Resíduos dos Dias, de Sérgio de Sousa
Um diário é um género literário pessoal, íntimo, percorrido por inconfidências e emotivos desabafos
A escrita diarística, o acervo da vida e do vivido, essa chama activa, perene, da memória, instrumento e seara da função de escrever, matéria prima pela qual toda a imaginação, todo o exercício criativo do escritor encontra primordial substância. O género diário, tem apanágio de escritores com obra feita e sentem ser tempo de repousar dessa exigente tarefa, dura e difícil, de escreviver e regressar aos leitos dos rios que se percorreram, da anotação emotiva das palavras urgentes, essa viagem no tempo, para que a memória se apazigue e o anotador regresse a outras tarefas, com a carga dos dias menos pesada.
Alguns escritores transformaram a prática diarística, ou descrição avulsa das suas memórias, em momentos altos e singulares da sua produção literária: Pablo Neruda, em Confesso que Vivi; Gabriel Garcia Márquez, em Viver Para Contá-la; Diários de Viagens, de Camus; Cadernos de Lanzarote, de Saramago; esse monumental acervo de vida e do gosto de a viver, que é Dias Comuns, de José Gomes Ferreira; ou Um Poeta Recorda-se, de Armindo Rodrigues. Recentemente, tivemos, de Mário Cláudio, com entradas que vão de 1956, a Setembro de 2019, o seu Diário Incontínuo, numa escrita que, abordando as questões literárias e a vida em sociedade, é diversa na linguagem e no entendimento dos fenómenos sociais contemporâneos, da abordagem que Sérgio de Sousa faz neste seu novo livro: mundos diferentes, divergentes posições quanto à realidade e aos modos da interpretar.
Resíduos dos Dias, de Sérgio de Sousa, é, em termos temporais, um livro limitado a seis anos específicos do século XXI (2010/2015), mas esse foco (deixem-me especular) fica a dever-se a esses conturbados anos da nossa vida democrática. Sérgio havia já publicado dois títulos enquadrados no mesmo género diarístico: Diário Pueril da Guerra (1999) e Diário Póstumo de um Paraescritor (2011), o primeiro com referências críticas e reflexivas sobre a guerra colonial, descrevendo a experiência da sua passagem por Moçambique; o segundo com entradas que percorrem os anos 1997 a 2009. Em Resíduos dos Dias, nas entradas correspondentes a 2010 e 2011, o autor refere profusamente a génese desse Diário, sendo a primeira referência anotada a 22 de Abril de 2010. Verificamos em várias entradas de Resíduos, de 2010 a 2011 (o Diário Póstumo sairia em Outubro de 2011), o empenho do autor na feitura da obra, as sessões de revisão e debate leal e cúmplice com o editor Leonardo de Freitas.
Em Resíduos dos Dias são descritas em diversas passagens as reuniões da célula da Cultura Literária, no Vitória, as actividades que este núcleo organizou naquele espaço, nomeadamente as Quintas Com Letras e as Oficinas de Escrita Criativa, a qual foi iniciada por Urbano Tavares Rodrigues, cabendo-me, por motivos de saúde do autor de Estrada de Morrer, dar-lhe continuidade, projecto ao qual se juntou Sérgio de Sousa. Desse empenho, que ambos abraçámos com entusiasmo, ficaram alguns frutos, além de leitores exigentes e atentos. De registar, Sérgio fá-lo em diversas entradas, a criação da revista literária Esteiro, inicialmente dirigida por Leonardo de Freitas, a que se seguiu Manuel Dias Duarte e hoje prossegue sob a direcção do autor deste Resíduos dos Dias.
Claro que a vida pessoal do autor percorre as páginas deste livro, os almoços e jantares com amigos, com clientes (entre 2010/2013, Sérgio ainda exerce advocacia), com os filhos e com a mãe, com o aquitecto Raul Hestnes Ferreira e um inumerável grupo de outros companheiros. Destas incursões gastronómicas nos dá ele notícia (a cozinha tradicional portuguesa é o seu reduto e dois restaurantes são nomeados com regularidade: A Paz e João do Grão). Parte das entradas de Resíduos referem as malfeitorias do governo de Passos Coelho, com especial acinte no ministro das Finanças Vítor Gaspar, não poupando na corrente a teimosia ressabiada desse tecnocrata desumano chamado Cavaco Silva; os filmes, a música clássica (a ópera, vista no Mezzo), os livros, sendo, neste domínio, as entradas de maior fôlego, nomeadamente aquelas onde ensaia exemplares reflexões sobre estética e ética literária. Parte destas reflexões vão transcritas no final do livro.
Um diário é um género literário pessoal, íntimo, percorrido por inconfidências e emotivos desabafos, espaço da sinceridade possível, em que o autor se expõe, abre ao leitor as páginas do seu universo pessoal, dos seus passos sobre o real dos dias. É um acto de coragem e de entrega, o espelho onde o escritor se revê nu, a sua pessoal liberdade livre, sem peias nem amarras, que ele desvenda aos voyeures que somos.
Grande livro de Sérgio de Sousa. Ler este Resíduos dos Dias é percorrer os anos de brasa e de insídia dos anos da troika, seis anos de história narrados com lisura e arte.




