O 1.º de Maio e a conquista de direitos é património dos trabalhadores, não da UE

João Pimenta Lopes

Já há muito que nos habituámos ao hipócrita exercício da propaganda da União Europeia como forma de mascarar as consequências das suas próprias políticas e de iludir as suas responsabilidades na degradação das condições de vida dos povos ou nos constrangimentos ao desenvolvimento soberano de cada país.

Pelo menos até ao último domingo, ao abrirmos o sítio na internet do “Consilium” (a página do Conselho Europeu e do Conselho da União Europeia, que dão conta da actividade e reuniões das instituições da UE), tínhamos como destaque a caixa «Direitos laborais na UE em destaque no Dia do Trabalhador – Fique a saber como a UE promove a equidade, a igualdade e a proteção no local de trabalho para todos os europeus». Dizem-nos que a UE «promove condições de trabalho justas e a não discriminação, dando simultaneamente resposta às necessidades dos empregadores e estimulando o crescimento económico». O grande referente para esse caminho é o “Pilar Europeu dos Direitos Sociais”, que corresponde a uma desmedida operação de cosmética para maquilhar as políticas neoliberais da UE e as consequências que daí decorrem no ataque aos direitos dos trabalhadores. Remete para a diretiva das condições de trabalho transparentes, que votámos contra por considerar que não dava garantias sequer de prestar informação relevante e atempada na relação laboral e em alterações relativas a, por exemplo, local de trabalho, como exclui trabalhadores precários (precariedade essa que o dito Pilar não rejeita). Refere a diretiva dos salários mínimos, que votámos contra, pois dá cobertura ao que foi a pressão das instituições da UE, como a Comissão Europeia, que criticou sucessivos aumentos do salário mínimo em Portugal, como contribui para promover a política de «contenção salarial». Fala do caminho para a «igualdade de remuneração», remetendo para a directiva sobre a transparência salarial, em que nos abstivemos, por não dar garantias de protecção laboral e de implementação cabal do princípio de igualdade salarial, legitimando a desigualdade desde que não seja superior a 5% e sendo só verificável em empresas com mais de 100 trabalhadores. De fora o contributo da UE para a desregulação dos horários de trabalho, com a directiva sobre o tempo de trabalho, em nome de uma “flexibilidade” que a UE continua a propagandear.

Serve a hipocrisia com que a UE assinala o dia internacional do trabalhador, para recordar a todos os trabalhadores que as conquistas de direitos sociais e laborais, são património da sua luta. As políticas da UE, no essencial, só contribuíram para atacar esse património e introduzir regressão de direitos. Há, pois, que dar-lhes firme combate.

 



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