Palestinianos têm direito a ter um Estado na terra que é a sua
Domingo, 30 de Março, assinalava-se mais um Dia da Terra da Palestina, essa terra ocupada e massacrada onde um povo heróico luta há décadas, nas mais duras circunstâncias, para erguer o seu próprio Estado soberano, independente e viável onde possa viver em liberdade. Nesse mesmo dia, nas ruas de Lisboa, Porto e Coimbra, exigiu-se uma vez mais o fim do genocídio e da ocupação, o reconhecimento do Estado da Palestina e a paz no Médio Oriente.
«Em cada cidade, em cada esquina, somos todos Palestina», ouviu-se nas ruas de Lisboa, Porto e Coimbra
Nas últimas semanas, as bombas voltaram a cair violentamente na Faixa de Gaza, onde falta tudo o que é essencial à vida da população: a comida, a água, os medicamentos, as casas, os hospitais, as escolas. Neste período, centenas de palestinianos foram mortos – e lá estão novamente as crianças entre as principais vítimas –, com a macabra contabilidade de vítimas mortais confirmadas a ultrapassar na segunda-feira, 31, os 50 mil. A estes acrescerão muitos outros, que permanecem sob os escombros.
Alvos privilegiados dos ataques israelitas são também os jornalistas que não desistem em denunciar os crimes ali cometidos. Há dias, Hossam Shabat, um jovem jornalista da Al-Jazeera, de 23 anos, foi morto quando o veículo em que se deslocava foi atacado pelo exército de Israel. Era um dos poucos jornalistas ainda em actividade no Norte da Faixa de Gaza.
Como sabia que este era um desfecho possível, deixou uma mensagem aos seus camaradas de profissão, que a divulgaram: «Se lerem isto, quer dizer que fui morto – muito provavelmente num ataque dirigido pelas forças de ocupação de Israel. (…) Documentei os horrores no Norte de Gaza, minuto a minuto, determinado a mostrar ao mundo a verdade que eles tentavam sepultar. Dormi no chão, em escolas, em tendas, em qualquer lugar onde pudesse. Cada dia era uma batalha pela sobrevivência. Passei fome durante meses, mas nunca abandonei o meu povo. (…) Peço a vocês agora: não parem de falar sobre Gaza. Não deixem o mundo virar a cara. Continuem a lutar, continuem a contar a nossa história, até que a Palestina seja livre.»
Entretanto, as Nações Unidas acusam Israel de ter assassinado «um por um» médicos e socorristas no Sul da Faixa de Gaza, enterrando-os em seguida numa vala comum.
Para além dos mortos, há ainda muitas dezenas de milhares de feridos, amputados e órfãos e muitos palestinianos são uma vez mais forçados a novas deslocações, pela enésima vez em 17 meses.
Ocupação agrava-se
Israel, que nunca cumpriu cabalmente o acordo de cessar-fogo estabelecido com a resistência palestiniana, quebrou-o agora abertamente: não só retomou em força os bombardeamentos como limitou ainda mais a ajuda humanitária à população da Faixa de Gaza. No horizonte desenha-se o plano de expulsão forçada das populações palestinianas do território, anunciado por Donald Trump e antes ambicionado por Israel.
Ao genocídio no território palestiniano costeiro soma-se a incessante violência na Cisjordânia: os bombardeamentos de zonas residenciais e campos de refugiados, a ocupação de terras agrícolas, a expulsão de populações das suas casas e a perspectiva de construção de novos colonatos, as prisões. Estão contabilizados, neste momento, 9500 palestinianos detidos por Israel.
Ao contrário de todos estes crimes, que passam despercebidos nas grande cadeias informativas mundiais, deu que falar a agressão e prisão, na Cisjordânia, do realizador palestiniano Hamdan Ballal, vencedor do Óscar de Melhor Documentário pelo seu filme «No Other Land». Apesar do prémio, o filme não conseguiu um distribuidor nos EUA. «Pensei que estava a viver os meus últimos momentos devido à violência dos golpes», declarou Ballal à comunicação social.
Exaltar a resistência
A data assinalada no domingo, nas acções promovidas em Lisboa, Porto e Coimbra pelo CPPC, a CGTP-IN, o MPPM e o Projecto Ruído – Associação Juvenil, a que se associaram muitas outras organizações, evoca os acontecimentos de 30 de Março de 1976, data em que se realizava uma greve geral e grandes manifestações contra a expropriação de terras palestinianas por colonos e militares israelitas. A violenta repressão deixou seis jovens mortos e centenas de feridos e presos. Passou à história como o Dia da Terra da Palestina, em que se exalta a resistência de um povo pelo direito a viver livre na sua terra. Uma resistência que prossegue, em condições duríssimas, contra uma ocupação cada vez mais brutal e abertamente genocida.
Foi essa resistência e esse direito inalienável do povo palestiniano à liberdade, à paz e ao seu Estado independente e soberano que estiveram em destaque nas acções de domingo, onde se ouviu e leu, entre outras palavras de ordem, «Israel é violência, Palestina é resistência», «Fim ao genocídio! Fim à ocupação!», «Em cada cidade, em cada esquina, somos todos Palestina» ou «Cessar-fogo já!». O reconhecimento, por Portugal, do Estado da Palestina foi uma vez mais exigido. Não o fazer, acusou-se, é ser cúmplice da barbárie.
Na solidariedade, Portugal não faltou à chamada
Em Lisboa, milhares de pessoas manifestaram-se entre a Praça do Martim Moniz e o Largo José Saramago. Na frente seguiam representantes das organizações promotoras, empunhando uma faixa onde se lia «Palestina livre, Paz no Médio Oriente». Estas exigências, e outras semelhantes, eram reafirmadas por outras organizações, nas suas próprias faixas ou cartazes. O Projecto Ruído, acrescentava outra, de modo nenhum desligada da dramática realidade da Palestina e do Médio Oriente, mas apontada também à nossa própria: «Menos armas, mais futuro!»
O período das intervenções, apresentado por Estefânia Rebelo, do Projecto Ruído, ficou marcado pela denúncia dos crimes de Israel, pela solidariedade com o povo e a resistência palestinianos, pela crítica às cumplicidades dos EUA, da NATO, da UE e, claro, do Governo português, cuja posição aparentemente dúbia representa na prática a cumplicidade com a política de ocupação e genocida de Israel.
Pelo CPPC, Isabel Camarinha insistiu na luta por «um mundo de paz e cooperação, pela liberdade, justiça social e progresso, pelo respeito do direito internacional e da Constituição da República Portuguesa. Carlos Almeida, do MPPM, denunciou as «famílias extintas soterradas sob os escombros das suas casas, dos corpos mutilados amontoados em sacos de plástico» e das crianças, «das 30 crianças mortas por dia, em média, desde Outubro de 2023, uma a cada 45 minutos». João Barreiros, da CGTP-IN, lembrou que as eleições de 18 de Maio são um momento para «levar até ao voto a luta por uma Palestina livre e independente, para levar a exigência do reconhecimento pelo Estado português do Estado da Palestina, livre e independente», nas fronteiras de 1967, de acordo com as resoluções da ONU.
Intervieram ainda Myriam Zaluar, dos Judeus pela Paz e a Justiça, que afirmou que precisamente por ser «descendente de refugiados, como o são a maioria dos judeus em todo o mundo, que estou, que estamos, solidários com o povo palestiniano e apoiamos incondicionalmente o seu direito de retorno», e a investigadora palestiniana residente em Portugal, Dima Mohammed, que lembrou os jovens assassinados no massacre que deu origem ao Dia da Terra, iguais a tantos outros, mortos antes e depois dessa data.
O cantor Udi Fagundes somou à solidariedade com a Palestina sons de outras latitudes, onde a resistência ao imperialismo também se trava diariamente.
Uma delegação do PCP, dirigida por Paulo Raimundo, esteve presente na manifestação solidarizando-se com os seus objectivos. Em declarações à comunicação social, o dirigente comunista afirmou ser necessário travar o genocídio «de uma vez por todas» e garantiu que será «no mínimo embaraçoso para o Estado português sujeitar-se a ser um dos últimos da lista a tomar a decisão que se impõe», o reconhecimento do Estado da Palestina.
Memória e luta
No Porto, centenas de pessoas concentraram-se no Jardim do Infante em solidariedade com a Palestina. Na relva, dezenas de pequenas bandeiras representavam outras tantas manifestações de solidariedade, com cada participante a ser convidado a «plantar» a sua própria bandeira. Um grande estandarte palestiniano, estendido no relvado, não deixava dúvidas a quem passava – e foram tantos, muitos dos quais por ali ficaram – do que motivava aquela concentração.
«Estamos aqui para celebrar uma data que é de memória e de luta», afirmou Leonor Medon, na apresentação da iniciativa, que começou com a música de Miro, nome artístico de Casimiro Couto, que interpretou canções de luta intemporais. Da música à poesia, foi Jorge Mendonça a lembrar as palavras sempre actuais de Elana Bell, Mahmoud Darwish e Tawfiq Zayyad. Foi este último quem escreveu, em A Oliveira, «Pelo bem da memória/ Continuarei a gravar/ Todos os capítulos da minha tragédia/ E todas as etapas de Al-Nakhbah/ Na oliveira do meu quintal!».
Francisco Aguiar e Luís Miranda, do Projecto Ruído, apresentaram razões para que os jovens apoiem a Palestina e, com ela, a construção de um mundo de paz. Joana Jesus, da União de Sindicatos do Porto, reafirmou a determinação dos trabalhadores em reforçarem a solidariedade com o povo palestiniano e viu a sua filha, do palco, lançar palavras de ordem. João Rouxinol, do CPPC, apelou à continuação da luta contra o genocídio e a ocupação da Palestina e também a uma mais determinada acção pela paz e o desarmamento. Do MPPM, José António Gomes, denunciou os crimes israelitas e valorizou a resistência e a tenacidade demonstradas pelo povo palestiniano, que o conduzirão à vitória.
Faixa afixada em Coimbra
Em Coimbra, foi afixada na ponte de Santa Clara uma faixa pintada dias antes, onde se exige que seja dada uma oportunidade à paz, desde logo cumprindo o cessar-fogo, que deve ser permanente. A faixa foi pintada na rua, no dia 26, por activistas dos vários movimentos que têm impulsionado a solidariedade com o povo palestiniano, contra o genocídio e a ocupação.
Activistas intimidados em Castelo de Vide
O Grupo Parlamentar do PCP entregou na Assembleia da República uma pergunta dirigida à ministra da Administração Interna sobre a intimidação, por agentes da GNR, de activistas que pacificamente demonstravam a sua solidariedade com a Palestina em Castelo de Vide, durante uma das etapas da Volta ao Alentejo. Em causa estava a participação na prova da equipa israelita Israel Premier Tech, que não é apenas uma equipa desportiva, mas um instrumento da «diplomacia desportiva» do Estado de Israel.