BCE: mãos largas ao capital, aperto do cinto ao povo

João Pimenta Lopes

Quando, em Julho de 2022, o Banco Central Europeu (BCE) anunciou o primeiro de dez aumentos consecutivos das taxas de juro de referência, como resposta, diziam, ao aumento da inflação – que já vinha em crescendo, tal como os preços da energia, desde meados de 2021 –, afirmámos que a inflação «deve ser combatida através de medidas de valorização dos salários e dos direitos laborais, do controlo dos preços e intervenção pública nos mercados de bens e serviços essenciais» (21/07/2022).

Ao longo de meses, fomos ouvindo Lagarde, presidente do BCE, apontar o dedo aos aumentos salariais e ao consumo, à elevada procura, como factores determinantes na subida da inflação. Assim justificando os aumentos das taxas de juro. Enquanto os trabalhadores lutam por melhores salários e condições de vida, o BCE constitui-se como instrumento de degradação de ambos.

A decisão de aumento das taxas de juro, sabia-se antecipadamente, pesaria de forma diferenciada sobre os Estados-Membros da UE, incidindo particularmente sobre as famílias endividadas à banca com créditos à habitação, sobre as micro, pequenas e médias empresas e também sobre os Estados, nas suas condições de financiamento. Sabia-se de antemão que Portugal seria dos países mais afectados, atendendo a que cerca de 90% dos empréstimos são a taxa de juro variável.

No início deste ano, o BCE divulgou um estudo (http://tinyurl.com/39ubkzpf) que, contrariando a retórica de Lagarde, aponta choques na cadeia de abastecimento (no lado da oferta, portanto) e na energia como os principais factores a contribuir para o aumento da inflação, na sequência da pandemia e do intensificar da guerra na Ucrânia.

O tempo teima em dar-nos razão. Assim afirmávamos em Julho de 2022: «o brutal aumento dos preços é inseparável da política de sanções, que tem sido determinada em função dos interesses dos EUA – principal beneficiário da actual escalada de confrontação, ao contrário da UE –, bem como do processo de recuperação da actividade económica pós-pandemia, cujo enquadramento foi marcado pelo aproveitamento que o grande capital fez e está a fazer desse processo.»

Na semana passada, à margem da análise que o próprio BCE produz, escutámos Lagarde insistir na contenção dos salários, na produtividade, e referir-se ainda à guerra no Médio Oriente e à disrupção no comércio, para justificar, pela terceira vez consecutiva, manter a elevada taxa de juro.

A opção de fundo, por parte da UE e das suas instituições, é clara: mãos largas para o grande capital, aperto do cinto para os trabalhadores e os povos. O caminho alternativo e necessário, para contrariar estas opções políticas, constrói-se também nas eleições que se aproximam. Mais força à CDU, será mais força com que os trabalhadores e o povo português contarão para lhes dar combate!

 



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