Encontro Desabitado
Lavagante tem tido uma excelente aceitação por parte do público e da crítica
Lavagante: encontro desabitado é o título de uma novela de José Cardoso Pires publicada postumamente em 2008. António-Pedro Vasconcelos dedicava-se no final da sua vida, em 2024, à adaptação desta obra ao cinema, tendo redigido um argumento bastante livre em relação à obra original. Após a morte de Vasconcelos, Paulo Branco e a Leopardo Filmes assumiram a continuidade deste trabalho, tendo produzido o filme com a realização entregue a Mário Barroso.
Lavagante foi filmado entre Junho e Julho de 2024 em múltiplas localizações e com uma pequena equipa. A estreia comercial aconteceu recentemente estando neste momento na terceira semana de exibição, carreira assinalável para um filme português de autor, tanto mais que tem tido, mesmo sem uma promoção demasiado evidente, uma excelente aceitação por parte do público e da crítica.
O filme é bonito plasticamente e narrativamente interessante. António-Pedro Vasconcelos foi além da história de Cardoso Pires, criando novas personagens e acontecimentos, mas mantendo-se fiel ao espírito da mesma. Mário Barroso conseguiu, parece-me, traduzir as atmosferas suscitadas pela leitura do livro e os sentidos propostos e, acima de tudo, superou-se na direcção de actores e na construção do ritmo e exposição de cada um deles o que resultou em personagens complexas. É justo o destaque ao trabalho de Júlia Palha, que tem tanto de bela e diva como de extraordinária actriz, e ao de Diogo Infante, que dá corpo a uma personagem interessantíssima que no livro não existe como tal, sendo apenas nomeada. Conta também a singular direcção de fotografia e a iluminação. Por causa do filme, temos também a oportunidade de aceder a uma novíssima edição do livro (com capa com o cartaz do filme), que antes era muito difícil de descobrir e permaneceu durante muito tempo desconhecido, não obstante ser de um nome maior da literatura nacional.
Vem este discurso a propósito não apenas da importância de não deixarmos de ir ver este filme, mas de algo que me inquieta enquanto professora de cinema em Portugal e como amante de cinema e literatura: como romper com a vasta iliteracia da população portuguesa em relação a estas duas formas de expressão cultural, em particular no que diz respeito à sua produção nacional, e surpreendentemente (ou talvez nem tanto) junto da camada de população que estaria mais preparada para lidar com estes objectos, os jovens a frequentar o Ensino Superior?
É sabido que a população em geral tem níveis de escolaridade e literacia baixos e que as condições socioeconómicas da maioria das famílias não viabilizam a aquisição de objectos culturais que têm preços elevados. O Estado tem levado a cabo, ao longo de vários anos, iniciativas importantes como o Plano Nacional de Leitura (que agora se propõe extinguir) ou o Plano Nacional de Cinema, que têm contribuído de alguma forma para o incremento de algumas práticas culturais junto da população integrada na escolaridade obrigatória. Não há, contudo, outras políticas culturais ou educativas, ou um serviço público de cultura que nos ajude a resolver este problema.
Julgo que se trata efectivamente de um problema na medida em que põe em causa o direito constitucionalmente reiterado de que os cidadãos devem poder aceder à criação e fruição cultural. Bem sabemos que o discurso dominante postula que o mercado se encarrega de nos oferecer propostas culturais que se declaram diversas, que fomos ao longo dos anos colonizados por essas referências que determinam a regra do que julgamos querer consumir (a palavra aqui é intencional e distingue-se de fruir) e ainda andamos convencidos de que temos liberdade de escolher o que mais nos apraz.
Neste contexto, o que prevalece na maioria das cabeças (embora quase só como repetição e não como resultado de uma reflexão) é que o cinema português é chato, lento, difícil, a literatura demasiado descritiva, densa. A este propósito, perguntava Theodor Adorno na Alemanha dos anos 1960: «Pode o público querer?», ou seja, temos disponíveis os instrumentos que nos permitam uma decisão consciente e informada? Em 2025, em Portugal, continuamos aqui.




