Homenagear Catarina Eufémia «com os olhos postos no futuro»
No preciso dia do 70.º aniversário do assassinato de Catarina Eufémia, o Partido Comunista Português – o Partido de Catarina – homenageou a camponesa alentejana na sua terra natal, Baleizão, no concelho de Beja. Uma «homenagem com os olhos postos no futuro, nesse futuro que se constrói todos os dias com a luta pela vida melhor a que temos direito», como afirmou o Secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo.
A verdade está no lado de todos os que se dedicam à luta na defesa dos interesses dos trabalhadores
Passaram agora 70 anos sobre o assassinato de Catarina Eufémia pela repressão fascista, a 19 de Maio de 1954, quando «tomava a frente da luta do heróico povo trabalhador de Baleizão, em greve por melhores salários e contra a exploração».
À semelhança do que tem acontecido todos os anos desde a Revolução de Abril de 1974, foi-lhe prestada agora uma homenagem popular por ocasião do 70.º aniversário da sua morte. Homenagem em Baleizão, «terra de resistência e de trabalho», para «lembrar a vida, a luta e a coragem desta mulher e militante comunista que é um exemplo para todos quantos lutam por um mundo melhor», como disse o Secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo.
No passado domingo, 19, após a deposição de flores na campa de Catarina, centenas de pessoas desfilaram pelas ruas da aldeia, empunhando bandeiras do PCP e da CDU, tarjas e cartazes, e entoando palavras de ordem como «25 de Abril sempre, fascismo nunca mais!» ou «Paz sim, guerra não!».
No largo com o nome da camponesa baleizoeira, repleto de gente, o comício foi antecedido por um momento cultural, em que actuaram um trio musical (formado por Paulo Ribeiro, Manuel Nobre e Rafael Nobre) e o Grupo Coral masculino de Baleizão.
As intervenções estiveram a cargo de Maria João Brissos, da Comissão Concelhia de Beja do PCP, de João Oliveira, primeiro candidato da CDU às eleições de 9 de Junho para o Parlamento Europeu, e de Paulo Raimundo, que estiveram acompanhados por outros responsáveis nacionais e regionais do PCP e da Juventude Comunista Portuguesa.
Luta pela liberdade, os direitos e a verdade
O dirigente comunista realçou a importância de relembrar Catarina e todas as mulheres e todos os homens sujeitos sob a ditadura fascista à dureza de vida – falta de trabalho, trabalho de sol a sol, salários de miséria – que, «enquanto uma minoria concentrava a riqueza produzida, nunca se conformaram com as injustiças e se lançaram na luta pelos direitos e pela liberdade».
Destacou que importa, hoje e sempre, homenagear Catarina e todos os antifascistas, muitos dos quais deram a própria vida e outros que foram presos, torturados ou perseguidos por lutarem pela libertação do nosso povo do odioso regime fascista, desse regime terrorista dos monopólios e dos latifundiários.
Importa, vincou, «evocarmos Catarina e todos aqueles que lutaram pela liberdade, pela dignidade de quem trabalha, e todos aqueles que não desistem da luta pela transformação social, pelo aprofundamento da democracia, por um Portugal de progresso e de justiça, por uma sociedade liberta da exploração». E importa, insistiu, destacar o exemplo de Catarina Eufémia, e o de todas as mulheres na luta pela sua emancipação, «que ousaram dizer não às desigualdades e à total ausência de direitos a que o fascismo as procurou sujeitar» e que nessa luta de emancipação contaram com o Partido Comunista Português.
Paulo Raimundo chamou a atenção para a importância de «conhecermos a História e não nos deixarmos levar pela corrente do anticomunismo, da reescrita da História, da mentira em relação ao fascismo, à Revolução e à contra-revolução».
Por muito forte que seja esta ofensiva ideológica, ela não é mais poderosa que a verdade, considerou: «A verdade está no lado de todos os que se dedicam à luta na defesa dos interesses dos trabalhadores, à luta de todas as gerações de operários e operárias agrícolas alentejanos que tanto batalharam pela justiça social, pela democratização do acesso à terra, pela Reforma Agrária, pelo bem-estar do povo. A verdade está na luta gravada na memória do nosso povo e que faz deste Alentejo terra de resistência e luta. A verdade está nessa luta que oito anos após o assassinato de Catarina irrompeu em toda a zona do latifúndio, incluindo aqui em Baleizão, essa onda de mobilização e coragem que conduziria à mais significativa vitória de sempre dos assalariados rurais durante a ditadura fascista: a conquista do horário das oito horas. Uma conquista dos trabalhadores agrícolas, uma pesada derrota do fascismo. Uma conquista do PCP, determinante que foi na unidade do proletariado agrícola e na organização dessa luta heróica».
O Secretário-geral do PCP assegurou que «não esquecemos e não deixaremos que outros apaguem, deturpem ou falsifiquem» estes ensinamentos do passado para o presente e para o futuro.
Concretizar o 25 de Abril
Antes, João Oliveira evocou a memória de Catarina Eufémia – a quem homenageou – para denunciar a repressão e violência fascistas, a política de empobrecimento, exploração e miséria a que o fascismo condenava o povo português para servir os interesses dos grandes grupos económicos, do capital estrangeiro e dos latifundiários.
A saudação à memória e ao exemplo de Catarina estendeu-a João Oliveira a todos os que lutaram contra o fascismo e para que Abril fosse possível.
Em condições diferentes, que são as do Portugal de hoje, «continuamos a luta pela igualdade, o progresso e a justiça social», sublinhou o primeiro candidato da CDU às eleições para o Parlamento Europeu, acrescentando que tal só será possível com uma política que sirva o povo, que dê resposta às suas necessidades e aspirações, que possibilite a todos por igual a realização dos seus sonhos. Foi esta política pela qual o povo lutou durante o fascismo e que procurou concretizar com o 25 de Abril.
Maria João Brissos manifestou o orgulho que os balazoeiros sentem em ver o largo central da aldeia – onde um busto de Catarina evoca a heroína local – cheio de gente combativa. Catarina Eufémia, lembrou, é «exemplo e símbolo da trabalhadora de vanguarda e da mulher comunista», «orgulho do glorioso proletariado rural alentejano» e, naturalmente, do seu Partido, o PCP.
Mulher, mãe, operária agrícola, comunista
Não foi o acaso que colocou Catarina Eufémia à frente da pistola assassina do tenente Carrajola naquele fatídico dia 19 de Maio de 1954: membro do PCP, a que aderiu aos 25 anos, Catarina pertencia ao Comité Local de Baleizão e era muito respeitada pelas suas companheiras de trabalho, que a escutavam com particular atenção.
Mariana Cascalheira, amiga, vizinha e companheira de trabalho de Catarina, recorda-a como uma mulher «muito esclarecida», que falava do Álvaro Cunhal e «aparecia com papéis do Partido Comunista». Catarina Eufémia, acrescenta, «falava de tudo. Eu não sei aonde é que ela ia buscar coisas que nós nunca tínhamos ouvido falar, como a emancipação da mulher, por exemplo» (Miguel Patrício, 50 anos depois da Morte – Catarina Eufémia).
Na mesma obra, Antónia da Graça Leandro, que estava junto a Catarina quando esta foi atingida, recorda os acontecimentos e enquadra-os: «A gente, naquela época, ganhávamos 20 escudos por dia na “aceifa”. Depois, começaram a aparecer uns papelinhos, do Partido Comunista, a dizer para fazermos greve, para pedirmos mais salários, porque ganhávamos muito poucochinho. E assim fizemos (…).»
O dirigente do PCP António Gervásio, que durante grande parte da década de 50 foi funcionário clandestino no Alentejo, lembra que durante a greve a GNR «tinha a aldeia cercada». Baleizão, acrescenta, era uma das fortalezas da resistência antifascista» onde o PCP contava com «uma forte influência e onde as mulheres tinham uma activa militância». Catarina Eufémia era uma dessas mulheres, militante comunista desde 1953, membro do Comité Local de Baleizão e «um dos seus membros mais activos».
Crime e denúncia
O crime de Baleizão teve, apesar da censura, uma relativa repercussão na imprensa. Notícias pequenas, é certo, com termos cuidadosamente seleccionados, mas apareceu no Século, Diário de Lisboa, Diário de Notícias, Primeiro de Janeiro e Comércio do Porto. No geral, referem-se a «desordens» e a disparos «involuntários» – nem podia ser de outra maneira – e noticiam que a vítima era mãe de três filhos pequenos e estaria à espera de um quarto.
O Avante! de Abril/Maio de 1954 denuncia o crime na primeira página e, no interior, conta como a população de Baleizão se concentrou junto ao Hospital de Beja, no dia 20 de Maio, para levar para a sua terra o corpo da companheira assassinada. A polícia tentou afastar as pessoas e disparou para a multidão, que respondeu arremessando pedras. Durante os confrontos, prossegue o Avante!, «os fascistas conseguiram fugir com o corpo da morta para fora do Hospital». Também O Camponês, refere a fuga dos fascistas com o corpo, «não deixando que os camponeses lhe fizessem o funeral».