Outubro, aurora da nova época
Outubro continua a inspirar a necessidade da luta e mudança revolucionárias num mundo
A Grande Revolução de Outubro comemora 108 anos. Foi a 7 de Novembro de 1917 (25 de Outubro no antigo calendário) que os destacamentos de operários e soldados sob direcção do partido bolchevique concretizaram o assalto ao Palácio de Inverno e tomaram controlo dos pontos nevrálgicos de Petrogrado, então capital russa, consumando a deposição do Governo Provisório que sucedera ao fim da dinastia dos Romanov e do regime monárquico russo, na Revolução de Fevereiro.
Menos de um ano depois da abdicação do czar Nicolau II, a instituição do poder supremo soviético tornava-se realidade com a formação do novo governo revolucionário dirigido pelos bolcheviques e liderado por Lénine. Numa Rússia de população maioritariamente camponesa e analfabeta, sangrada pela participação na I Guerra Mundial, centro de um império em revolta e desagregação, os decretos da Paz e da Terra estão entre as primeiras medidas do novo poder.
O triunfo da revolução proletária e socialista russa, o assalto aos céus, nas palavras cunhadas por Marx e Engels para a Comuna de Paris (1871), representou um ponto de viragem na história russa e universal, o grande acontecimento definidor da nossa época, de transição do capitalismo para o socialismo.
Pela primeira vez, as classes oprimidas e exploradas tomam o poder na sua plenitude e lançam-se na tarefa pioneira de construir uma sociedade alternativa, superior ao capitalismo, o socialismo. Um processo acidentado, não linear e extraordinariamente complexo nas condições históricas em que a situação revolucionária amadurecera numa Rússia atrasada, o «elo mais fraco» com uma posição semiperiférica no sistema capitalista. Outubro despontou das entranhas da arrastada crise terminal da Rússia czarista, patriarcal, e realizou a mais profunda transformação social na história da Rússia e dos restantes povos emancipados da tutela imperial, na antiga prisão dos povos, como era apelidada a Rússia dos czares.
Gesta revolucionária inseparável da fundação do primeiro Estado socialista da história, a URSS, no final de 1922. Para trás haviam ficado quatro anos de guerra civil, a derrota da Guarda Branca e dos governos burgueses nacionais que haviam irrompido nos escombros do velho império e, significativamente, a derrota da intervenção estrangeira imperialista que suportou toda a acção contra-revolucionária na vastidão euro-asiática do antigo império, reunindo contingentes militares de 14 países, entre os quais a Alemanha, França, Grã-Bretanha, Estados Unidos e Japão – as classes dirigentes dos dois lados da barricada da I Guerra Mundial.
Ao longo do século XX, a URSS desempenhou um papel incontornável nas grandes conquistas dos trabalhadores e avanços libertadores da Humanidade, do início do processo de construção socialista, à industrialização, introdução dos planos quinquenais e levantamento dos povos oprimidos; da derrota do nazi-fascismo na guerra mais mortífera que a Humanidade conheceu às lutas de libertação nacional, o fim dos impérios coloniais e triunfo das novas revoluções socialistas no mundo.
Foi um caminho não isento de erros e reveses. Mas o fim da URSS e as derrotas do campo socialista na Europa – com toda a sua projecção histórica concreta negativa – não apagam o legado soviético e a actualidade da Revolução de Outubro. Património único de transformação social e construção de um futuro novo, importará continuar a fixar a sua experiência ímpar, os seus acertos e desacertos. Não caindo no erro de os medir pela bitola do tempo actual e não à luz do seu contexto e condições concretas.
Lénine referia que o socialismo acabaria por impor-se fruto de múltiplas tentativas e experiências, num movimento dialético. O sopro da epopeia de Outubro vive e renova-se na resistência e lutas dos explorados e dos povos. Está presente nos processos que persistem hoje no objectivo do socialismo, com saliência para a experiência de “modernização socialista” da China, cuja revolução é tributária da vitória bolchevique e contributo da URSS.
Sobretudo, Outubro continua a inspirar a necessidade da luta e mudança revolucionárias num mundo confrontado com o aprofundamento da crise do capitalismo e o seu cortejo de exploração, guerra e barbárie.




