- Nº 2702 (2025/09/11)
O CineAvante apresentou sessões ao ar livre que realçaram problemas laborais, lutas organizadas, a precariedade e o papel do cinema na construção de um mundo mais justo.
On Falling (2024), de Laura Carreira, abriu a programação na sexta-feira. Filma a rotina precária e a exploração quotidiana de uma emigrante portuguesa num armazém de comércio electrónico em Glasgow. A realizadora, com memórias de infância na Festa, afirmou que o filme é «o oposto do Avante!, porque retrata o mundo em que vivemos, onde estamos cada vez mais isolados, mais virados uns contra os outros, em vez de termos esta experiência de colectivo que nos falta».
Na manhã de sábado e domingo, a programação infantil regressou com a Monstrinha. O CineAvante assinalou também o centenário do militante comunista Vasco Granja, com a sessão «Olá Amigos...», reunindo curtas de animação de autor de vários países, sobretudo do Leste europeu. Fernando Galrito, director artístico da Monstra – Festival de Cinema de Animação de Lisboa, destacou o papel de Granja na divulgação e valorização artística do cinema de animação. Acrescentou que existe uma sintonia natural com a Festa, porque «a Monstra tem um carácter multicultural e de encontro de culturas».
Manuel Rodrigues, da Comissão Política e director do Avante!, referiu-se a Vasco Granja e à sua intervenção política como comunista empenhado numa arte ao serviço da transformação social.
No sábado, Terra de Pão, Terra de Luta (1977), de José Nascimento, marco documental sobre a Reforma Agrária, foi exibido em cópia digitalizada pela Cinemateca Portuguesa. Em representação da instituição, Ricardo Vieira Lisboa salientou a relevância política e histórica do filme no contexto pós-revolucionário. Já em Quando o Lobo Uiva (2025), Rogério Queiroz acompanha o ciclo do trigo Barbela, revelando tensões entre o progresso, a erosão rural, e a autonomia face ao lucro capitalista. O realizador e João Vieira, agricultor que participa no filme, defenderam o conhecimento acumulado para imaginar o futuro do mundo rural. Já Nostálgicas del Futuro (2022), de Thierry Deronne, regista a organização revolucionária das mulheres venezuelanas, realidade silenciada pela comunicação social dominante, como observou Luís Carapinha, da Secção Internacional do PCP.
As exibições de Sabura (2025), de Falcão Nhaga, sobre um jovem casal de imigrantes, e de Hanami (2024), de Denise Fernandes, sobre mulheres na Ilha do Fogo, ficaram para domingo. Nhaga agradeceu a aposta no cinema português e o público presente. Inês Garcia Marques e Carla Galvão, da equipa de Hanami, destacaram a consciência social da Festa, em especial sobre a imigração.