O espelho
“O futuro não é um ponto fixo numa linha do tempo; é um espelho que reflecte as nossas escolhas presentes. E em cada era, a batalha pela verdade deve ser travada novamente por aqueles que se recusam a desviar o olhar, que falam mesmo quando é perigoso, que pensam mesmo quando é mais fácil não pensar. Pois sem a verdade, a liberdade é um mito, e sem a coragem de encarar factos desconfortáveis, a civilização oscila à beira de sua própria ruína.” As palavras são do filósofo filipino Ruel Pepa, que em recente artigo no GlobalResearch reflecte sobre um mundo onde os mensageiros das verdades incómodas passaram a ser alvos a abater como inimigos do status quo.
Um mundo, o nosso mundo, em que para matar a mensagem se mata o mensageiro.
Só em Gaza, o número de jornalistas assassinados ascendia no início do mês a 232. Por fazer, está a contagem dos mensageiros que, por esse mundo fora, são vítimas de assédio moral e alvo de retaliações por persistirem em dizer a verdade.
O universo orwelliano é uma história da carochinha comparado com a realidade dos nossos dias. A novilíngua é um cosmos em expansão.
EUA e Israel baptizaram de Fundação Humanitária de Gaza o grupo que diariamente mata palestinianos a tiro e à bomba no que é suposto ser distribuição de alimentos. O campo de concentração que Israel quer construir nas ruínas de Rafah, policiado e sem saída, leva o nome de “cidade humanitária”. O termo humanitário está de resto tão em voga que até se inventou, e repete à exaustão, os termos ‘catástrofe humanitária’ e ‘crise humanitária’, como se uma coisa boa para a humanidade, que é o que significa humanitário, pudesse ser uma catástrofe, uma tragédia. O erro de confundir humanidade com humanitário, deliberado ou por irreflectido mimetismo, é paradigmático da novilíngua de conceitos opostos a criar uma narrativa que vira a realidade do avesso. Fome é redução de calorias. Guerra é paz. Destruição de infra-estruturas é abertura a novas possibilidades. Vassalagem da UE aos EUA é estabilidade. Corte nos direitos sociais é liberdade de escolha. Fim de direitos laborais é criar novas oportunidades.
Por cá até temos uma ministra que diz haver trabalhadores amantes da precariedade, e um Governo que ‘não tem medo’ de se aliar à extrema-direita em ‘benefício’ do país.
A marioneta de serviço à NATO, Mark Rutte, escreve sabujices a Trump e António Costa oferece a camisola de Ronald ao inquilino da Casa Branca; a Alemanha, duas guerras mundiais depois, promete ser ‘de novo’ uma potência militar e o Reino Unido acena a cenoura do reconhecimento do Estado da Palestina, sem território nem viabilidade, em troca do desarmamento do Hamas, enquanto as potências ocidentais continuam a armar Israel.
Os dias são de lavagem ao cérebro. Para silenciar a verdade, a narrativa torna-se ensurdecedora. Como em Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, o silêncio foi banido. Não pense, sorria. Está a ser filmado.




