- Nº 2702 (2025/09/11)
Ao som dos passos que marcam a Grândola, Vila Morena a peça Mercado das Madrugadas de Patrícia Portela, uma co-produção PRADO e Rota Clandestina, Teatro Aveirense e Teatro Nacional Dona Maria II, aconteceu numa praça criada junto ao palco do Avanteatro. Grande participação, músicas da tradição portuguesa e do 25 de Abril, com a Carvalhesa bem presente, recriaram a rua, a participação, a discussão, o debate e a acção, importantes para um mundo com mais justiça social, democracia e liberdade. Um percurso do fascismo à festa do 25 de Abril, com as suas conquistas e os seus valores. Foi o nosso processo democrático, ali vivido ao vivo, que deixou como mensagem a ideia de uma revolução porque o amanhã é inevitável e começa hoje.
O sábado iniciou com Caminho do Burro, peça infantil pela Companhia Historioscópio – Teatro de Marionetas em co-produção com o Teatro Ribeiro Conceição. Muitas mensagens transversais e boa participação do público infantil. Várias técnicas do teatro de marionetas apresentaram um burro em busca de liberdade e de uma vida melhor e a dificuldade em consegui-lo. Com momentos cómicos em que as opiniões do burro, comparadas com as dos outros animais e com as dos seres humanos, acabavam por ser as mais assertivas.
À tarde, assinalando os 46 anos do estabelecimento das relações diplomáticas entre a China e Portugal, um espectáculo de grande qualidade pelo Grupo de Artistas da Região Autónoma de Ningxia Hui, com dança, acrobacia, solos instrumentais e canções tradicionais maravilharam o público. A seguir assistiu-se na parte exterior a uma conversa em torno do livro Atriz e Ator. Artistas, Volume I – Representação e consciência da expressão, de João Brites e Teatro O Bando, com a presença do autor e a participação de Juliana Pinho e Filipa Malva. Conversa participada pelos presentes em torno do artista e do intérprete.
A seguir, Rádio Clandestina, um espectáculo intenso e envolvente pela companhia Os Possessos, em co-produção com o Teatro Avenidas. Uma rádio clandestina intemporal comemorando os 50 anos da Revolução, com músicas de Abril e da resistência e mensagens de antes, durante e do pós-revolução. Um destaque para o papel da rádio na resistência, apelando à luta e ao protesto e sempre disponível para voltar a entrar no ar se necessário. Maria Piedade Morgadinho, ali presente, trabalhou na Rádio Portugal Livre, na luta contra o fascismo, interveio no final e mereceu forte ovação.
À noite, a Companhia 100 Dramas, em co-produção com Octo Productions, apresentou Meu Nome é Rachel Corrie, que levou à grave situação humanitária e política que se vive na Faixa de Gaza, na Palestina ocupada desde há décadas e aos horrores cometidos por Israel, com o apoio dos EUA. Rachel, uma activista, é morta por Israel, ficando a necessidade de lutar contra o medo e agir face a este genocídio.
Na tarde de domingo realizou-se o debate Teatro e Serviço Público de Cultura (SPC), com a participação de Jorge Pires, Inês Gregório, Bárbara Carvalho e João Barreiros. Analisou-se a importância da existência de um SPC para que se possa definir um outro rumo para a Cultura, criando condições de financiamento para os agentes culturais, os trabalhadores da cultura, com contratos de trabalho dignos, e o acesso à cultura e à fruição cultural. Debate onde foram denunciadas as políticas de direita em relação à Cultura.
A encerrar o Avanteatro deste ano, A Barraca apresentou O Príncipe de Spandau, um texto que Hélder Costa escreveu em 1897 sobre os delírios de Rudolf Hess sobre o regresso de Hitler e do nazismo. Uma peça que ajuda a entender, no nosso tempo, os ataques à liberdade, aos direitos e à democracia e a expansão da ideologia marcada pelo racismo e o ódio. Uma mensagem como que um aviso do que pode vir a acontecer se não se lutar contra estes extremismos. Hélder Costa e Maria do Céu Guerra estiveram presentes e foram muito aplaudidos.
O Avanteatro apresentou um teatro atento à actualidade, às questões do passado do presente e do futuro. Houve grande afluência de público mostrando a força da Festa para mostrar teatro de qualidade para públicos diversificados que só aqui têm acesso a ele, concretizando o direito à cultura e à fruição cultural, mostrando a força do teatro como arte transformadora e de emancipação social, individual e colectiva.