- Nº 2674 (2025/02/27)

1905, prólogo da Revolução de Outubro

Argumentos

Assinalam-se os 120 anos da primeira Revolução Russa (1905-1907). O Domingo Sangrento em São Petersburgo foi a faísca que desencadeou o início da vaga revolucionária que assolou a Rússia czarista durante mais de dois anos. Uma revolução democrática-burguesa no conteúdo social mas proletária na força dirigente e meios de lutai. Apesar de derrotada, o impacto da primeira revolução das massas da era imperialista transcendeu largamente as fronteiras do velho império e abriu caminho ao triunfo, em 1917, da revolução na Rússia que abalou o mundo.

A 22 de Janeiro de 1905 (9 de Janeiro no antigo calendário), uma manifestação pacífica congregando cerca de centena e meia de milhar de operários e famílias, liderada pelo padre Gapone (mais tarde revelou-se um provocador), converge para o Palácio de Inverno. Pretendiam entregar ao czar uma petição com a denúncia da sua condição miserável e um conjunto de reivindicações de ordem económica (salários dignos, jornada de oito horas) e também política (amnistia, liberdades cívicas, sufrágio universal e convocação de uma Assembleia Constituinte). Num país de concentração industrial tardia, a marcha mostrava ainda o atraso e ingenuidade do proletariado russo.

A par de palavras de ordem combativas, erguiam-se ícones e retratos do czar. Nicolau II, ausente do palácio, deu aval ao uso da força. A guarda imperial reforçada ceifou a tiro o protesto. A neve tingiu-se de vermelho. O massacre deixou largas centenas, ou mesmo milhares, de mortos e feridos. O efeito foi, porém, contrário ao pretendido pelo regime czarista, atrás do qual se acotovelavam os grandes fundiários e capitalistas russos e os interesses do grande capital estrangeiro, em domínio ascendente de sectores nevrálgicos da economia russa.

A monarquia jamais se recompôs da acção criminosa do Domingo Sangrento. Um movimento grevista sem precedentes na Rússia (e à escala mundial) fez tremer o império. O «ano de 1905 (...) enterrou definitivamente a Rússia patriarcal.»ii. A confiança cega do povo no czar foi irremediavelmente abalada. Cresceram as fileiras e influência dos partidos revolucionários e, em particular, dos bolcheviques (Partido Operário Social-Democrata Russo até 1918). A consciência de classe acompanhou a intensificação da luta. Na altura, desde o exílio, Lénine sublinhou que «a educação revolucionária do proletariado avançou num dia como não poderia avançar em meses e anos (…)».iii

A Rússia acabara de sofrer uma derrota humilhante do Japão em Porto Arthur, na costa da Manchúria (Guerra russo-japonesa de 1904-1905), agravando a crise e condição deplorável dos trabalhadores. A manifestação barbaramente reprimida em São Petersburgo coroava o movimento grevista iniciado na fábrica Putilov que, em poucos dias, se estendera a mais de 600 fábricas e empresas da cidade. Após a matança, a contestação, traduzida na palavra de ordem, Fora a autocracia!, adquire dimensão nacional. Protestos, revoltas e paralisações gerais abarcam toda a Rússia e os quatro cantos do império. Varsóvia e Riga estão entre os principais centros do protagonismo operário, vincando a base social do reavivar da questão nacional na velha Rússia imperial, «prisão dos povos».

Os camponeses (77% da população), só libertados da servidão em 1861, despertam para a luta ao lado da classe operária e de outros sectores, semeando a revolta no Exército e Marinha. Alastra-se o clima de insurreição. É neste quadro que tem lugar, em Junho de 1905, o levantamento do Couraçado Potemkine, imortalizado no célebre filme de Eisenstein. O poder é forçado a fazer significativas concessões sociais e políticas.

A revolução atinge o ponto máximo no final de 1905, com a heróica insurreição de Moscovo por uma força de alguns milhares de operários armados. Ao seu esmagamento sucede-se uma fase de refluxo, culminando no golpe do primeiro-ministro, Stolypin, e dissolução da II Duma, em meados de 1907. O triunfo da reacção prolongou a crise e agonia do regime.

A primeira Revolução Russa marcou o surgimento dos Sovietes (Conselhos) de deputados operários, produto da energia criativa das massas, forjada da acção dos comités de greve. O aprofundamento desta experiência embrionária de governo revolucionário provisório viria a revelar-se fundamental para o derrube da monarquia, na Revolução de Fevereiro de 1917. E foi sob a palavra de ordem, Todo o poder aos sovietes!, que o Partido bolchevique tomou o poder a 7 de Novembro.

Passados 120 anos, a situação no mundo sofreu profundas alterações. Mas as lições de 1905 readquiriram nova actualidade com o fim da URSS e a restauração capitalista. A ter presente no complexo quadro de ameaças e feixe de contradições enfrentado pela Rússia, em que sectores da direita e do poder apostam na exaltação mistificadora do tempo czarista e na tentativa de recriar o passado imperial no futuro do país.

iVer Lénine, Relatório Sobre a Revolução de 1905, 22.01.1917.

iiIdem, ibidem.

iiiO Começo da Revolução na Rússia, 25 (12) de Janeiro de 1905.

 

 

Luís Carapinha