«E agora, José?» Centenário de Cardoso Pires

João Manso Pinheiro

Cardoso Pires não era um escritor que servisse às lógicas ansiosas e vorazes do mercado


José Cardoso Pires foi um dos maiores romancistas da língua portuguesa do século XX (uma generalização a que se recorre de modo a não comprar qualquer guerra literária). Apesar disso, como outros tantos (José Rodrigues Miguéis é um bom exemplo), por largos anos, era mais fácil encontrá-lo nas estantes de bibliotecas municipais e alfarrabistas (foi definitivamente republicado apenas em 2015), espaços de silêncio que, bem vistas as coisas, até eram os mais apropriados para um homem que procurava a “solidão”.

Cardoso Pires não era um escritor que servisse às lógicas ansiosas e vorazes do mercado (algo que, ainda em vida, muito o prejudicava1). Embora escrevesse com grande voracidade, empenhando-se dias a fio neste seu trabalho, os acessos criativos só o acometiam de tempos a tempos, abrindo longos intervalos na sua obra publicada, especialmente no que toca aos romances: entre O Delfim (1968) e a Balada da Praia dos Cães (1982) decorrem 14 anos (e uma Revolução). Era, afinal de contas, um “escritor bissexto”.

A insatisfação quase permanente com o projecto em mãos leva-o a produzir várias versões de uma mesma obra, rasurando, apagando, destruindo, desviando, perseguindo, acrescentando, de correcção em correcção até à impressão final. Este processo minucioso resultava numa «prosa muito limpa, talvez a mais limpa ou mondada que hoje temos»2 (afirmação proferida pelo professor Óscar Lopes em 1963, por ocasião da entrega do Prémio Camilo Castelo Branco a Cardoso Pires, e que não perdeu nenhuma da sua actualidade), apenas possível nas mãos de um autor que considerava um dia produtivo aquele em que apagava mais de 3 mil palavras.

Para além do romance (Alexandra Alpha, de 1987, merece também destaque), José Cardoso Pires foi ainda cronista, ensaísta e contista. A sua primeira colecção de contos, Os Caminheiros e Outros Contos, de 1949 (financiada por Alves Redol, Mário Dionísio, entre outros), denota ainda as suas primordiais influências neo-realistas, um género que nunca chega realmente a abandonar, integrando este registo no seu estilo particular. Ainda que considerasse o trabalho literário da maior parte dos livros neo-realistas «mau», por mais de uma vez afirmou que foi este movimento que, em Portugal, «promoveu a libertação da língua», limpando a prosa e os caminhos para várias gerações de novos escritores.

Após a publicação da colecção de contos Cartas de Amor, em 1952, acaba por ser detido pela PIDE, que apreende as edições dos seus dois livros publicados. A polícia política do fascismo conhece-o como «fonte de informação da política e sociologia actuante no sector intelectual do PCP; transmissor de livros proibidos, manifestos de intelectuais e de publicações públicas e particulares de órgãos de partidos comunistas estrangeiros ou de intelectuais portugueses».

O seu compromisso com a luta e resistência antifascista afirma-se antes, e depois, do 25 de Abril de 1974, no qual participa activamente. No dia seguinte à Revolução, dirige-se à prisão de Caxias como parte integrante da Comissão de Apoio aos Presos Políticos.

Nascido a 2 de Outubro de 1925, em Vila de Rei, Beira Baixa, há exactamente 100 anos, cedo Cardoso Pires torna a Lisboa, cidade que faz sua, a única que «verdadeiramente conhece» em todo o País. O «grande fascínio» que sente pela capital (com excepção da Av. Almirante Reis) está espelhado na sua última obra – Lisboa, Livro de Bordo (1997).

José Cardoso Pires morreu aos 73 anos, em 1998, na sequência de um segundo AVC. O primeiro inspirara De Profundis, Valsa Lenta (1997), em que o autor confronta as suas novas limitações impostas pelo acidente vascular. Portugal ficou, definitivamente, um país mais “mal frequentado”.

 



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