O divino e o popular na Festa dos Tabuleiros de Tomar
Depois do Carnaval de Torres Vedras, da Louça Preta de Bisalhães e de muitas outras expressões da cultura popular portuguesa, este ano a Festa do Avante! destaca a Festa dos Tabuleiros, que se realiza de quatro em quatro anos na cidade de Tomar. A exposição, elaborada em parceria com a Câmara Municipal de Tomar e a Comissão Central da Festa dos Tabuleiros, estará patente no Espaço Central.
A preparação e realização da Festa dos Tabuleiros envolve o tecido social do concelho de Tomar
“Então os tabuleiros são levantados num só impulso, num só arranque de braços, equilibram-se e firmam-se outra vez na cabeça das raparigas, e o arrebatamento, a comoção, o entusiasmo varrem a Praça, agitam os espíritos, como se de um novo Pentecostes se tratasse, um Pentecostes ao contrário, com as pombas a subirem do chão em vez de descerem do céu.”
José Saramago, Les Fêtes du Soleil: Celebrations, of the Mediterranean Regions. Betti Editice, Siena - 2001
Origem e significado
A Festa dos Tabuleiros apresenta um modelo singular no quadro das festividades em honra ao Espírito Santo que ocorrem pelo Pentecostes, data central do calendário cristão. Distingue-a desde logo o formato das ofertas, os Tabuleiros, que representam o pagamento de promessas ao Divino, constituindo um dos seus aspectos simbólicos centrais.
O culto consiste em diversas cerimónias rituais, religiosas ou festivas, iniciadas no domingo de Páscoa, que se somam a participação de todas as freguesias do concelho e as actividades complementares que dela fazem parte: o cortejo dos rapazes, os jogos dos rapazes, o cortejo do mordomo, os cortejos parciais, as ruas populares ornamentadas e os jogos populares.
À semelhança do que aconteceu noutros contextos, o culto do Divino em Tomar passou por processos de diversificação, diferenciação e transformação, criadores de novas soluções rituais. As festas de Tomar, que remontam ao século XVI, modificaram-se significativamente no início de 1950, seguindo-se a introdução progressiva de novas alterações inspiradas em modelos rituais pré-existentes. São os casos das ruas populares ornamentadas (1953), dos jogos populares (1964), do cortejo do mordomo (1966) e do cortejo dos rapazes (1991). Procurava-se assim replicar práticas festivas pré-existentes e, ao mesmo tempo, explorar novas potencialidades expressivas de exuberância cenográfica.
A festa
A Festa dos Tabuleiros inicia-se no domingo de Páscoa, com a saída das coroas e pendões de todas as freguesias do concelho de Tomar em cortejo animado por gaiteiros, tamborileiros, fogueteiros e bandas filarmónicas. A partir daí, a cena repete-se sete vezes.
No decurso destas saídas, realizam-se as cerimónias litúrgicas nas igrejas de São João Baptista e Santa Maria do Olival, nas quais são depositadas, ao redor do altar, as coroas e pendões.
No período compreendido entre o último fim-de-semana de Junho e o primeiro de Julho, inicia-se, ao sábado, um ciclo festivo de 10 dias. No domingo de manhã realiza-se o cortejo dos rapazes, com a participação exclusiva de crianças dos 4 aos 10 anos, e os jogos dos rapazes. Durante a semana têm lugar a abertura das ruas populares ornamentadas (quinta-feira) e o cortejo do mordomo (sexta-feira).
No sábado de manhã têm lugar os cortejos parciais e à tarde os jogos populares.
No dia seguinte, da parte da tarde, o cortejo dos Tabuleiros e respetiva bênção na Praça da República, em frente à Igreja de São João Baptista. Os festejos encerram na segunda-feira com a Pêza, terminologia atribuída à distribuição de bens alimentares pelas famílias mais carenciadas.
A Festa dos Tabuleiros realiza-se de quatro em quatro anos em Tomar, por diversas ruas e artérias da cidade e envolve desde 1950 a participação das 16 freguesias do concelho. É organizada por uma comissão liderada por um mordomo (que pode ser homem ou mulher) eleito em assembleia popular pelo povo tomarense. Completam a tríade de mordomos principais o presidente da Câmara Municipal e o provedor da Santa Casa da Misericórdia. A comissão é ainda composta por outros responsáveis políticos, religiosos e sociais, por inerência das suas funções.
Há equipas sectoriais responsáveis pela organização dos diferentes segmentos estruturantes da festa (dos cortejos à logística, do programa cultural à angariação de fundos) e o clero, as juntas de freguesia, as crianças e o movimento associativo assumem também papéis destacados.
A exposição
«Do povo para o povo» é o lema da exposição que estará patente na Festa do Avante!, alusiva da Festa dos Tabuleiros. Para além dos painéis explicativos da origem, significado e realização da festa, haverá vitrines com objectos vários, tabuleiros, ecrãs com vídeos das festividades e uma zona para os artesãos mostrarem as várias artes envolvidas na festa.
A entrada para o pavilhão será feita em rua florida, numa evocação das ruas populares ornamentadas que marcam aquela festa. No sábado, 7, haverá um desfile de Tabuleiros pela Festa do Avante!.
Património cultural
O Tabuleiro
Os Tabuleiros são o símbolo maior da festa do Espírito Santo em Tomar, cujo formato remonta ao século XVI, sob influência de mestres e artífices que trabalhavam nos monumentos manuelinos da cidade. No que respeita à sua composição, o Tabuleiro deve ser armado sobre um cesto de verga ou vime, coberto com um pano branco, de algodão ou linho, ou bordado feito à mão, onde se desenvolve uma estrutura vertical composta por cinco ou seis canas na qual são colocados os 30 pães de 400 gramas cada.
A encimar a oferta, é colocada uma coroa feita em folha de flandres com os símbolos da Cruz de Cristo, a esfera armilar, instrumento de navegação que o rei D. Manuel transformou em símbolo real, ou a Pomba, forma de representação da divindade.
Os Tabuleiros são intercalados verticalmente com centenas de flores de papel, aludindo à lenda da rainha Santa Isabel, onde se dá o milagre das rosas, que narra a transformação dos pães levados no regaço pela rainha para doação aos pobres. O Tabuleiro é transportado à cabeça por uma mulher, acompanhada por um homem que a apoia quando necessário (nesse caso transportando o Tabuleiro ao ombro e não à cabeça).
Os trajes
A Festa dos Tabuleiros, pelo que representa e pela sua ligação à religiosidade, não dispensa que todos quantos nela se incorporam o façam com compostura e dignidade. Advém dessa participação um conjunto de regras que definem o traje dos intervenientes nos diversos cortejos.
Núcleo Urbano da cidade de Tomar
A Festa dos Tabuleiros de Tomar tem uma relação directa com a zona urbana da cidade, nomeadamente com o centro histórico. É aí que se processa a prática festiva.
Igreja de Santa Maria do Olival
No final do século XIX, a Igreja de Santa Maria do Olival era o local onde se realizava grande parte da componente litúrgica da festa em honra do Espírito Santo, bem como a bênção dos Tabuleiros. Actualmente, são ali realizadas as eucaristias dominicais decorrentes dos cortejos de coroas, concretamente na segunda, quarta e quinta saídas. Do século XVI, é do estilo manuelino, considerada monumento nacional desde 1910.
Igreja de São João Baptista
A Igreja de São João Baptista, localizada na Praça da República, constitui-se num espaço litúrgico de grande relevância para a festa. Nela se celebram as missas em dias de cortejo das coroas, nomeadamente na primeira saída, na terceira, na sexta (domingo de Pentecostes) e na última (domingo de Trindade), bem como na missa do domingo de cortejo dos Tabuleiros. Igreja gótica, manuelina e barroca, de planta rectangular, data do mesmo ano de 1910 a sua declaração como monumento nacional.