Submisso ou silenciado
O Congresso da Juventude Comunista Portuguesa realizou-se no último fim-de-semana. Sendo um acontecimento alto da vida da JCP e do PCP, foi também um importante momento de discussão e afirmação, não apenas do mundo novo que os jovens comunistas portugueses se empenham em construir, mas também da luta da juventude portuguesa pelos seus direitos. Como questionou o Secretário-Geral do PCP na sessão de encerramento: «Quem poderia ter a intervir no seu Congresso os líderes das grandes manifestações do Ensino Superior e do Ensino Secundário? Ou os dirigentes das lutas dos jovens trabalhadores? Ou das lutas pela Paz ou pela habitação?»
Sabemos, por experiência própria, que os tempos não estão para grandes atenções mediáticas a realizações como esta, à luta de quem não se resigna ao individualismo, à política do medo e às inevitabilidades sem saída. Na comunicação social dominante, capturada pelo poder económico e submetida ao imediatismo e ao soundbite, não costuma sobrar espaço para mais do que um ou outro flash das intervenções ou declarações do Secretário-Geral. Desta vez, nem isso: em nenhum noticiário de qualquer das estações televisivas foi possível ver um segundo da intervenção do Secretário-Geral do PCP ou de qualquer um dos mais de 90 delegados que intervieram no Congresso. Não fosse a intervenção de António Filipe no sábado, inserida sem contexto numa peça da RTP com declarações de vários candidatos às eleições presidenciais, e não haveria uma única imagem do Congresso nos noticiários televisivos.
Este episódio, para lá do que evidencia do escandaloso silenciamento mediático a que o PCP é sujeito, reflecte uma concepção perversa que norteia o noticiário político, em particular nas televisões: ou se fala nos temas que quem as dirige decide que interessam – por sinal, quase sempre coincidentes com a agenda reaccionária –, ou não passa nada. Quando o acesso aos órgãos de comunicação de massas só é permitido quando se fala do que consta da lista de temas aceites pelo poder, já não se trata apenas da perversão do jornalismo, mas de uma forma de censura.
O mesmo sucede na escolha dos protagonistas do comentário televisivo, cada vez mais proeminente e ocupando espaços que habitualmente eram exclusivos do jornalismo, como as entrevistas. Sob o pretexto falacioso de uma modernidade inovadora, a CNN repetiu a fórmula das últimas eleições legislativas, promovendo entrevistas com os candidatos a Presidente da República que colocam comentadores a fazer perguntas. Se na anterior versão ainda houve um esforço para escolher personagens que aparentam independência, ou pelo menos sem filiação partidária conhecida, na actual campanha elevaram a parada e colocaram pela frente dos candidatos um actual dirigente do PS e um ex-presidente do CDS.
Sem surpresa, a presença de António Filipe nesse espaço não foi utilizada para promover o esclarecimento, mas para um desfiar de todas as atoardas anticomunistas com vista a atacar a candidatura: objectivo gorado porque, com o seu humor, António Filipe demonstrou mais uma vez reunir as condições para ser o Presidente da República de que o País precisa.




