- Nº 2714 (2025/12/4)O encerramento das urgências do Hospital dos Covões, em Coimbra, dificulta o acesso à saúde a parte dos residentes no distrito. Na quarta-feira, 26 de Novembro, António Filipe foi ao hospital para reunir com representantes de utentes e profissionais.
O encerramento do serviço de urgências no Hospital dos Covões nem é algo que esteja desligado de um longo processo, nem é um caso isolado no panorama nacional. O fecho de diversas valências, o desinvestimento na infra-estrutura e a desvalorização dos profissionais são aspectos de uma história que, sendo a deste hospital, poderia ser a de muitos outros pelo País fora.
No encontro da passada semana, ouviu-se as experiências de profissionais de Saúde, delegados e dirigentes sindicais, assim como de representantes de movimentos de utentes. Após a manifestação do passado dia 14 de Novembro contra este encerramento, continua a ser necessária a defesa de todos os serviços do hospital, assim como do seu papel no distrito.
Nada de novo
Já em 2012 houve a intenção de encerrar o serviço de urgências deste hospital, entretanto derrotada pela luta dos utentes e profissionais. No entanto, não foi travado o rumo mais geral de encerramento de outras valências, caso da pneumologia e parte da cardiologia, como uma médica relatou na reunião. A profissional afirmou ainda que há outros hospitais em que se augura destinos similares, como Matosinhos ou Gaia. Os restantes profissionais presentes, de vários serviços e unidades diferentes do distrito de Coimbra, abordaram os impactos da criação do CHUC (ULS Coimbra), assim como os ataques feitos às suas carreiras. Um deles apontou que, neste momento, se verificam situações que antes não aconteciam, como «colegas a ir para os privados», desrespeito pelos turnos e uma «grande reticência em implementar a carreira».
Da parte dos utentes, denunciou-se os «interesses economicistas» ao «cortar serviços para entregar aos privados», com as populações a serem «sujeitas a deslocações cada vez maiores», como para Oliveira do Hospital ou Miranda do Corvo. Um utente aproveitou ainda para reflectir sobre a sua situação pessoal e a história de como o SNS o salvou. Depois de uma delicada intervenção, o utente teve de voltar às urgências (a pedido do hospital), onde ficou «vinte horas numa maca, nas urgências do Hospital de Coimbra». No meio deste tenebroso episódio, lembrou o momento em que, durante uma troca de turnos, ouviu uma enfermeira que, no meio de tanto alvoroço, desabafou: assim «não há milagres», comparando o processo de deslocação de enfermeiros entre tantas macas com um engarrafamento na ponte 25 de Abril.
Dirigentes do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses denunciaram a política de privatização em curso, aprofundando o tema da «retirada da referenciação do INEM para urgência», a que este hospital foi sujeito. Com a retirada da referenciação, o hospital passou a receber substancialmente menos doentes, contribuindo assim para justificar o encerramento do serviço de urgências.
Privados a ganhar
Intervindo no final da conversa, António Filipe destacou que este é mais um, entre muitos casos, que marcam a degradação do SNS. «Quando se quer encerrar serviços, arranja-se sempre justificações graciosas», afirmou, referindo-se às desculpas dadas relativamente a esta situação. Enquanto a desvalorização permanecer, garantiu, «os utentes e os profissionais ficam sempre a perder», enquanto, por outro lado, é o negócio privado e da doença que lucra com este estado de coisas, muitas vezes a reboque de financiamento público. É uma questão de olhar para o encerramento de serviços no público e comparar com a abertura de hospitais privados, uma realidade clara e trágica de verificar, que tanto importa combater.