Combatentes patriotas e internacionalistas
Cabo Verde festeja dentro de dias o 50.º aniversário da sua independência.
A 5 de Julho de 1975, na cidade da Praia, o presidente da recém-eleita assembleia nacional, Abílio Duarte, proclamava solenemente, em nome do povo cabo-verdiano, a República de Cabo Verde, «nação independente e soberana».
Muito justamente, a declaração realçava: «Nós, o povo das Ilhas, quebramos as cadeias de subjugação colonial e escolhemos livremente o nosso destino africano. E a História reterá que filhos do nosso povo glorioso de Cabo Verde, que se bateram com valentia na frente da luta armada da Guiné, estiveram prontos e decididos para o combate armado em Cabo Verde também, se tal viesse a revelar-se como única via para a libertação das nossas queridas Ilhas».
A referência ao combate armado em Cabo Verde remete para factos históricos interessantes, ainda que pouco divulgados, da luta emancipadora dos patriotas cabo-verdianos.
Em finais da década de 50 do século passado, Amílcar Cabral funda em Bissau e enraíza na Guiné o Partido Africano da Independência, mais tarde da Guiné e Cabo Verde. Inovador, não hesitou em juntar na mesma organização patriotas de dois povos irmanados por um passado comum e que aspiravam a um futuro partilhado.
A luta de libertação nacional, armada a partir de 1963, desenvolveu-se rapidamente na Guiné e assumiu a forma de resistência clandestina em Cabo Verde, tendo havido planos para desencadear também no arquipélago a guerra libertadora.
Nos começos de 1965, “Che” Guevara realizou uma longa viagem por África e encontrou-se em Conakry, na República da Guiné, com Amílcar Cabral. A partir desse encontro, intensificou-se a cooperação entre o PAIGC e Cuba: em Janeiro de 1966, Amílcar Cabral e uma delegação do partido participaram em Havana na I Conferência de Solidariedade com os Povos da África, Ásia e América Latina; Amílcar Cabral manteve longas conversas com Fidel Castro e com ele viajou pela ilha; e Cuba enviou para as áreas libertadas da Guiné médicos e assessores militares para apoiar os combatentes independentistas.
Ao mesmo tempo, secretamente, Cuba acolheu um grupo de três dezenas de quadros cabo-verdianos (liderados por Pedro Pires, que após a independência seria primeiro-ministro e presidente da República de Cabo Verde), que durante cerca de dois anos receberam preparação militar. O objectivo era, uma vez terminada a formação adequada, organizar um desembarque naval de guerrilheiros do PAIGC numa das ilhas de Cabo Verde (Santo Antão ou Santiago, com montanhas…) e procurar, com o apoio da organização local clandestina do partido, estender a luta armada ao arquipélago.
Em finais de 1967, contudo, Amílcar Cabral e a direcção do PAIGC decidiram adiar, sem o cancelar, o plano do desembarque. Continuaram a construir a marinha de guerra do partido e a desenvolver a rede clandestina nas ilhas, apesar do aumento da repressão da ditadura fascista e colonialista.
Os combatentes cabo-verdianos treinados em Cuba, patriotas e internacionalistas, integraram-se na guerrilha na Guiné, contribuíram para as vitórias ali alcançadas e reforçaram a convicção da profunda interligação existente entre a luta política e armada travada nas diferentes frentes (Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe) contra o inimigo comum, o colonialismo português.




