País de contrastes e injustiças desmente propaganda do Governo
São leituras totalmente díspares sobre a situação do País: ao quadro idílico traçado pelo Governo e sua maioria parlamentar opôs o PCP a realidade concreta que marca o quotidiano da população, fazendo cair a narrativa do PS. Esse foi um traço forte a perpassar o debate do Estado da Nação.
Aumenta tudo só os salários e pensões é que não
Foram sobretudo essas visões distintas que estiveram em confronto, faz hoje uma semana, no debate de balanço ao estado do País, que encerrou os trabalhos em plenário da sessão legislativa. Comum aos discursos quer dos membros do Governo do PS quer dos deputados da bancada que o suporta foi a tentativa de fazer passar a ideia de um país a superar barreiras e no bom caminho.
Essa foi a tecla mais batida, sob a batuta do chefe do Governo, que, logo a abrir, disse ao que vinha: a «economia está a mudar», «é mais qualificada, mais competitiva e aberta», «os resultados alcançados provam que estamos no caminho certo, da transformação estrutural».
Levando mais longe o auto-elogio e a propaganda, o primeiro-ministro não teve pejo em dizer que «os bons resultados são consequência das boas políticas» e que «os portugueses estão melhor e o País a melhorar», asserção que o líder parlamentar do PS repetiu numa versão ainda mais assertiva: «Portugal está melhor porque os portugueses estão melhor».
Da ficção à realidade
Foi este cenário nada conforme com a realidade que os deputados comunistas trataram de desmontar, pondo a nu o que o Governo procurou camuflar ou negar. «Mais desigualdades, injustiças e exploração, ataque aos direitos laborais e sindicais, degradação dos serviços públicos, baixo nível de investimento, fragilização do aparelho produtivo, novas privatizações», recenseou a presidente do Grupo Parlamentar do PCP, traçando o quadro da «realidade que o Governo por mais que tente não consegue esconder».
«O Governo fala de crescimento e resultados económicos animadores, mas isso não chega à vida das pessoas. Aquilo que se sente não é crescimento, é aperto», sublinhou, por seu lado, a deputada comunista Alma Rivera, anotando que sobe tudo, do supermercado aos custos com a habitação, «só os salários e as pensões não acompanham», enquanto os lucros dos grupos económicos (sobretudo da banca, grande distribuição e energéticas), esses, «crescem às centenas de milhões à custa das famílias».
O que não bate certo
Foram estes «intoleráveis contrastes», assim os qualificou Paula Santos, que a bancada comunista tratou de chamar para primeiro plano, mostrando o enorme fosso que separa a continuada erosão das condições de vida dos trabalhadores e do povo daqueles para quem «isto nunca esteve tão bom, com a acumulação de lucros colossais».
Contrastes que têm igualmente expressão – foi ainda a líder parlamentar comunista a identificá-los – na diferenciação entre as «estatísticas risonhas e as dificuldades da vida de todos os dias», entre a «propaganda das contas certas e o agravamento dos problemas do País».
«O Governo diz que a economia melhora, mas o que vemos são as unidades de saúde e as escolas com falta de profissionais, ou a justiça que não anda», apontou Alma Rivera, convicta de que «algo não bate certo».
Pormenorizando, no que toca à saúde, o deputado João Dias deu o exemplo das necessidades de investimento crescentemente sentidas pelas instituições, da desvalorização salarial e de carreiras que afecta os profissionais de saúde, das dificuldades de acesso dos portugueses a cuidados médicos.
A reter do debate ficou, entretanto, a afirmação por parte da bancada do PCP de que o País não está condenado a esta política que une PS, PSD, Chega e IL – sim, porque as críticas à governação dos partidos à direita do PS não tocaram nas questões substantivas, nas quais convergem - e de que há uma política alternativa, capaz de promover o desenvolvimento e combater as desigualdades e a pobreza, valorizar os salários e pensões, pôr o País a produzir, «acabar com a submissão do poder político ao económico, que é a raiz da corrupção».
Foi essa mensagem de esperança e confiança que prevaleceu, com a certeza de que «há soluções, que são exequíveis e possíveis», como sublinhou Paula Santos e a bancada comunista deixou de forma marcante neste debate do estado da nação.
Privatizações são raízes da corrupção
Suscitada pelo PCP, no centro do debate esteve ainda a questão das privatizações, com Paula Santos a não ter dúvidas de que estas são uma fonte de corrupção e resultam em «alienação de património, esbulho dos recursos naturais», podendo mesmo «levar à destruição de empresas estratégicas para a economia».
«Enquanto podem, os accionistas tirarão o máximo de vantagens dessas empresas», alertou a parlamentar comunista, criticando duramente o Governo por querer novas privatizações, como a TAP e a Efacec, ignorando o quanto são prejudiciais ao País, como comprovam os casos da PT/Altice ou dos CTT.
Habitação é emergência social
Encarado com grande preocupação pelo PCP é o problema da habitação, tendo merecido por isso uma particular atenção. São milhares de famílias em risco de perderem as suas casas devido ao aumento insuportável dos custos, seja das rendas ao senhorio seja da prestação ao banco, voltou a alertar o deputado Bruno Dias, para quem o regime de apoio aprovado pelo Governo «está muito aquém do que seria indispensável – e ainda assim deixa intocados os lucros dos bancos».
«O Governo e a maioria que o suporta prometeram “Mais Habitação”, mas o que na verdade resulta das medidas que fizeram aprovar foi mais especulação, subsidiada com dinheiros públicos, nos benefícios fiscais, nos regimes de privilégio, na comparticipação de rendas incomportáveis que incomportáveis continuam», censurou o parlamentar do PCP.
Um mundo de disparidades
A árdua realidade dos trabalhadores e do povo
- Baixos salários; doenças profissionais; horários desregulados; falta de tempo para lazer ou para estar com a família; contratos a recibos verdes, ao dia e até, à hora, mesmo sendo trabalho permanente; horas extra mal pagas; desrespeito pelo direito à maternidade e paternidade.
- 2 milhões é o número de pessoas na pobreza
- 345 mil crianças vivem em risco de pobreza
- 400 mil idosos vivem com rendimentos até 551 euros
- 3 milhões de trabalhadores recebem menos de mil euros brutos mensais
- 75% dos reformados recebe uma pensão inferior ao salário mínimo nacional
- Mais de 70 mil famílias vivem sem habitação digna
- Mais de um milhão de famílias vivem a incerteza de não poder pagar a prestação ao banco devido ao aumento das taxas de juro
- Milhares de estudantes não encontram lugar nas residências públicas
- Um milhão e 600 mil utentes não têm médico de família
- Dos 914 milhões de euros inscritos para investimento no Orçamento do Estado 2023, só 11% estava executado em Maio, a comprovar que o Governo poupa dinheiro à custa da saúde
- Encerramento de serviços, atrasos nas consultas, exames, tratamentos ou cirurgias
- Medicamentos mais caros para os utentes
Privilégios e mordomias do capital
- 42% de toda a riqueza está nas mãos dos 5% mais ricos
- Banca, energéticas, seguros, grande distribuição, telecomunicações, com lucros às centenas de milhões de euros: Grupo CUF, 30 milhões; Galp, mais de 1100 milhões; Novo Banco, 560 milhões; EDP, 1170 milhões; Pingo Doce, 500 milhões.
- Regime de privilégio fiscal de residentes não habituais é responsável por 1000 milhões de euros por ano em impostos não cobrados
- A banca assegura por dia 10,7 milhões de euros de lucros
- 6 mil milhões é o valor da transferência directa do Orçamento do Estado para os privados que operam na saúde e fazem da doença negócio