Não são vassalos…

Carlos Lopes Pereira

No Burkina Faso, milhares de pessoas manifestaram-se, no dia 30 de Abril, em Uagadugu e noutras cidades, em apoio ao governo, que anteriormente revelou ter frustrado uma «grande conspiração» urdida na Costa do Marfim e refutou ingerências dos Estados Unidos da América.

Segundo meios de comunicação africanos, os manifestantes na capital, em Bobo-Dioulasso – a segunda maior cidade – e em Boromo empunhavam cartazes com dizeres como «Apoio total ao presidente Ibrahim Traoré e ao povo do Burkina Faso», «Abaixo o imperialismo e seus lacaios locais», «Viva a resistência anti-imperialista», «Não às manobras das potências imperialistas para minar a nossa revolução» ou «Não à ingerência dos EUA».

Em meados do mês passado, o governo provisório, liderado pelo capitão Ibrahim Traoré, anunciou ter descoberto e desmontado um complô visando «semear o caos total» no Burkina, em mais uma «tentativa de desestabilização das instituições republicanas». Acusou os mandantes dos conspiradores de beneficiar da ajuda da vizinha Costa do Marfim, antiga colónia francesa que mantém fortes laços neocoloniais, incluindo militares, com Paris. O ex-presidente burquinense Blaise Compaoré, condenado por traição e por ter orquestrado o assassinato do líder revolucionário Thomas Sankara, em 1987, é um dos exilados em território marfinense, com a protecção da França.

As manifestações foram convocadas pela Coordenação Nacional das Associações de Vigilância Cidadã para denunciar «a hipocrisia das antigas potências coloniais, que criminalizam a resistência enquanto pilham o continente africano» e alertar para «a desinformação mediática que procura diabolizar os líderes pan-africanistas». Para o secretário-geral do movimento, Ghislain Somé, a mobilização popular é a prova de que o povo está comprometido com os seus dirigentes e garante que jamais os inimigos do Burkina conseguirão desestabilizar o país. Já o primeiro-ministro, Rimtalba Ouédraogo, reiterou que «a juventude está de pé, o povo patriota está de pé, os combatentes da liberdade no mundo estão de pé», pelo que o povo burquinense deve permanecer de pé, mais do que nunca, porque «quando o povo se ergue, os imperialistas tremem».

Um outro objectivo das manifestações foi o de rechaçar as mais recentes pressões e ingerências dos EUA no Burkina Faso, que integra a Aliança dos Estados do Sahel juntamente com o Níger e o Mali. Esses países expulsaram as tropas francesas e norte-americanas dos seus territórios, retiraram-se da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (Cedeao), cancelaram acordos que beneficiavam potências estrangeiras e decidiram seguir uma via de desenvolvimento liberto das peias do neocolonialismo.

O governo em Uagadugu repudiou com firmeza declarações do novo chefe do comando militar dos EUA para África (Africom), general Michael Langley, perante o Senado, em Washington. Afirmou ele – depois de uma visita à Costa do Marfim – que os dirigentes burquinenses utilizam as reservas de ouro do seu país em proveito próprio.

A resposta a Langley surgiu de diversas forças progressistas na África Ocidental, que lembram que Níger, Mali e Burkina Fasso «já não são Estados vassalos» e que, hoje, constituem um exemplo para todos os povos africanos que lutam contra a dominação imperialista.

 



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