Alexandre O’Neill – a poesia ligada à vida

Alexandre O’Neill, poeta do surrealismo e de outros processos literários, jornalista, publicitário com tineta, sátiro lúcido e virado para o que no real o inquietava, voz agreste e originalíssima, sem entretela, exposta ao desamor dos tempos aziagos, a alertar-nos para o medo que não podia ter tudo, para a forma de o enfrentarmos para que não ficássemos todos reduzidos a ratos, sim, a ratos; modos de intervenção política sob a égide do discurso surrealista, ma non troppo, de rasgar o silêncio, de dizer sem entrepostos cuidados que o medo não nos pode queimar a garganta, satirizando, num outro poema aqueles que o medo cala, que se escondem e não despertam para a luta, que permanecem Perfilados de medo, agradecemos/o medo que nos salva da loucura./Decisão e coragem valem menos/e a vida sem viver é mais segura, invectivar os que trazem o coração nos dentes oprimido, /os loucos, os fantasmas somos nós. //Rebanho pelo medo perseguido, sabendo, quando chegar o dia da rendição e do ultraje que da vida perdemos o sentido.1

Alexandre O’Neill nasceu em Lisboa, a 19 de Dezembro de 1924, foi co-fundador do Grupo Surrealista de Lisboa (1947), o qual juntava nomes como Mário Cesariny de Vasconcelos, António Pedro e José Augusto França, Grupo que acabará por se cindir, formando Cesariny o grupo Os Surrealistas, com Pedro Oom e António Maria Lisboa. Ambos os grupos, no entanto, são tardios, tendo em conta que o Primeiro Manifesto do Surrealismo, de André Breton, data de 1924. No entanto, o Manifesto e os poetas do surrealismo francês irá ter junto dos surrealistas portugueses influência determinante, não apenas pela envolvente teórica de Breton, mas igualmente pela poesia de vozes cimeiras como as de Paul Éluard, Aragon, Antonin Artaud e outros.

A ligação de O’Neill ao surrealismo é, contudo, efémera, considerando ele que a sua passagem pelo Grupo estava colorido de ingenuidade: Impossível cantar-te/como cantei o amor adolescente/colorindo de ingenuidade/paisagens e figuras reduzindo-o/à mesma atmosfera rarefeita/do sonho sem percurso no real, escreverá num poema do seu primeiro livro, Tempo de Fantasmas, de 1951.

Não se pense, no entanto, que a criação poética de O’Neill se divorcia completamente do surrealismo, a esse impulso inicial voltará por fases, embora a realidade do país, essa pequena dor à portuguesa, lhe exija um mais atento envolvimento denunciador, como acontece no poema Um Adeus Português: Não podes ficar nesta cama comigo/em trânsito mortal até ao dia sórdido/canino/policial,/Não podesficar presa comigo/à pequena dor que cada um de nós/traz docemente pela mão/a esta pequena dor à portuguesa/tão mansa quase vegetal,/ Não mereces esta roda de náusea em que giramos/até à idiotia/esta pequena morte/e o seu minucioso e porco ritual.2

A PIDE, atenta a todos os gestos, por mais ténues, que ousassem romper o silêncio imposto por decreto, não deixou de o prender em Caxias, com pena disciplinar, entre 20 de Dezembro de 1953 e 9 de Janeiro de 1954.

No livro Adereços, Endereços, que inscreve alguns poemas da fase surrealista de Ary dos Santos, o poeta dedica a Alexandre O’Neill o poema O Blazer, o que configura cumplicidade estética, temporal embora, entre ambos. Também os dois poetas tematizaram Lisboa e os seus distintivos aspectos: o Tejo, as varinas, a gente pobre dos bairros, as tascas, o Chiado, os barcos, os velhos, as gaivotas. O fado, que a ambos seduziu, serviu-lhe de mote a poemas que lírica e conceptualmente lhe moldaram o conteúdo e levando para a melopeia a grande poesia: Gaivota, Formiga Bossa-Nova e Verde Pinho, Verde Mastro, são alguns desses poemas que O’Neill escreveu para o fado.

O que nele dói, e a alguns dos seus contemporâneos, é o Portugal fascista, o país boçal, miudinho, parado no tempo e fechado em discursos de ranço e pelintrice, de fantasmas e de cagarolas arredondando a mesada na prédica tolhedora ou na bofaria: Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,/golpe até ao osso, fome sem entretém, perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,/rocim engraxado,/feira cabisbaixa,/meu remorso/meu remorso de todos nós…3O País outro e possível, despertaria nove anos depois de publicado este poema.

1 Excerto do poema Perfilados de Medo, do livro Poemas Com Endereço, de 1962

2 Poema Um Adeus Portugal, do livro No Reino da Dinamarca, de 1958

3 Poema Portugal, do livro Feira Cabisbaixa, de 1965

 



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