- Nº 2702 (2025/09/11)
Até na mais negra das noites se pode ousar denunciar pela música. Ousar sonhar com a Liberdade. Ousar esperar pela vitória da Paz. 80 anos nos separam da derrota do nazi-fascismo que pôs fim àquelas noites de censura. Data que foi recordada no já habitual concerto sinfónico de abertura do Palco 25 de Abril da Festa do Avante!. Dedicado ao fim da II Guerra Mundial, assinalando a vitória sobre o nazi-fascismo e reafirmando o valor da luta pela Paz, numa homenagem ainda ao povo palestiniano. Esta surgiria pela obra de Mahmoud Abuwarda, A Grandeza do Espírito Humano, e o último andamento da Sinfonia n.º 5 de Prokofiev, que a dedicou à vitória na guerra e “à grandeza do espírito humano”, na esperança de um mundo de paz.
O espectáculo A luta pela paz nos 80 anos da vitória sobre o nazi-fascismo começou com o que os nazis chamaram “música degenerada”. A Orquestra Sinfonietta de Lisboa, dirigida pelo maestro Vasco Pearce de Azevedo, interpretou obras censuradas por razões raciais ou ideológicas, nomeadamente anticomunistas, e que no primeiro dia da 49.ª Festa do Avante! foram soltas naquele espaço de Liberdade que os trabalhadores e o povo ambicionam e merecem ver transportado para a vida do dia-a-dia. Evocada a resistência heróica ao nazismo, com uma obra de Mieczysław Weinberg dedicada ao Exército Vermelho, um andamento sinfónico de Hanns Eisler e uma versão da canção popular da II Guerra Mundial Lili Marleen, com orquestração do compositor Filipe Melo, especialmente elaborada para este concerto.
Peças compostas por prisioneiros em Theresienstadt, como Ilse Weber e Viktor Ullmann, e uma obra de Karl Amadeus Hartmann, dedicada aos presos de Dachau, foram igualmente momentos de forte emoção. Como não nos comovermos com a realidade que ali se cantou: «Eu passeio por Theresienstadt/ o coração tão pesado como chumbo/ até que repentinamente o meu caminho tenha um fim/ ali, mesmo junto ao Bastião.»
A interpretação das peças coube ao barítono Armando Possante, acompanhado pelo pianista Ricardo Martins.
Memória, resistência e futuro. Tudo num só palco, num só espectáculo, numa Festa! Com um propósito comum: a Paz!