- Nº 2702 (2025/09/11)
Palco Paz

Música contra a guerra entre as raízes e o futuro

Festa do Avante!


O Palco Paz voltou a ser um espaço especial para todos aqueles que encontram na cultura e na tradição, ferramentas indispensáveis para a construção de um mundo sem guerra e uma humanidade plenamente dona do seu destino. Apresentando nomes grandes da música portuguesa, mas também dando expressão a grupos e artistas em ascensão, voltou a ser um espaço onde a conjugação da partilha entre culturas – desde a brasileira à italiana, passando pela heróica Palestina – e a valorização do património português, fez nascer três dias de permanente animação, pontuada por emotivos momentos de apelo à construção da paz.

Foram os finalistas do concurso de bandas “Novos Valores” que inauguraram o palco, na noite de sexta-feira.

O concurso recebeu este ano o lema «Leva a cultura avante!» e foi isso o que os Ditado fizeram. Com uma sonoridade que se entremeia entre o rap e a electrónica, o grupo confirmou ser uma das apostas mais seguras do hip-hop alternativo no cenário português. Já os Traz os Monstros não recearam em deixar uma mensagem a quem os ouviu: «um gajo trabalha e não fica com tempo para nada. Isto é quase doentio», afirmaram antes de apresentarem o seu último tema ao público.

O espectáculo prosseguiu pela noite fora com os CorCunda. Directamente da Marinha Grande, apelidada pelo vocalista Ângelo Calvete de «capital da luta antifascista», trouxeram um rock cru e uma agressividade melódica e hipnotizante. De seguida, o post-punk de Braga dos Semivitae encantou a plateia com um diálogo elástico entre a guitarra e as teclas e apelos pelo fim do bloqueio a Cuba e do genocídio na Palestina.

E se alguém dissesse que O Grupo Coral de Mombeja, o Grupo Coral As Cantadeiras das Aldeias, de Alcácer do Sal e Santa Susana, e Hugo Costa e a banda do Vento se juntariam, num só dia? Que seria possível aos visitantes da Festa assistir a um pouco do que de melhor se faz na música em Portugal? Assim começou o segundo dia de uma Festa que, quando termina, tem sempre data de regresso.

A apresentação do novo disco de Hugo Costa e a banda do Vento, que sairá no dia 3 de Outubro, e as actuações destes dois grupos corais provaram que a música não está desligada da paz e da luta por uma vida com dignidade.

A programação prosseguiu com a actuação de Mãe Bruxa, pautada por uma relação de completa sinergia entre o público e as quatro artistas que compõe o grupo. Numa contínua percussão que imagina futuros, deixaram a mensagem que «aqui ninguém larga a mão» na luta pela paz. Acompanhada por Jorge Lomba, Luísa Basto dedicou a sua primeira música a todas as mulheres que sofreram a tortura fascista, em particular à sua amiga e camarada, Conceição Matos. Este nome incontornável da Festa e da democracia, cantou ainda Catarina Eufémia e Abril, acompanhada por centenas de vozes comovidas, deixando ainda o apelo: «vamos para a luta, nós nunca desistimos».

Sábado tinha ainda espaço para três concertos, o grupo Quintalinhas, num estilo simultaneamente tradicional e próprio, juntaram bombos e adufes à viola e ao cavaquinho, dando um cheiro das maravilhas do País, do Douro Litoral ao Alentejo. Numa bonita valorização da cultura portuguesa, afirmaram: «tocamos a maior parte do nosso repertório porque o queremos aprender». Urze de Lume, de regresso a este palco que tão bem conhecem, trouxeram a folk que recria o imaginário português, bebendo da natureza e do oculto para criar um som único, onde a gaita transmontana passeia pelos bosques e florestas do País. Fechando com chave de ouro este intenso dia, o colectivo Tropicáustica animou, com o seu set, todos os presentes.

O dia de domingo abriu com ValuDamásio, que saltou do palco para «animar a malta» durante o seu último tema, plantando uma bandeira da Palestina no chão e formando uma enorme roda com a plateia, tornando-a parte activa deste momento. Ella Mente, projecto criado durante a Festa do ano passado, veio de Manchester para tocar baladas de luta cruzando o saxofone, a guitarra e a bateria. A dança tradicional de Handala Dakbe trouxe a este palco toda a beleza do folclore palestiniano, numa actuação onde «cada passo é um acto de desafio» ao projecto colonial de Israel.

O grande momento de animação do dia viria pelas mãos do projecto Samba sem Fronteiras, onde uma gigante roda de samba fez com que a ideia de palco, que separa o artista e o público, fosse pouco mais que uma mera formalidade.

Os Teresina, auxiliados pelo acordeão e as pandeiretas, embalaram a noite com música tradicional do sul de Itália, como a Tarantella e a Pizzica. Com a exigência própria de ser o último concerto neste mágico palco, Dario Pi fechou a programação com algumas músicas do seu primeiro álbum, lançado este mês.