Calvário, de Rodrigo Francisco
Calvário é um grande momento de teatro, divertido e inteligente
Rodrigo Francisco, director artístico da Companhia de Teatro de Almada (CTA) é, para além de encenador de méritos firmados, um originalíssimo e inquieto dramaturgo, revelado em 2007 com a peça Quarto Minguante, que tem vindo a construir – através de textos que reabilitam o nosso modo de entender o teatro, de o tornar próximo das questões centrais e fracturantes do nosso tempo, como acontece em Tuning (2010) –, uma linguagem dramática que percorre o universo dos excluídos, a solidão, as feridas da guerra colonial, nesse fortíssimo texto que é Um Gajo Nunca Mais é a Mesma Coisa, em que memória e remorso se conjugam num conflito intenso, em que os fantasmas do medo, o racismo, o perigo da extrema-direita, se expressam em violência. Denúncia das marcas de um passado que foi tudo menos honroso – e ainda dói.
Calvário, a peça mais recente de Rodrigo Francisco, em cena no teatro Joaquim Benite, com encenação do autor, tem o teatro, o seu interior, os seus processos criativos, as suas metamorfoses, as incongruências e os egos, como ponto fulcral desta hábil e humorada incursão pelos poliédricos, complexos e provocatórios territórios do teatro de Thomas Bernhard, a partir da sua peça Minetti, e dos modos como um grupo de actores a abordam (na progressão do caótico processo criativo, imerge também o confronto metódico de gerações), em que se destaca o actor principal, um canastrão que não passa de uma terceira escolha do empresário, esgotadas que foram outras possibilidades e de um encenador perdido nos seus labirintos estéticos, nos seus confusos conceitos, alheios ao texto que pretende encenar, inculcado de chavões pseudointelectuais. Personagem bizarro, incapaz de gerir tal elenco, sequer construir uma ligação racional entre o texto de Bernhard e as referências que este faz ao Rei Lear, de Shakespeare, que João Cabral desempenha com eficaz capacidade.
Dir-se-ia que a loucura de Lear se instalou naquele palco, que cada um, principalmente os velhos actores, carregados de histórias e glórias passadas (Beirão e Miranda), não se encaixam nos padrões que, a medo, o encenador, coadjuvado por um irrequieto e angustiado assistente de encenação, tentam impor. Beirão, um velho actor, a quem prometeram que faria, a seguir a Minetti, o Lear, está a perder a memória. Traz consigo um assistente que lhe ponta o texto, que lhe massaja os pés, lhe serve o chá, lhe lê as falas que ele, o grande «mestre», apenas pronuncia atabalhoadamente. A cena em que o assistente de Beirão lê em inglês algumas passagens de O Rei Lear, em delírio dramático que lembra algumas cenas de O Pai Tirano, de Lopes Ribeiro, é de uma comicidade de ir às lágrimas.
A personagem Beirão, metodicamente interpretada por Luís Vicente (o modo como ele tira o relógio do bolso do colete, é soberbo), encaixa no protótipo do actor que Louis Jouvet descreve, de forma algo cínica, no seu texto Vocação: «A profissão de actor começa pela arte de amar e de admirar. O pior é que neste exercício os sentimentos são profundamente egoístas e destituídos de gosto e de julgamento.»
O grotesco torna este texto na prática conceptual de um teatro satírico de qualidade – é o teatro que criticamente se retrata –, com um humor raro e eficaz, no qual o autor não se coíbe de ridicularizar as piadas rasteiras que Beirão vai contando, das quais só ele e o seu devoto assistente riem. O humor em Calvário é de outra linhagem, e a ironia que a envolve de outro figurino, o que está patente na intérprete de fala gestual (Maria Velez Araújo) que desestabiliza o «grande Mestre» e arranja mais um problema ao desorientado encenador, que não sabe o que fazer dela, acabando a gesticular projectada na parede ao fundo do cenário. É a pura loucura, minha senhora, dirá Beirão na cena final da peça.
Teresa Mónica constrói com Miranda, uma personagem patética, que vai deambulando pela cena sem entender o seu lugar na acção. A cena em que esta pede ao encenador que lhe troque o champanhe por um «iogurte líquido de frutos vermelhos» é de antologia. Pedro Walter (Cunha), João Farraia (um desesperado Lucas), Carlos Pereira (caricato assistente de Beirão) completam um naipe de actores de primeiro plano.
Calvário é um grande momento de teatro, divertido e inteligente. A não perder.