Registos de uma obra “viva” e em perpétuo movimento

Terminaram as comemorações do V centenário de Camões, promovidas pelo PCP, com o colóquio «Camões, poeta do povo num mundo em mudança». Durante a manhã e tarde de sábado, no Auditório Camões da Escola Secundária que tem o nome do poeta, em Lisboa, mais de uma dezena de intervenções expressaram o legado e actualidade da sua obra.

Cantou o povo e notou, «no mundo tão quieto», o seu «desconcerto»

Camões foi o poeta maior da pátria portuguesa. Foi o poeta do povo num mundo em mudança, assinalando as contradições desse mundo e o seu movimento, num precioso contributo para a compreensão da natureza dialéctica do real. O seu legado foi sempre um campo da batalha ideológica, campo onde o PCP sempre esteve e cujas comemorações do V Centenário do seu nascimento, iniciadas em 2024 e agora terminadas, foram mais um relevante capítulo.

Na intervenção inicial, Paulo Raimundo destacou a «assombrosa cultura humanista do poeta», cuja obra foi «marginalizada pelos poderes dominantes da época» e, mais tarde, «aproveitada pelo fascismo» numa manobra de propaganda. O Secretário-Geral do PCP afirmou ainda a obra de Camões como um instrumento para a construção de «uma democracia simultaneamente política, económica, social e cultural, que assuma a educação, a ciência e a cultura como vectores estratégicos para o desenvolvimento integrado do nosso País».

Aprender para transformar
Entre as treze intervenções que preencheram o dia, houve espaço para tudo. Da música à educação, passando pela astronomia, a literatura, a história, o cinema, a pintura e o teatro, abordou-se uma obra tão grande como o povo e a pátria que exalta.

Máximo Ferreira falou do impacto e relação de Camões com o estudo astronómico, destacando o «amor à natureza e ao conhecimento» e a capacidade de «despertar nos outros a curiosidade». «Apesar de não ter o entendimento profundo da causa das coisas», tinha o espírito que permitiu que outros, mais tarde, conquistassem novos conhecimentos. Abordando o tema “Camões na História do PCP”, Carina Infante do Carmo referiu o papel do poetapara a«construção da identidade portuguesa» e a «cristalização da língua», a sua «atenção à condição humana», mas também as contradições da sua obra, inserida num tempo histórico definido. Mencionou vários momentos em que o PCP esteve na luta pela valorização do conteúdo positivo de Camões e da sua obra, com ênfase para as comemorações do IV centenário da sua morte, em 1980.

João Luís Lisboa baseou-se nos estudos de António Borges Coelho e Armando Castro para abordar Camões e a sociedade do seu tempo. «A intervenção destes dois pensadores, e a sua natureza,decorre do entendimento dos comunistas sobre a leitura de Camões», sendo que uma «mostra o fervilhar da tensão e do movimento e outra a estabilidade da estrutura económica». Citou ainda Borges Coelho, que afirmava que o «estudo de Camões é uma tarefa de cidadania», pois «transporta raízes vivas para o nosso futuro». «O que é que a História podia ter sido se não tivesse acontecido Camões?» Partindo deste questionamento, Hélio Alves discutiu o impacto de Camões na literatura portuguesa e universal, abordando vários contemporâneos seus e afirmando que, no plano universal, o seu grande impacto «surge quando a questão das nações se torna central no pensamento europeu».

Ensinar e aprender Camões são tarefas de dimensão assinalável, do tamanho da importância do seu exímio cumprimento. Partindo da importância que deveria ter o ensino de Camões nas escolas, António Carlos Cortez reflectiu sobre o panorama da educação, a ausência da variedade da lírica camoniana nos currículos, as deficiências na formação dos professores, a debilidade das relações pedagógicas e o papel negativo dos exames e outras formas de avaliação. Rita Marnoto falou sobre o papel de Camões na consolidação da língua, mas também na “oferta” de novas palavras à poesia, utilizando o exemplo da palavra «pretidão». Recorrendo a Pietro Bembo, a investigadora traçou ainda as diferenças e avanços que Camões protagonizou face aos seus contemporâneos, nomeadamente na descrição do amor e da mulher. Já José António Gomes falou da influência de Camões em vários escritores modernos e contemporâneos, nomeadamente na obra de Domingos da Mota, José Miguel Braga, Francisco Duarte Mangas e Augusto Baptista.

Sara Reis Silva também abordou a obra de diversos autores, mas focando-se na temática da literatura infanto-juvenil. Os exemplos escolhidos foram “Aventuras do Trinca-Fortes” de Adolfo Simões Müller; ”Luís de Camões” de José Jorge Letria; “Barbi-Ruivo, o meu primeiro Camões” de Manuel Alegre e “Camões, o super-herói da língua portuguesa” de Maria Alberta Menéres. José Augusto Estevesfalou de um «contributo para o progresso colectivo» e prendeu-se na importância da coragem e na mensagem e valores que emanam da obra de Camões, da exaltação do povo e da pátria, valores e mensagem que permanecem vivos e se projectam na actualidade.

As últimas quatro intervenções navegaram as águas das diversas artes e expressões culturais que dialogam com Camões. Na música, Fausto Neves citou Armando Castro para lembrar como «Camões revelou o carácter parasitário e precário das estruturas económicas, sociais e culturais», antes de focar a sua intervenção em diversos temas camonianos cantados por Amália, José Afonso e nos sonetos musicados por Lopes-Graça. Afirmando que Camões foi um «poeta perfeitamente ligado com a imagem», Vítor Serrão inseriu o poeta na tradição do “maneirismo” e explorou a sua relação com Fernão Gomes. «Camões não foi árvore sem floresta, não estava isolado, tinha contexto e artistas contemporâneos com quem dialogou.»

Maria João Brilhante foi em busca de um «Camões desconhecido», abordando a sua relação com o teatro. Camões viveu numa época em que o teatro se começava a autonomizar enquanto arte e, citando Luís Miguel Cintra, representar os seus três autos «faz-nos viver». «Houve vida diferente, boa ou má» e quando representamos, «outra vida nos dá» «e fica a nossa vida maior». Por fim, Paulo Cunhautilizou dois filmes para abordar a forma como a sua figura é representada, construída e, em certos casos, instrumentalizada no quadro do cinema. Com o recurso a “Camões” de Leitão de Barros e “Taprobana” de Gabriel Abrantes, o investigador discutiu o impacto dos contextos ideológicos e de produção para a sétima arte.

Expressão cultural de um mundo em mudança
Coube a Manuel Rodrigues, do Grupo de Trabalho das comemorações e membro da Comissão Política, realizar a intervenção de encerramento do colóquio e, consequentemente, das comemorações. «O PCP esteve e está nestas comemorações por direito e vontade próprios, que resultam da concepção de cultura que propõe e defende» e acrescentou:«As comemorações do V Centenário de Luís de Camões que o PCP promoveu, e que agora terminam, inserem-se numa concepção de cultura como factor determinante para a construção de uma sociedade livre. Para o PCP, o direito à cultura ocupa um lugar central no seu programa, componente integrante de uma democracia avançada inspirada nos valores de Abril».Exortou ainda a que todos «lutem pela valorização da cultura como um direito essencial, que a Constituição consagra.

Terminadas as comemorações, fará sentido lembrar as palavras de Óscar Lopes, quando disse que «só se pode ver Camões e todas as suas condignas dimensões humanas se colocarmos a sua obra na perspectiva de vários séculos de luta, quer do povo português, quer de muitos outros povos, contra a exploração feudal, capitalista e capitalista-imperialista, a luta pela autodeterminação real, inclusivamente económica e cultural, do povo português e de todos os povos que com ele pode hoje livremente dar-se as mãos, num combate que continua, e agora inequivocamente em comum». 

«Quem pode ser no mundo tão quieto,

ou quem terá tão livre o pensamento,

quem tão experimentado e tão discreto,

tão fora, enfim, de humano entendimento

que, ou com público efeito, ou com secreto,

lhe não revolva e espante o sentimento,

deixando-lhe o juízo quási incerto,

ver e notar do mundo o desconcerto?»

- Luís de Camões, «Quem pode ser num mundo tão quieto»

 

Do lado certo, sempre

«Apesar das diferenças históricas entre épocas que distam mais de quatrocentos anos entre si, Camões não vive fechado nos livros. Continua vivo cá fora, porque, para além da beleza imortal de "Os Lusíadas" e da Lírica, estão patentes na sua obra as mais claras promessas de um futuro ainda por conquistar, as mais legítimas ambições que a Humanidade alcançará.» - Avante! de 17 Julho de 1980.
«Só um regime democrático conseguirá elevar Camões ao seu verdadeiro lugar – o do magnífico cantor das coisas nacionais, das coisas humanas universais, do nosso povo -, esse povo a quem um dia o Portugal livre e independente, pacífico e democrático, tornará acessível a obra imortal de Luís de Camões, esse povo que em breve dia celebrará condignamente a memória do grande poeta e, com ele, «a ditosa Pátria nossa amada.» - Avante! da segunda quinzena de Junho de 1957.