- Nº 2714 (2025/12/4)

Milhares, no Porto e em Lisboa, manifestam-se pela Palestina

Nacional

Sob o lema «Todos pela Palestina! Fim ao Genocídio! Fim à ocupação!», milhares marcharam, no dia 29, pelas ruas do Porto (da praça da Batalha à Trindade) e de Lisboa (dos Restauradores ao Cais do Sodré) para assinalar o Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestiniano.

O cessar-fogo na Palestina entrou em vigor no dia 11 de Outubro. Desde então, quase dois meses depois, que se continuam a multiplicar os bombardeamentos, as mortes e a destruição num território onde a ajuda humanitária continua a ser impedida de entrar. Crescem as dificuldades de subsistência, a doença e a fome. Com a conivência dos EUA e da UE, o estado israelita – responsável por estes crimes e pelas 64 mil crianças mortas ou feridas ao longo dos últimos dois anos – já violou o cessar-fogo mais de 500 vezes.

Mas, ao mesmo tempo, cresce também, em todo mundo, a indignação pelos bárbaros crimes cometidos diariamente por Israel. Em Portugal, no Porto e em Lisboa (à semelhança de cerca de 90 cidades na Europa e tantas outras por todo o mundo), não foi diferente. Milhares marcharam em solidariedade com o povo resistente ao som de palavras de ordem como «Palestina independente!», «Palestina vencerá!», «Israel é culpado de um povo massacrado», «Em cada cidade, em cada esquina, somos todos Palestina», «Libertar a Palestina, acabar com a chacina» ou «Israel é violência, Palestina é resistência».

Às entidades promotoras do protesto (o Conselho Português para a Paz e Cooperação – CPPC, a CGTP-IN, o Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente – MPPM e o Projecto Ruído) juntaram-se, com o seu empenho, mais de centena e meia de organizações. Muitas delas, presentes nas manifestações, identificadas pelas faixas que seguravam. Em Lisboa, atrás do grupo de percussão Porbatuka, podia ler-se algumas das exigências trazidas pelos manifestantes: «Todos pela Palestina, fim ao genocídio», «Fim à ocupação, cessar-fogo permanente», «Parar a guerra, dar uma oportunidade à Paz» ou «Todas as crianças têm direito à Paz».

Terminado o percurso, houve lugar a um momento de intervenções. Em Lisboa, falaram dirigentes de todas as associações promotoras e, no Porto, por força da chuva que caiu ao longo da tarde, foi lida uma intervenção conjunta (ver caixas).

António Filipe presente
António Filipe, candidato às eleições presidenciais de 2026, participou na manifestação realizada no Porto, prestando assim solidariedade ao povo palestiniano.

 

PCP solidário

Uma delegação do PCP, encabeçada pelo seu Secretário-Geral, marcou presença na manifestação. Em declarações à imprensa, Paulo Raimundo salientou que, apesar do «esforço muito grande para retirar este problema do foco mediático», o povo palestiniano continua a ser massacrado. «Estamos perante um massacre que continua, uma ajuda humanitária que continua a não conseguir entrar na Palestina. Estamos perante a consumação de todos os problemas que se vinham a arrastar até aqui», afirmou.

«O Estado português reconheceu, e bem, o Estado da Palestina. Tardiamente, mas reconheceu. É um passo importante. Agora, à parte isso, parece estar tudo igual», acusou o dirigente. «As relações com o Estado sionista de Israel mantêm-se tal e qual. Aliás, a Casa da Moeda foi imprimir uma moeda israelita há poucos dias», exemplificou.

«É preciso que o estado português tenha uma atitude mais assertiva para que, em consonância com aquilo que recentemente decidiu, concretize o caminho essencial para acabar com o massacre em curso», acrescentou.

 

Vozes solidárias

«Israel violou mais de 500 vezes o cessar fogo, matando, ferindo, destruindo. E, ao mesmo tempo, impede a entrada da ajuda humanitária necessária, continuando a usar como armas de guerra a fome, a doença e a falta de condições mínimas de subsistência, agravadas ainda mais agora com a chegada do Inverno e de chuvas torrenciais. O que se exige no imediato é um cessar-fogo permanente e respeitado e a retirada completa das forças militares israelitas, a entrada de toda a ajuda humanitária, a reconstrução na Faixa de Gaza, desde logo dos hospitais, das escolas, das habitações.

É que na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental se ponha fim à ocupação por parte de Israel e à expulsão e perseguição da população palestiniana e à continuação da construção de mais e mais colonatos ilegais. (…)

O que se exige que seja cumprido e que nem o plano Trump, nem a Resolução do Conselho de Segurança da ONU aprovada em 17 de Novembro garantem, é a concretização do Estado da Palestina independente e soberano, nas fronteiras anteriores a Junho de 1967 e capital em Jerusalém Oriental e o respeito do direito de regresso de todos os refugiados palestinianos.»
Isabel Camarinha, CPPC

«Israel pratica esta política genocida com o apoio declarado dos EUA, com a conivência dos aliados da NATO e da UE. (...)

Este acordo de cessar fogo não tem garantido a segurança do povo palestiniano, cujos mortos ascendem aos 68 mil de há dois anos para cá, não garante a retirada do exército israelita, não garante o fim da ocupação. Antes vemos desenrolar planos para efectivar e perpetuar esta ocupação, para dar lugar aos planos que o imperialismo tem reservados para a região, atacando o direito à autodeterminação e à soberania do povo palestiniano, o direito do retorno dos seus refugiados. Direitos atacados e negados há décadas, mas preconizados por sucessivas resoluções da ONU.

O reconhecimento do Estado da Palestina por parte do governo português, fruto de décadas de luta do povo português e da resistência palestiniana, deveria não só ser incondicional e pleno como não esconde a sua conivência com o genocídio e a ocupação e obriga à denúncia dos crimes de Israel, que não cessaram, e o seu fim imediato, a exigência da entrada sem obstáculos da ajuda humanitária, a criação do Estado da Palestina livre, independente e soberana, de forma incondicional, de acordo com o direito internacional.»
Dinis Lourenço, CGTP-IN

«Que o Governo português, a par da maioria dos governos europeus e de braço dado com os EUA, é cúmplice do genocídio, isso não chega a ser novidade. Mas o problema é mais fundo. Pergunta-se: quantos órgãos de comunicação social, quantos jornalistas e comentadores, interrogaram o primeiro-ministro, o ministro dos Negócios Estrangeiros, o ministro da Defesa, qualquer outro representante do Governo, sobre o navio Holger G ou o negócio da Casa da Moeda? Em quantos debates sobre as eleições presidenciais, os candidatos foram interpelados sobre o genocídio na Faixa de Gaza? Quantos foram confrontados com o seu silêncio, as frases feitas ou as justificativas até, quando Israel matava à fome o povo palestino, quando bombardeava escolas e hospitais, quando implodia bairros inteiros, assassinava médicos e jornalistas, quando torturava barbaramente os palestinos presos?»
Carlos Almeida, MPPM

«Mais de 64 mil crianças foram mortas e ficaram feridas às mãos de Israel, nos últimos dois anos. Morreram mais crianças em Gaza desde 7 de Outubro de 2023 do que em conflitos no mundo, nos últimos 4 anos. Estima-se que 132 mil crianças com menos de 5 anos estão em risco de morte por desnutrição aguda. Mais de 39 mil crianças em Gaza perderam um ou os dois pais, nos últimos dois anos. Desde o anúncio do cessar-fogo, pelo menos 67 crianças Palestinas morreram em Gaza. Estes são alguns títulos que podemos ler quando pesquisamos por notícias sobre Gaza. (…)

Os jovens portugueses têm, desde sempre, um papel de relevo na afirmação da paz e da solidariedade, lembremos as lutas da juventude, durante o fascismo, pelo fim da guerra colonial e pela soberania dos povos, pela paz e solidariedade. Mas também com muitas outras, desde o Iraque à Ucrânia, passando pela Jugoslávia e Timor. É aspiração dos jovens portugueses, da juventude de todo o mundo, à paz. (…)

Os jovens [palestinianos] precisam de uma casa, de uma família, de um lugar onde possam crescer, aprender, rir, brincar, sem sofrimento nem medos, onde possam sonhar com o futuro, onde o possam construir. Da parte dos jovens portugueses, terão sempre uma enorme solidariedade.»
Inês Jorge, Projecto Ruído

«O caminho para a Paz constrói-se todos os dias, promovendo a solidariedade, a cooperação e a amizade entre os povos e defendendo o seu direito à paz, condição essencial para o desenvolvimento, a justiça e o progresso social, para a segurança e o bem-estar da Humanidade.

Daqui saudamos todos os que se empenham na luta pela Paz e na solidariedade, saudamos os trabalhadores portugueses e a CGTP-IN pela luta em curso contra o pacote laboral e a greve geral de 11 de Dezembro. Uma greve geral para exigir um outro rumo, um rumo de progresso e justiça social, mas um rumo também de um país mais justo e soberano, onde a solidariedade entre os povos é questão central.»
Intervenção conjunta das organizações promotoras, lida no Porto por Joana Machado