«Temos de continuar a resistir»

«A única coisa que pode parar a guerra é deixar de vender armas a Israel e de financiar a guerra contra o povo palestiniano», sublinha Husam Daoud, membro do Departamento Internacional da Frente Democrática de Libertação da Palestina (FDLP), em entrevista ao Avante! sobre a situação na Faixa de Gaza e a luta do povo palestiniano.

«O que quero é que deixem de financiar a guerra de Israel contra os palestinianos!»


Como considera que está, hoje, a situação na Faixa de Gaza?

Mortes, mortes e mais mortes. E quem não morre das bombas, morre à fome ou de sede. E as crianças morrem de falta de leite. Porque Israel não permite nem que entrem alimentos, nem medicamentos e nem sequer o que é mais básico para a alimentação das crianças, como o leite ou a água.

São conhecidas as intenções do regime sionista de criar o “Grande Israel” ou a chamada “Riviera”, em conjunto com Donald Trump. Qual é a sua opinião sobre estes planos?

É preciso dar algum contexto: antes de Trump chegar ao poder, a resistência palestiniana chegou a um acordo com Israel, que previa a libertação de israelitas presos na Faixa de Gaza e de palestinianos presos por Israel. E tudo se encaminhava nesse sentido, até que Trump chegou ao poder e disse que queria comprar a Faixa de Gaza. Trump quer que Israel elimine os palestinianos da Faixa de Gaza, para ficar com ela. Em troca, Trump dará a Cisjordânia a Israel, dando mais um passo para impor o “Grande Israel”.

E importa realçar que o que se está a passar na Cisjordânia também é terrível: os colonos israelitas atacam os palestinianos e roubam as suas casas e tudo o que podem. Apesar de tudo, para os palestinianos na Cisjordânia, é mais fácil sair da Palestina; agora, os que estão na Faixa de Gaza é que não podem mesmo sair, porque esta permanece cercada por todos os lados.

Mas retomando a pergunta, creio que o que virá daí será isto: Netanyahu “esvazia” a Faixa de Gaza para a dar a Trump, não para fazer hotéis ou a “Riviera”, mas para que Trump se aposse dos milhões de metros cúbicos de gás que estão na Faixa de Gaza, lucrando e rivalizando com a Rússia. Em troca, Trump oferece a Cisjordânia a Israel.

Por seu lado, a extrema-direita israelita tem esta ideia do “Grande Israel”, que incluiria Palestina, Jordânia, Síria, Líbano, grande parte do Egipto e uma parte do Iraque. Alguns mais radicais, inclusive, já falam do Chipre – e isto para mim é novo. Dizem que Chipre é deles e estão a comprar casas e bairros inteiros lá.

Isto requer uma resposta dos governos, porque todos os povos estão com a Palestina, mas se os governos não fazem nada para impedir estes planos, a Palestina não existirá mais.

Há pouco tempo, o governo israelita aprovou a construção de novos colonatos em Jerusalém, promovendo a separação e a criação de pequenos enclaves para os palestinianos. Qual é a opinião da FDLP sobre esta decisão?

Isto serve para partir a Cisjordânia e fazer tudo para que a colonização vá do Norte ao Sul da Palestina. Inclusive, têm tido ideias de como fazer um “emirado” em Hebron. E querem fazer isto ao estilo do Catar ou do Dubai: a ideia é dividir os palestinianos nestes espaços, cada um com uma pequena população, governada de forma independente por um “emir”. Fechar os palestinianos nesses pequenos “emirados”, para aí viverem, mas sem acesso ao exterior. Querem “cortar as asas” aos palestinianos.

O reconhecimento do Estado da Palestina por Portugal (e por outros países) surge acompanhado de condições… Qual é a tua opinião sobre esta questão?

A minha opinião é que quando não querem fazer algo, impõem condições. E eu pergunto: que condições? É um povo ocupado! Que condições querem, seja Inglaterra, Portugal ou qualquer outro país…? Há um país ocupado! Um país que está a morrer à fome! Não se tem de pôr nenhuma condição: ou se reconhece ou não se reconhece. Agora, o que querem é impor condições e, em troca, os palestinianos deixariam de morrer à fome. Não! Eu, como a maioria do povo palestiniano, prefiro enfrentar as contrariedades e continuar a lutar pelo meu país!

Que importância tem o reconhecimento do Estado da Palestina?

Vejamos, apesar de ser apenas do ponto de vista político, é importante. Agora, mais importante ainda é parar de vender armas a Israel! Isto para mim é muito melhor… Porque reconhecem, é certo, mas continuam a dar bombas e armas a Israel para matar os palestinianos. Se é assim, o que quero é que deixem de financiar a guerra de Israel contra os palestinianos!

Que perspectivas de luta tem a Frente Democrática de Libertação da Palestina para enfrentar esta situação, tanto em relação aos colonatos como em relação à luta mais geral do povo palestiniano?

A FDLP faz parte da OLP [Organização para a Libertação da Palestina], uma organização que, infelizmente, não funciona, não existe na prática. Isto porque a Autoridade Palestiniana ficou com todo o poder da OLP. Agora, no nosso entender, temos de continuar a resistir aos colonatos e a tudo o que possa causar dano ao nosso povo. Mas, claro, nós não temos nem aviões, nem bombas, como Israel tem… Mas temos de o fazer, unindo-nos a outras forças na Palestina, para defender a nossa terra.

Como se sente o povo palestiniano perante a solidariedade de outros povos com a sua heróica resistência?

Está orgulhoso e posso dizer que sempre que divulgo nas minhas redes sociais as acções de solidariedade com a Palestina, toda a gente fica encantada com estas posições assumidas na Europa… pelos povos europeus, não pelos governos. Porque os governos falam e não fazem nada por nós nem contra Israel. Falam dos palestinianos, mas dão armas para matar o povo palestiniano. Eu quero é que deixem de vender armas a Israel. Isto é o mais importante. A única coisa que pode parar a guerra é deixar de vender armas a Israel e de financiar a guerra contra o povo palestiniano.