- Nº 2698 (2025/08/14)

125 anos de José Gomes Ferreira: da fábula se fez mundo

Argumentos

Dulcineia, Dulcineia,

deixe de ser Ideia

e torne-se a carne e a alma

da nova luta.1

Dulcineia não é nem «princesa» nem «grande dama». Dulcineia não é sequer Dulcineia. Para lá dos delírios quixotescos, existia, numa existência simples, uma «moça lavradeira, de olhos travessos e airosos», de seu nome Aldonça Lourenço. A vida (muito real) da camponesa é consumida pelos devaneios (nada reais) do cavaleiro imaginado por Cervantes. À exploração do corpo trabalhador segue-se a substituição da personalidade, do espírito, da pessoa.

É a esta mulher, Aldonça feita Dulcineia, que José Gomes Ferreira exorta a retomar o controlo da sua vida, que «volte a apanhar pinhas e bosta para os fornos», que «volte à aldeia da sua labuta», que «volte ao que foi»: uma mulher e não uma ideia, uma trabalhadora e não um donzela indefesa, criadora e transformadora por si só.

Que deixe de ser ideia, que deixe de ser pano de fundo de projectos quixotescos, tornando-se «a carne e a alma» da sua própria luta. Gomes Ferreira nasceu a 9 de Junho de 1900, na cidade do Porto, mudando-se aos quatro anos para Lisboa. Filho de Maria do Carmo e de Alexandre Ferreira, o pai viria a ser vereador na Câmara Municipal de Lisboa e deputado da Primeira República, cuja instituição o jovem José Gomes Ferreira celebra efusivamente nas ruas, agitando uma bandeira vermelha e verde de papel de seda, erguida num pau de vassoura.

É, em parte, pelo exemplo do trabalho do seu pai, responsável ainda pela instituição da rede de bibliotecas municipais de Lisboa e fundador da associação Inválidos do Comércio, que desenvolve o seu compromisso com as vidas dos trabalhadores, dos pobres e indigentes, os que vivem a vida real, para além da poesia dos salões. Jovem estudante, José Gomes Ferreira enfrenta a ditadura de Sidónio Pais e é mobilizado, membro do Batalhão Académico, para o Norte, a fim de enfrentar as revoltas monárquicas.

«Deixa-me ver a vida, exacta e intolerável, neste planeta feito de carne humana a chorar» (Vai-te, Poesia!). É esta profunda urgência que, no arranque da sua carreira profissional, acaba por alterar o rumo da sua vida. Formado em Direito pela Universidade de Lisboa, o poeta ainda experimenta o início de uma vida diplomática, ocupando brevemente um posto no consulado da Noruega. É lá, nas escandinávias, que rapidamente descobre «que não tinha nascido para cônsul nem para diplomata».

A partir desse momento, dedica-se a «ocupar» a sua «vida de marginal», como não depreciativamente a descreveu. Escritor desde cedo, faz-se Poeta Militante, uma dialéctica que, descreve-a Manuel Gusmão, «significa que o poeta tem com a poesia e a imaginação verbal uma relação de compromisso forte, de fidelidade activa, de atenção e cuidado. Mas por outro lado a palavra guarda da sua pertença ao vocabulário político, precisamente a ideia de que a relação com a poesia e o mundo é também uma relação política».

O militante de sempre, antimonárquico primeiro, antifascista depois, reflecte-se na escolha tomada por João sem Medo, quando se depara com a encruzilhada entre o caminho fácil para a felicidade (mas de elevado custo) ou o difícil (que permite manter a cabeça). «Bem sei que podem perseguir-me, arrancar-me os olhos, torcer-me as orelhas, transformar-me em lagarto, em morcego, em aranha, em lacrau! Mas juro que não hei-de ser infeliz PORQUE NÃO QUERO».

Os 48 anos do fascismo não o souberam derrotar, nem deformar a sua confiança no futuro. Depois do 25 de Abril, animado pela esperança na construção de um mundo novo, preside à Associação Portuguesa de Escritores e é candidato, em 1979, pela Aliança Povo Unido (APU), no distrito de Lisboa. Em homenagem a outras tantas Dulcineias que se fizeram carne e alma da nossa luta, participa nos funerais dos trabalhadores rurais António Maria Casquinha e José Geraldo «Caravela», assassinados em 79, e na evocação da memória da Catarina Eufémia.

A «29 de Fevereiro de 1980, pelas cinco e meia da tarde, chuvosa», José Gomes Ferreira, a poucos meses de celebrar o seu octagésimo aniversário, dirigiu-se à sede nacional do PCP, na Soeiro Pereira Gomes, para se inscrever no partido comunista. «Nele ingressou inteiro com a sua modéstia e grandeza», afirmou, por ocasião da sua morte, a 8 de Fevereiro de 1985, Carlos Aboim Inglez, o mesmo camarada que o havia recebido na chuvosa tarde. «Não buscava a glória, porque já era glorioso. Vinha apenas dar-se, como os comunistas se dão. Ao seu povo, à nossa grande causa emancipadora dos homens».

Uma certeza ficou, deste homem espantado de existir. «O nosso mundo é este... (Mas há-de ser outro)».

 

 

1 A Morte de D. Quixote, in Poeta Militante / Viagem do Século Vinte em Mim – 1.º volume, Moraes editores, 1977

Círculo de Poesia

1 A Morte de D. Quixote, in Poeta Militante / Viagem do Século Vinte em Mim – 1.º volume, Moraes editores, 1977

Círculo de Poesia

 

João Manso Pinheiro