Casa do Alentejo é de uma importância notável, para que a memória não se apague
A Casa do Alentejo está a organizar um programa comemorativo do 50.º aniversário da Reforma Agrária para destacar a sua importância na transformação económica e cultural dessa região. Uma determinação que deve ser vivamente saudada para lembrar o que foi essa luta do período mais marcante da história do Alentejo.
A relevância desta iniciativa é a de não deixar que a memória se apague sobre esse período, temporalmente curto, em que os exploradíssimos trabalhadores alentejanos, depois de muitos anos de heróicas lutas, tomaram o seu destino nas suas mãos, assumiram o controlo produtivo e económico de um território deprimido, sujeito a uma exploração brutal por uma casta parasitária de latifundiários. Uma região onde, durante o fascismo, aconteciam as mais brutais arbitrariedades num mundo de miséria rural, como José Saramago retratou em Levantado do Chão.
Reforma Agrária que decorreu entre momentos generosos e nobres e outros falhados, foi desde o princípio atacada em várias frentes que culminaram no pós-25 de Novembro nas actuações miseráveis promovidas por um Ministério da Agricultura dirigido por um sicofanta que acabou vitimado politicamente pela sua enorme ambição que não olhava a meios para atingir os fins, sendo no entanto recompensado com prebendas de vária ordem concedidas pelos poderes económicos que não abandonam os seus mercenários.
Foi uma longa luta de resistência, com episódios sangrentos como o que, há 35 anos, vitimou dois trabalhadores da UCP Bento Gonçalves, no concelho de Montemor-o-Novo: Caravela, de 54 anos, e Casquinha, de 17, mortos a tiro pela GNR. Ninguém foi responsabilizado, um acontecimento que foi imortalizado pelo pintor João Hogan.
O Alentejo viveu a sua maior transformação, o que era insuportável para os poderes económicos que manipulam os poderes políticos, numa porta giratória que continua bem oleada. A Reforma Agrária desde sempre enfrentou ventos contrários, alguns até inesperados outros derivados de insuficiências próprias, dificuldades que de modo algum anulam a sua insuperável e decisiva importância. Só foi de facto vencida pela Política Agrícola Comum da festejada Europa Connosco, com todas as nefastas consequências tanto no plano produtivo da agricultura nacional como até no plano ecológico.
Para que a memória não se apague, para que a memória não seja degradada, aviltada – não são poucos, os que persistem em falsificar a história – esta iniciativa da Casa do Alentejo é de uma importância notável. Inicia-se com uma exposição de artes visuais, fotografia, pinturas e desenhos de Álvaro Rosendo, Manuel Gantes, Manuel San-Payo, Miguel Mira, Teresa Carvalho e Valter Vinagre. Uma mostra representativa dos muitos artistas que apoiaram a Reforma Agrária que, entre outras obras, produziram belíssimos murais que naturalmente as condições meteorológicas apagaram. Uma exposição que é também representativa dos muitos movimentos, nacionais e estrangeiros, de solidariedade que a Reforma Agrária suscitou entre figuras públicas e muitos anónimos numa bela e humaníssima demonstração de apoio àqueles trabalhadores que assumiram os destinos da história nas suas mãos para contribuírem para um Portugal em transformação pelas portas que Abril tinha aberto e que muitos procuraram e continuam a procurar persistentemente fechar nas gavetas para onde atiraram e atiram conquistas e esperanças.
Ir à Casa do Alentejo ver esta exposição, participar em todos os sucessos desta revisitação histórica dos 50 anos da Reforma Agrária é um imperativo democrático, um sinal de resistência e esperança.




