Temos de construir um Estado que represente as duas comunidades
Elias Demetriou é membro do Departamento Internacional do Partido Progressista do Povo Trabalhador (AKEL), de Chipre. Em entrevista ao Avante!, abordou a ocupação de parte do território do seu país, o desenvolvimento da luta do povo cipriota e algumas das prioridades na luta pela paz.
O território cipriota está a ser usado como um quintal para a agressão que está a acontecer no Médio Oriente
Recentemente, o AKEL tem estado muito activo na denúncia da política do governo, particularmente da “reforma fiscal” anunciada. Como se está a desenvolver esta luta?
Nós consideramos que a reforma fiscal deve promover a justiça social e criticamos o governo por não se concentrar na taxação dos grandes lucros – por exemplo, da banca e das empresas de energia renovável, que são dois exemplos de sectores onde são elevados os lucros. O governo foca-se, sobretudo, noutros sectores que têm um papel produtivo, o que não tornará a situação mais justa, especialmente para a classe trabalhadora. Estamos ao lado dos sindicatos sobre vários assuntos relacionados com essa reforma.
É impossível falar da situação política no Chipre sem referir a ocupação e a divisão do país, que dura há 51 anos. Quais são, aos dias de hoje, os principais aspectos da luta pela reunificação?
Estamos no período mais longo da História sem negociações entre os dois lados. São muitos anos sem negociações. E porque é que não existem? Uma razão está no facto do lado turco ter mudado de posição, apoiando uma solução de dois estados desde 2020. E temos também um líder turco-cipriota que se está a encaminhar nessa direcção. Trata-se de uma liderança que, em teoria, defende uma solução federal, mas que não convence – tanto pelo seu papel histórico em relação ao processo de negociações como pela maneira com que lida com a questão.
Recentemente, cinco pessoas foram presas em território cipriota ocupado. Qual a natureza da situação?
As autoridades turco-cipriotas prenderam-nas para as usar como ferramentas de pressão política noutros assuntos. Vários estrangeiros, principalmente, estão a vender e comprar ilegalmente propriedades (sobretudo propriedades de greco-cipriotas) nas áreas ocupadas. Estes ou foram presos pela República do Chipre ou têm processos internacionais para serem presos noutros países europeus. Então, para exercer mais pressão na República do Chipre, optaram pela detenção ilegal destes cinco greco-cipriotas. Recentemente, prenderam até o seu advogado, um advogado turco-cipriota.
Todos estes casos estão relacionados com o facto de não estarem a decorrer negociações, de não termos qualquer base comum entre os dois lados.
Quais dirias que são os principais interesses que impedem este processo da reunificação de avançar?
No problema de Chipre estão envolvidos, historicamente, muitos interesses e não somente dos protagonistas, as comunidades greco-cipriotas e turco-cipriotas. Há também os interesses da Turquia, da Grécia e da Grã-Bretanha. Isto relaciona-se com o facto de, durante anos, em ambas as comunidades, existirem interesses que se alinham com o status quo actual. Isto relaciona-se com os posicionamentos relativos à ocupação e ao facto de uma parte da comunidade turco-cipriota estar a beneficiar dela. Também a falta de visão comum, especialmente das lideranças actuais, de que deve haver uma visão para um novo começo, uma nova narrativa que unirá as duas comunidades, para construir um Estado que represente ambas, e não afirme uma sobre a outra.
O AKEL denunciou a utilização do território do Chipre na agressão genocida contra o povo palestino. Qual a amplitude desta utilização?
Os governos de direita, o actual e o anterior, fortaleceram as relações com Israel durante os últimos 15 anos. Isto está relacionado com os objectivos e políticas dos EUA na parte leste do Mediterrâneo. Promoveram acordos militares e de segurança, Israel tem acesso a muitas partes do território de Chipre, a serviços de espionagem, aos aeroportos e a portos em partes significativas do território. O território cipriota está a ser usado como um quintal para a agressão que está a acontecer no Médio Oriente.
Como descreverias a necessidade de continuar a lutar e de ter esperança num futuro melhor?
Acreditamos que o papel das forças progressistas pelo mundo é o de revelar as intenções reais do imperialismo. E cremos que isso está, em grande medida, a ser alcançado. Hoje as pessoas forçam muitos governos a mudar as suas políticas quanto a Israel. Estamos a ver agora, por exemplo, o esforço internacional para o reconhecimento do Estado palestiniano.
Se falarmos, em particular, sobre os partidos comunistas e operários, acreditamos que temos de intensificar os nossos esforços comuns, seja em fóruns internacionais, no Parlamento Europeu, nas reuniões internacionais, tornando as nossas vozes mais audíveis, de forma a liderar a luta pela paz. Dou o exemplo do Conselho da Paz de Chipre, um dos muitos organizadores da luta contra o genocídio. Nós consideramos este trabalho um bom exemplo de como as forças progressistas devem liderar esta luta, dando-lhe o conteúdo que deve ter.




