Deliberadamente

Candidaturas, critérios e bloqueios

A apresentação da candidatura de António Filipe marcou a semana passada, surgindo como a solução democrática para Presidente da República, a única que afirma sem tibiezas a Constituição da República Portuguesa e a tradução do texto constitucional na vida de todos, como o seu programa.

Sobre o tratamento mediático desta apresentação, em particular pelas televisões, vale a pena sublinhar alguns aspectos contrastantes com a forma como foram noticiadas iniciativas semelhantes de outras candidaturas já no terreno. No geral, as apresentações de candidaturas a Presidente da República são momentos que justificam longos directos, não apenas da intervenção do candidato, mas também com breves declarações de apoiantes, apontamentos de reportagem no local e outro tanto tempo de comentário em estúdio. Foi assim, até agora, com as restantes candidaturas.

Já no tratamento da apresentação da candidatura de António Filipe, SIC Notícias e Now ignoraram-na por completo. A CNN emitiu menos de dois minutos da intervenção do candidato, seguindo para um bloco de comentário de 13 minutos, com Anselmo Crespo e Mafalda Anjos (ambos jornalistas), que conseguiram concretizar a façanha de ignorar por completo o que tinha acabado de passar em antena. Mesmo a RTP3, estação pública com especiais obrigações, ficou-se por um directo de 8 minutos da intervenção, seguido da análise por um dos habituais comentadores do canal de duração idêntica. Pouco depois, nos principais noticiários em sinal aberto, apesar da presença nos três canais (RTP, SIC e TVI), seja pela duração das peças, seja pelo lugar no alinhamento que lhes foi reservada, a disparidade face a outras candidaturas foi evidente.

Em todos os casos, as peças rondaram os dois minutos, surgindo às 20h13 na TVI, às 20h29 na RTP e às 20h52 na SIC. Comparando com a apresentação de Gouveia e Melo, que decorreu sensivelmente à mesma hora (e logo num dia preenchido de noticiário político, com a indigitação de Luís Montenegro para primeiro-ministro minutos antes), a RTP deu oito minutos da intervenção do candidato em directo no Telejornal, a partir das 20h07; a TVI começou logo às 20h02, mantendo-se durante 12 minutos em directo do local, seguindo-se ainda uma peça de quase 3 minutos com o perfil do candidato; a SIC antecipou o início do seu Jornal da Noite para permitir que ainda antes das 20h00 estivessem em directo do local ainda antes do discurso do candidato, seguindo-se um breve comentário em estúdio do director de informação da estação, emitindo o discurso do candidato na íntegra, a que se somou quase 10 minutos de comentário em estúdio – tudo isto no principal noticiário da estação, em sinal aberto. A SIC já tinha sido palco do anúncio de Marques Mendes, também em sinal aberto e no seu principal noticiário (depois de anos em que o mesmo ocupou lugar cativo de comentário dominical).

Como afirmou António Filipe na sessão de apresentação, «a eleição não está decidida e é o povo português que a vai decidir», apesar da «propaganda que tenta falaciosamente dar a entender que está decidida à partida, como se o resultado estivesse predeterminado». Não, não está; mas precisa do empenho de todos para furar o bloqueio mediático.

 



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