Bonecos do povo
João Abel Manta evidencia ser um artista maior entre os maiores
João Abel Manta ficará para sempre ligado à Revolução do 25 de Abril. Os seus cartoons são uma crónica inteligente, culta, muitas vezes temperada com uma ironia cortante, em que acertava com a eficácia e a certeza de um golpe de kung fu nos sucessos desses tempos exaltantes em que o futuro se ia construindo nas curvas e contracurvas das estradas abertas pelas portas que Abril abriu.
Esses cartoons já foram objecto de várias exposições e publicações. A eles se recorre com frequência porque são imperecíveis. Na vasta e notável obra de João Abel Manta, arquitecto, pintor e artista gráfico, há um efeito ambivalente. Se por um lado popularizaram um artista maior, por outro de algum modo sobrepuseram-se a toda uma obra que é das mais eminentes na história das artes.
Agora, nas celebrações dos 51 anos do 25 de Abril e nas dos 50 anos da Constituição da República, na Sociedade Nacional de Belas Artes foi inaugurada a 24 de Abril – e pode ser visitada até 31 de Maio – a exposição Bonecos para o Povo. Centrada nos cartoons do período revolucionário e parcialmente baseada em duas grandes exposições realizadas em 2024 (Uma Coisa Nunca Vista, no Museu Abel Manta, de Gouveia, e João Abel Manta Livre, no Palácio Anjos, de Algés), apresenta peças do Museu de Lisboa e do Museu Abel Manta de Gouveia e também exibe peças das colecções particulares dos herdeiros do general Vasco Gonçalves e dos herdeiros do coleccionador Manuel de Brito.
Nesta exposição são pela primeira mostrados os desenhos preparatórios de muitos desses cartoons dos anos 1974-1975, da Revolução dos Cravos, muitos outros trabalhos da sua obra gráfica desde os primeiros anos até aos que realizou durante os tempos do fascismo, enfrentando a censura e os tribunais, como sucedeu com o que invectivava o Festival da Canção, incluindo os que realizou quando esteve preso em Caxias, em 1948. A exposição é ainda complementada por um precioso conjunto de documentos provindos do arquivo do artista: originais, fotografias, cartas, recortes de imprensa.
Uma excelente mostra de um artista politicamente empenhado que, como escreveu José Cardoso Pires, reportando-se aos cartoons do tempos da ditadura: «Nenhum pintor daqui e de agora resumiu com tantas subtilezas a temperatura social e política do fascismo agonizante; raros, raríssimos, com o prestígio e a obra de João Abel Manta, resistiram e apostaram como ele na intervenção. Fez isso a dois planos paralelos, pode dizer-se: pintura a longo prazo e comentário urgente, direto. (...) Fantasmas, donos ilustres, medalhões e ratazanas da nau engalanada, malas artes, belas letras, padralhada e algozes, tudo cabe, minha gente, neste inventário doméstico (...) E ir à História, aos infernos da Censura, aos tribunais e às gazetas fascistas para, em verdade e grandeza, se avaliar a luta e a coragem que se ocultam nestes desenhos».
Dobrada a esquina do fascismo, João Abel Manta continuou igual a si próprio, porque nenhum outro artista mostrou como ele os caminhos da revolução sem fazer cedências estéticas.
Não são Bonecos para o Povo, são Bonecos do Povo feitos com a mestria, o saber, a inteligência, a cultura de um artista que, em todos os géneros artísticos por onde viajou o seu talento, evidencia ser um artista maior entre os maiores.




