- Nº 2692 (2025/07/3)

Milhares em todo o País exigem o direito a uma casa para viver

Nacional

O fim-de-semana foi marcado por uma alargada participação nas manifestações convocadas pela Plataforma Casa para Viver, pelo direito à habitação, somando milhares de pessoas a sair às ruas em todo o País.

«Casa é para morar, não é para especular», «estamos fartos de escolher pagar a renda ou comer», «estabilidade sim, despejos não», «Abril exige casa para viver» ou «baixem as rendas, prolonguem os contratos» foram algumas das palavras de ordem ouvidas pelas ruas da capital, numa manifestação que teve início no Chiado, vindo a desaguar perto do arco da Rua Augusta.

Ao longo do percurso pela Baixa Pombalina, com o seu traçar característico e edifícios antigos (alguns tão antigos como a própria reconstrução desta zona da cidade), os manifestantes viram-se ladeados das mais diversas casas, lojas e, aqui e ali, de algumas sedes de bancos e outras instituições.

Zona característica da capital que não poderia ser mais adequada para esta manifestação: é que, de acordo com o Índice de Preços da Habitação divulgado pelo INE (e que o Porta a Porta, em nota de dia 24, considera demonstrativode uma realidade «extremamente grave e que não pode ser normalizada»), só na região de Lisboa, uma casa custa, em média, 381 mil euros. Realidade de que está muito próximo, por exemplo, o Algarve, onde o valor ascende aos 336 mil. O preço médio nacional ultrapassa os 232 mil.

Os dados, referentes ao primeiro trimestre de 2025, relevam, por exemplo, que o índice aumentou 16,3 por cento face ao período homólogo de 2024, representando um aumento de 4,8 em relação ao trimestre anterior, «o que», afirma o Porta a Porta, «confirma o ritmo de aceleramento da subida dos preços».

Rendas incomportáveis

No sentido de perceber melhor os motivos para a participação na manifestação, o Avante! falou com Mariana Metelo, estudante, vice-presidente do Projecto Ruído, uma das organizações que integra a Plataforma Casa para Viver, que realçou «a urgência de resolver o problema da falta de habitação que, nos jovens, se nota de forma particular, não só através do problema das rendas serem muito altas, mas, igualmente, da instabilidade dos contratos de arrendamento». A jovem frisou que o Governo «tem de ouvir a juventude e o povo português, um povo que não se cansa de sair à rua».

Também falámos com Inês Caeiro, 25 anos, administrativa, que apontou o facto de, hoje, «um terço dos jovens até aos 35 anos, e dois terços até aos 25, estarem em situação de precariedade» como um dos grandes «entraves à sua emancipação, sair de casa dos pais», a par dos baixos salários. Inês conta, por exemplo, que, morando em Lisboa, a renda da sua casa lhe consome mais de metade do salário.

Já André Escoval, do Porta a Porta, em declarações à imprensa, sublinhou que «estamos perante uma situação de extrema gravidade no nosso País, até já reconhecida pela UE, que recomendou ao Governo o controlo das rendas e a limitação do alojamento local». «Até agora, o Governo nada fez, pelo contrário», vincou.

Em todo o País

Também no Porto, no dia 29, foram centenas as pessoas que marcharam entre a Praça da Batalha e a Avenida dos Aliados. Aqui, em declarações à imprensa, Raquel Ferreira, do Porta a Porta, lembrou que «o Programa do Governo não inclui medidas que ajudem a resolver» o problema da habitação. «Pelo contrário, agravam-no», asseverou.

«As perspectivas que temos não são animadoras, e é necessário que haja esta mobilização popular pelo direito à habitação, porque é uma questão de dignidade», assinalou.

Por todo o País, o fim-de-semana foi marcado pela luta, tendo-se organizado, além das acções em Lisboa e no Porto, no sábado, diversas outras iniciativas em Braga, Faro, Elvas, Setúbal, Coimbra, Viana do Castelo, Aveiro, Portimão, Covilhã e Viseu.

 

12 reivindicações

O final da manifestação contou, além de várias actuações musicais, com a leitura de umcaderno reivindicativo, cujas propostas informamos: limitar os preços das rendas; arrendamentos de, no mínimo, 10 anos; fim dos despejos; crédito à habitação limitado a 35 por cento dos rendimentos da família; mobilizar todas as casas vazias para arrendamento; proibir novas licenças para alojamento turístico em zonas de pressão e carência habitacionais; fim dos benefícios fiscais; apoio à manutenção das sedes de colectividades; mais fiscalização e criminalização dos arrendamentos ilícitos; mais habitação pública; incentivo à formação de cooperativas de habitação.

 

«Não são histórias, são vidas»

Em declarações à imprensa, Paulo Raimundo, na manifestação em Lisboa, sublinhou que a acção «é de uma grande importância, porque estamos perante um problema que não só persiste, como se intensifica», e apontou soluções como a regulação das rendas, habitação pública e pôr a banca a contribuir para resolver o problema.

As declarações foram interrompidas por uma manifestante que, cumprimentando Paulo Raimundo, relatou a sua história: tem 57 anos, vive em Sesimbra, sofre de doenças crónicas, não está a trabalhar a tempo inteiro e conta que no «ano passado devia ter recebido 200 euros de apoio [à renda]», tendo recebido 93, e que em 2025, «a partir de Fevereiro, não pagaram e não disseram nada».

«Eu vou para a rua, como outras pessoas que andam aí. Porque nem sequer me dão o direito a ter alguma coisa por ter as doenças que tenho. Eu vou para a rua, e não tenho maneira de me defender. Eu fui expulsa da sociedade, assim como outros foram expulsos da sociedade. Eu sou uma cidadã», afirmou.

No final desta declaração, e após abraçar a manifestante, Paulo Raimundo escusou-se de prolongar a sua explicação, considerando este exemplo um retrato vivo da situação, e sentenciando: «não são histórias, são vidas».