Armindo Rodrigues, o Poeta que questionou o nosso tempo

Domingos Lobo

«o ca­rácter ver­tical do poeta, mé­dico e co­mu­nista, que Ar­mindo Ro­dri­gues sempre foi»

Cum­prem-se, a 8 de Agosto, 120 anos do nas­ci­mento do poeta, mé­dico e tra­dutor Ar­mindo Ro­dri­gues (Lisboa, 1904/​1993), uma das vozes poé­ticas mais im­por­tantes do ne­or­re­a­lismo li­te­rário por­tu­guês, re­ve­lada logo na sua fase ini­cial.

Poeta de com­bates e de lutas, de­sas­som­brado e frontal, daí me não ser es­tranha a au­sência de re­fe­rên­cias crí­ticas e de es­tudo atento e sem ra­suras ide­o­ló­gicas, à vas­tís­sima obra poé­tica (pu­bli­cada e iné­dita) de Ar­mindo Ro­dri­gues, cuja, pela sua ampla di­ver­si­dade con­cep­tual, ma­te­ri­a­liza as com­po­nentes que a po­esia, ac­tual ou não, deve car­regar em seu bojo fu­gidio e eva­nes­cente: a ca­pa­ci­dade de­miúr­gica de nos so­bres­saltar, de nos in­dicar as hastes in­vi­sí­veis da re­ge­ne­ração moral em busca das uto­pias pos­sí­veis. Estão lá, nesse chão ocre das pa­la­vras es­sen­ciais, as ima­gens de um filme a haver e as ou­tras que a me­mória trans­porta de uma ado­les­cência dis­traída, mas tenaz e im­pe­ni­tente de des­co­bertas, ra­suras e afectos – de cons­trução do ser. A po­esia de Ar­mindo Ro­dri­gues contém, na sua cós­mica ful­gu­ração, essa ma­téria frágil, essa tes­si­tura de som­bras, co­lo­cando em seu baú de trans­pa­rên­cias, sem ab­surdos las­tros, em co­mu­ni­cação di­a­léc­tica uma ex­pe­ri­ência exis­ten­cial e um saber cons­ti­tuído, como diria Edgar Morin.

Da têm­pera de que são feitos os ho­mens de co­ragem, de «antes que­brar que torcer», Ar­mindo Ro­dri­gues cedo as­sumiu a sua con­dição de opo­sitor ao fas­cismo, cedo er­gueu a sua voz in­dig­nada contra a opressão, cedo co­nheceu as mas­morras da PIDE. Essa pos­tura cí­vica está pa­tente nos úl­timos versos do be­lís­simo poema – ei­vado de nos­talgia pelos ca­mi­nhos da in­fância pas­sada em Es­tremoz – de resto, só tenho sau­dades do fu­turo, es­creveu nas suas me­mó­rias –, no qual o poeta evoca o avô, lu­tador contra a mo­nar­quia, e re­lembra uma vi­sita ao Alen­tejo, es­paço mí­tico (esse chão ver­melho) que ocupa um lugar sen­tido (e so­frido), em di­versos po­emas da sua vasta obra: Meu avô/​tem con­fi­ança/​na de­cisão do teu neto,/​que nunca te ne­gará/​nem bai­xará o olhar,/​mesmo que o po­nham de rastos,/​mesmo que o queiram matar. Esta pos­tura de co­ragem re­flecte o ca­rácter ver­tical do poeta, mé­dico e co­mu­nista, que Ar­mindo Ro­dri­gues sempre foi no per­curso de uma longa, sin­gular e pro­fícua exis­tência de 89 anos.

A po­esia de Ar­mindo Ro­dri­gues, desde Voz Ar­re­mes­sada ao Ca­minho (1943) es­boça já, no plano ide­o­ló­gico e formal, uma ver­tical, e ver­ti­gi­nosa opo­sição ao mo­der­nismo da Pre­sença e ao pre­tenso hu­ma­nismo que os seus cul­tores terão her­dado da ge­ração de 70. A sua voz ins­creve ou­tros cla­mores, outra in­qui­e­tação, outra des­treza des­cri­tiva e vo­ca­bular, como neste Li­ber­dade: Ser livre é querer ir e ter um rumo/​e ir sem medo/
mesmo que sejam vãos os passos/ É pensar/​e logo trans­formar o fumo do pen­sa­mento/ em braços/É ​não ter pão nem vinho/​só ver portas fe­chadas e pes­soas hostis/​e ar­rancar tei­mo­sa­mente do ca­minho/​so­nhos de sol com fú­rias de raiz/É ​estar atado, amor­da­çado, em sangue,/ exausto e, mesmo assim, só de pensar/ gritar gritar e/ só de pensar/ ir e chegar ao fim
. É esta força do querer, este in­con­for­mismo, este lu­cilar sobre a di­a­léc­tica dos ins­tantes, desse tempo amor­da­çado, que se faz a voz única e im­pres­siva do poeta, o sin­gu­la­riza pe­rante os seus pares e o seu tempo, mesmo nessa plural fron­teira dis­cur­siva contra os di­tames do fas­cismo.

Esse pro­cesso de es­crita, a um tempo pró­ximo e dis­tante das vozes que lhe serão afins, de ge­ração e de com­bate, este de­safio pe­rante o real, que atrela esta ma­téria sen­si­tiva ao mais subs­tan­tivo fulgor da po­esia que o ne­or­re­a­lismo, na sua com­ba­tiva mo­du­lação, soube cons­truir. É da sin­ge­leza dos sin­tagmas, nessa ele­mentar forma ex­po­si­tiva, ao rés da vida, no seu pulsar co­lec­tivo, que a po­esia de Ar­mindo Ro­dri­gues se es­tru­tura e nos dá a ver o ob­jecto solar que o lado obs­curo dos signos vai tol­dando nos seus con­tur­bados per­cursos. É a com­ple­xi­dade da vida, desse rumor fundo de re­cusa, que surge da ali­e­nação im­posta pelo poder, desse in­de­ci­frável fulgor dos mo­vi­mentos do mundo, que o poeta ins­creve e re­flecte na pai­sagem vasta que esse olhar, sempre so­li­dário, abarca, afirma e trans­fi­gura: Homem in­teiro, aberto/​às grandes tem­pes­tades,/​Homem in­teiro, aberto,/​aos largos ho­ri­zontes,/​Homem in­teiro, triun­fante,/​nunca exausto, con­tudo,/​de sa­be­doria e de ter­nura,/​não cesso de negar-me/​para me afirmar me­lhor,/​entre a sim­patia e o ódio,/​entre a ale­gria e a mágoa/(...) Homem in­teiro, aberto/​à acei­tação da morte,/​à vida a quero limpa e ras­gada,/​e exi­gente,/​e vi­vida sem som­bras, sem re­morsos,/​sem nojo,/​de mãos dadas a todos/​os que como eu a amam,/​na­tural como é/​sem com­pen­sa­ções ab­surdas,/​sem ter­rores me­ta­fí­sicos. É também dessa in­tei­reza, dessa dor que o poeta sente e de­nuncia, pe­rante as in­jus­tiças, os te­mores, as ti­ra­nias, que o poema se ergue como bar­ri­cada de luz, ar­chote aceso a de­finir os ca­mi­nhos do devir para o Homem in­teiro e livre. A Ar­mindo Ro­dri­gues, poeta de Abril, ha­vemos de voltar. Sempre.

 



Mais artigos de: Argumentos

Nicarágua celebra 45 anos da Revolução Sandinista

A 19 de Julho de 1979 as colunas armadas da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) tomaram Manágua e selaram o derrubamento da ditadura de Somoza. Consumava-se o triunfo da Revolução Sandinista no pequeno país centro-americano. A vitória da rebelião popular e a debandada final dos...