- Nº 2693 (2025/07/10)

Exigências voltaram a soar nas ruas do País: «Fim ao genocídio! Paz no Médio Oriente e no mundo!»

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A rejeição do militarismo e da guerra, a exigência de paz e desarmamento e a solidariedade com a Palestina não esmorecem: nos últimos dias, em Lisboa, Porto, Coimbra, Faro e Viseu, foram muitos os que as afirmaram e garantiram que o continuarão a fazer. Amanhã, 11, por iniciativa do PCP, o reconhecimento do Estado da Palestina é debatido na Assembleia da República, sendo votada uma resolução igualmente apresentada pelo Grupo parlamentar do PCP. Para esse mesmo dia está marcado um acto público, às 10h00, frente à Assembleia da República.

Simultaneamente em Lisboa e no Porto, foram muitos os que responderam à chamada do Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC), da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – Intersindical Nacional (CGTP-IN), do Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e a Paz no Médio Oriente (MPPM) e do Projecto Ruído – Associação Juvenil, e participaram nas manifestações convocadas para sábado, 5, sob o lema “Paz no Médio Oriente! Fim ao genocídio!”.

Em Lisboa, a manifestaçãoligou o Largo Camões e a Ribeira das Naus, passando pela Baixa e pelo Terreiro do Paço, num momento em que as ruas estavam cheias. Em cartazes, faixas e slogans, denunciou-se o assassinato pelas forças de Israel de crianças e de outras pessoas em busca de alimentos, rejeitou-se a escalada de guerra no Médio Oriente, com os recentes bombardeamentos israelitas e norte-americanos contra o Irão, exigiu-se a entrada imediata da ajuda humanitária necessária, repudiou-se a cumplicidade dos EUA, da NATO e da UE – sem a qual estes crimes não eram possíveis. Do Governo português reclamou-se sem mais adiamentos ou subterfúgios o reconhecimento imediato do Estado da Palestina, conforme determinam as resoluções da ONU.

O primeiro orador da tarde foi João Rodrigues, subscritor do manifesto “Pela paz, liberdade e Estado social”, acção promovida pela Iniciativa dos Comuns. O economista e professor universitário exaltou a resistência do povo palestiniano e lembrou palavras proferidas por Fidel Castro na Assembleia-Geral das Nações Unidas sobre o direito daquele povo à sua liberdade e ao seu Estado próprio – soberano, independente e viável.

Pela CGTP-IN, o coordenador da União de Sindicatos de Lisboa, João Coelho, denunciou a destruição de hospitais, escolas, museus, universidades e o assassinato de milhares de trabalhadores no exercício das suas funções: o genocídio em curso na Faixa de Gaza, acrescentou, «visa também, para além de assassinar um povo, destruir a sua cultura, a sua economia, a sua capacidade de reconstrução».

Mariana Metelo, do Projecto Ruído, garantiu que os jovens portugueses não ficam «do lado do silêncio», «do lado da cumplicidade». Pelo contrário, «denunciamos a hipocrisia e os interesses mal dissimulados de alguns e exigimos o fim do genocídio em curso. Nós, os jovens portugueses, como os jovens palestinianos, queremos a paz! Queremos um mundo de cooperação e solidariedade».

Do MPPM, Raul Ramires questionou: «Como é possível que o Governo português tenha tantas dificuldades em condenar estes crimes, em nomear os responsáveis e tomar medidas inequívocas que demonstrem que Portugal não quer, de forma nenhuma, estar associado a este crime de dimensões históricas? (…) Como conseguem continuar a recusar-se a reconhecer o Estado da Palestina, com argumentos que nos envergonham a todos?»

A isto referiu-se também Isabel Camarinha, do CPPC, salientando que no Programa do Governo o que «encontramos é, mais uma vez, a intenção de contribuir para o prolongamento e o agravamento dos conflitos, para o militarismo e a escalada armamentista, aumentando as verbas para a guerra, como os EUA, a NATO e a União Europeia ordenam – vejam-se as conclusões da Cimeira da NATO –, mantendo e agravando as injustiças e as desigualdades sociais e desviando recursos que deviam ser utilizados nos salários, nas pensões, na saúde, educação, segurança social ou na habitação, para a confrontação e a guerra».

Solidariedade com a Palestina também no Porto
Enquanto não for possível gritar «a Palestina é livre e independente», a solidariedade continuará a sair à rua no Porto. Assim foi no sábado, uma vez mais, quando centenas de pessoas se juntaram na Praceta da Palestina e desfilaram a exigir o fim do genocídio na Palestina e a paz no Médio Oriente.

É urgente o cessar-fogo imediato no território palestiniano, com especial urgência na Faixa de Gaza, «a livre entrada de ajuda humanitária e o reconhecimento urgente do Estado da Palestina – livre, soberano e independente – por parte do Governo português e das instâncias europeias e mundiais».

A certeza de que não é admissível continuar a assistir a um genocídio foi transversal às intervenções feitas no fim da marcha, na Trindade, por representantes das organizações promotoras – CPPC, CGTP-IN, MPPM, Projecto Ruído, Iniciativa dos Comuns e Colectivo pela Libertação da Palestina.

Em representação da Iniciativa dos Comuns – em cujo manifesto se afirma que «é preciso travar a guerra no Médio Oriente e o genocídio em curso na Palestina, promover e construir a paz, impedir a corrida aos armamentos, recusar limitações à democracia e à liberdade» –, o historiador Manuel Loff lembrou que o documento tinha já recolhido mais de 600 assinaturas e que continua disponível para ser subscrito.

«É urgente acabar com o genocídio. Israel tenta esconder o morticídio, os EUA dão o seu apoio, a União Europeia deixa passar, mas nós aqui estamos a denunciar e a exigir o fim do genocídio, o fim do cerco à Faixa de Gaza», assegurou o coordenador da União dos Sindicatos do Porto, Filipe Pereira, exortando o governo português a tomar o lado certo da História. «O Governo português, ao invés de se comprometer com mais guerra, tem de condenar os graves ataques perpetrados por Israel e EUA. Tem de ser uma voz pelo diálogo e a cooperação. Tem de exigir o fim do genocídio do povo palestiniano. Tem de reconhecer a Palestina livre, soberana e independente. Só assim poderá verdadeiramente ser voz do povo e dos trabalhadores portugueses, que exigem a paz.»

Pelo CPPC, Manuela Branco repudiou a «acção criminosa de Israel noutros territórios palestinianos e em todo o Médio Oriente, como acontece no Líbano, na Síria e a que agora se somaram os ataques de Israel e dos EUA ao Irão, inclusive com a utilização da Base das Lajes, o que firmemente condenamos, tudo em total desrespeito pelo direito internacional».

Pela paz, sempre
Na véspera, em Faro, centenas de pessoas participaram numa concentração junto ao Algarve Shopping em solidariedade com o povo palestiniano e exigindo o fim do genocídio. Para além das intervenções dos representantes das organizações promotoras, procedeu-se à colocação de bandeiras da Palestina na rotunda adjacente, simbolizando o necessário e urgente reconhecimento por Portugal do Estado da Palestina.

Já no dia 1, em Coimbra, um cordão humano ocupou, em distância, toda a ponte de Santa Clara seguindo, depois, em marcha até à Praça 8 de Maio. Ao som de palavras de ordem de apoio ao povo palestiniano, pela exigência do reconhecimento do Estado da Palestina, do fim da guerra no Médio Oriente e da escalada armamentista, os cerca de 500 participantes empunhavam faixas e pancartas a apelar à paz e a exigir o fim do desvio de recursos públicos para a guerra.

Contra o aumento das despesas militares
CPPC, União de Sindicatos de Viseu e Sindicato dos Professores da Região Centro promoveram uma concentração no dia 4 junto ao Solar do Vinho do Dão, em Viseu, onde se realizava uma conferência – acolhida pela Câmara Municipal – com o objectivo de discutir a instalação no concelho de um pólo dedicado à indústria militar.

Os activistas presentes insistiram na urgência de aprofundar o diálogo e a cooperação entre os povos como forma de resolver os conflitos internacionais e denunciaram a deriva belicista levada a cabo por EUA, NATO e UE. Insistiram igualmente na necessidade de aumentar o investimento na Saúde, na Educação, na Cultura, na Habitação e na Segurança Social, rejeitando o incremento das despesas militares já anunciado pelo Governo. A solidariedade com o povo palestiniano esteve sempre presente.

A acção contou com a intervenção de Bruno Soares, do SPRC, e de Helena Barbosa, do CPPC.

 

PCP avança com iniciativa parlamentar pelo reconhecimento do Estado da Palestina

«O Estado português está num caminho em que não consegue sair da lista cada vez mais curta, que é a lista da vergonha, dos países que não deram esse passo» de reconhecer o Estado da Palestina, afirmou aos jornalistas o Secretário-Geral do PCP, presente na manifestação em Lisboa.

Para amanhã, 11, está prevista a discussão e a votação de um projecto de resolução do PCP que recomenda ao Governo precisamente esse reconhecimento. No documento, o Partido garante que uma solução justa para aquele problema passa pela criação do Estado da Palestina e pela «efectivação do direito ao retorno dos refugiados palestinianos conforme determinado pelas resoluções pertinentes da ONU, assim como pelo desmantelamento dos colonatos, o fim dos bloqueios e a libertação dos detidos».

Recorda, ainda, que este reconhecimento foi já concretizado por 146 Estados, ou seja, «mais de 70% dos Estados-membros da ONU», 11 dos quais integram a União Europeia. Portugal, acrescenta, «já devia ter reconhecido o Estado da Palestina».