Eduardo Gageiro, o implacável olhar fotográfico
As milhares de fotografias de Eduardo Gageiro são o registo de uma realidade nas suas múltiplas evidências
Eduardo Gageiro, com 12 anos, começa a trabalhar nos escritórios da Fábrica de Loiça de Sacavém. É um dos “filhos dos homens que nunca foram meninos”, como escreveu Soeiro Pereira Gomes na famosa dedicatória de Esteiros, o primeiro grande romance do neo-realismo português, descrevendo um tempo triste mas cheio de esperança. Esperança que vai dando forma ao olhar de Eduardo Gageiro, que se forja no convívio diário com os operários fabris seus colegas de trabalho, com os pintores e escultores que colaboravam no fabrico cerâmico, dando qualidades estéticas aos produtos que saíam das suas linhas de produção.
Em simultâneo, Eduardo Gageiro descobre a fotografia, vai afinando o olhar e descobrindo como esse olhar enquadra a realidade e se regista nos negativos. É também com 12 anos que vê uma sua fotografia publicada na primeira página do Diário de Notícias. É o seu primeiro fotograma de um futuro percurso de fotojornalista que se inicia no Diário Ilustrado – que marca, nos anos 50 e 60 do séc. XX, uma época no jornalismo nacional.
Não é um acaso um tão jovem fotógrafo ter a oportunidade de iniciar aí a sua carreira profissional, apurando o seu olhar humanista com que, no silêncio das representações fotográficas, narrava Portugal com a precisão que imprimia ao instante decisivo com que se captura um momento para o eternizar, que é o que distingue todos os grandes fotógrafos. As milhares de fotografias de Eduardo Gageiro são o registo de uma realidade nas suas múltiplas evidências, dos rostos anónimos aos das celebridades, da solidão de um personagem aos movimentos das grandes massas populares, do trabalho nos campos e nas fábricas, dos segredos urbanos porque passamos sem neles reparar, da dor de uma criança com fome à inocência alegre de uma outra criança a brincar.
É um inestimável arquivo de imagens captadas em décadas – dos anos 50 até à sua morte. São um registo histórico dos factos políticos, sociais e culturais para que olhava com desassombro: «diz-se que um jornalista tem que ser imparcial. Eu acho que não. Eu não sou imparcial. Não estou ligado a nenhum partido, mas analiso a situação, procuro onde está a verdade, tomo um partido.»
Com essa bússola nunca perdeu o norte, foi sempre um homem assumidamente de esquerda que o fez ser um dos primeiros e o mais activo fotojornalista a mergulhar nos cenários do 25 de Abril, fixando inesquecíveis imagens dos militares no Terreiro do Paço, no Largo do Carmo (no assalto à sede da PIDE), percebendo desde o primeiro momento que a queda da ditadura era inevitável, que a revolução triunfaria. Não é o único fotógrafo da Revolução de Abril, é o fotógrafo da Revolução dos Cravos nos momentos fulcrais daquele dia, nos meses subsequentes.
Desde as suas primeiras fotos nunca deixou de andar armado com uma máquina fotográfica, sempre pronto a fotografar, deixando testemunhos da emigração, da guerra, da pobreza, do excesso, do absurdo dos conflitos, como aconteceu em Timor e no Iraque, nos anos de 1990. Foi um dos poucos repórteres fotográficos, a nível mundial, a fixar os raptores da equipa israelita no Jogos Olímpicos de Munique, em 1972.
Fez retratos de inúmeras personalidades da vida política e cultural. Tem uma extensa bibliografia em que colaborou com os mais destacados escritores portugueses explorando temas que desde sempre o motivaram. Em Portugal, a história do fotojornalismo, se não começa com ele, é com ele que dá um salto qualitativo que marca todas as gerações seguintes.




