«Temos de recuperar a nossa terra»

Omar Mih é o representante em Portugal da Frente Polisário, movimento de libertação do Sara Ocidental, reconhecido pelas Nações Unidas como o único representante legítimo do povo sarauí. Em conversa com o Avante!, denunciou as consequências da ocupação marroquina e do roubo dos recursos naturais sarauís, que permanece e se agrava com a cumplicidade dos EUA, da União Europeia e de Israel. Da parte da Frente Polisário, garante, a luta continuará até que o povo sarauí se pronuncie sobre o que quer para a sua terra.

Marrocos controla e continua a explorar e a aproveitar-se ilegalmente dos recursos naturais do Sara Ocidental

 

Qual a situação política e militar actual, no terreno, do conflito entre o povo sarauí e a potência ocupante, o reino de Marrocos?

Actualmente, do ponto de vista militar, continuam as hostilidades iniciadas em Novembro de 2020 devido à violação do cessar-fogo por parte do exército de Marrocos. Atravessou o muro, construiu outro e violou o cessar-fogo entre o Reino de Marrocos e a Frente Polisário, que estava em vigor desde 1991. Há, portanto, uma guerra, de baixa intensidade, ao longo de todo o “muro da vergonha” marroquino – o maior muro do mundo, com 2700 quilómetros, nove milhões de minas a toda a largura e 120 mil soldados. Custa, por dia, um milhão de dólares.

Do ponto de vista político, desgraçadamente, Marrocos impôs condições para retomar as negociações sob os auspícios das Nações Unidas: primeira, não negoceia directamente com a Polisário; segunda, não discute nenhuma solução que não seja a “autonomia”, sob soberania marroquina; terceira, não negoceia enquanto houver hostilidades, fazendo por esquecer que quem começou as hostilidades foi Marrocos. Que significam estas condições? Que não haverá negociações. É uma clara sabotagem das decisões das Nações Unidas.

Que impactos tem tudo isto para a população sarauí?

Marrocos controla e continua a explorar e a aproveitar-se ilegalmente dos recursos naturais da República Árabe Sarauí Democrática: os fosfatos, a pesca, o petróleo, as energias renováveis. Apesar de todas as decisões dos tribunais europeus proibindo-o de o fazer. Nos territórios ocupados viola todos os dias os direitos humanos dos sarauís. Há centenas de presos políticos, alguns dos quais condenados a prisão perpétua.

E, perante isso, o que faz o “Ocidente”, a “Europa”? Em vez de pressionar Marrocos, dão-lhe prémios, como fez recentemente o primeiro-ministro espanhol Pedro Sanchéz, que escreveu uma carta a Mohamed VI, garantindo o apoio do governo de Espanha à proposta de Marrocos como sendo a única viável. O mesmo fez Emanuel Macron, que também fez saber ao rei de Marrocos que apoia a solução do conflito no Sara Ocidental sob soberania marroquina. Devem pensar que estão em meados do século XIX, quando os europeus atribuíam-se o direito divino sobre terras que não eram suas.

 

Há perspectivas de se avançar, conforme as resoluções pertinentes das Nações Unidas, com o referendo sobre a autodeterminação do povo do Sara Ocidental?

Essa é uma responsabilidade da comunidade internacional, que tem de garantir que as suas decisões são aplicadas. Da nossa parte, nunca renunciaremos ao nosso direito à autodeterminação e à independência. Vamos continuar a nossa luta: nós e os nossos filhos. Temos de recuperar a nossa terra, não temos outra. É um direito nosso. Marrocos é uma potência ocupante.

Marrocos, tal como faz Israel relativamente aos palestinianos, diz que os sarauís não existem. O que é natural, já que Israel e Marrocos estão muito unidos, politicamente e em termos militares. Drones israelitas são usados para atacar civis sarauís. Até ao momento, foram mortos mais de 180 desta forma. E também há acordos económicos. Há empresas israelitas envolvidas na exploração de petróleo offshore, em território sarauí. Israel é um actor externo à nossa região e a sua presença vai dificultar ainda mais a solução do nosso problema.

Também os EUA ofereceram o reconhecimento da soberania de Marrocos sobre o Sara Ocidental em troca do reconhecimento de Israel por parte de Marrocos. Mas isto é ilegal, pois mais uma vez estão a oferecer o que não lhes pertence.

Em poucas palavras, como descreverias o que é e por que luta a Frente Polisário?

A Frente Polisário é o movimento de libertação nacional do Sara Ocidental. É o seu único representante legítimo, reconhecido pelas Nações Unidas e pela União Africana. Quando surgiu, a Frente Polisário lutava contra a presença colonial espanhola e quando esta terminou passou a ter como objectivo central fazer com que o povo sarauí se pronunciasse acerca do que pretendiam fazer da sua terra, através de um referendo transparente, organizado internacionalmente pelas Nações Unidas. Ou seja, a exercer o seu direito à autodeterminação.

Uma vez que os sarauís se pronunciem, a Frente Polisário termina a sua missão. Queremos a independência, é esse o nosso objectivo, mas batemo-nos acima de tudo pelo direito do povo sarauí a decidir livremente sobre o seu futuro.