Um clamor soou forte pelo País: «paz sim! guerra não!»
Parar a guerra! Dar uma oportunidade à paz foi o lema que, na semana passada, levou milhares de pessoas às ruas de cinco cidades do País: Lisboa, Porto, Coimbra, Faro e Funchal. «Aquilo que estamos a dizer, juntando a nossa voz a milhões de seres humanos que estão a lutar pela paz em todo o mundo, é que é possível encontrar caminhos para a paz, e que isso não é um desejo, é uma opção», afirmaram nas várias iniciativas os representantes do CPPC, de quem partiu o apelo à sua realização.
A paz e a cooperação têm de se sobrepor à ingerência, ao militarismo e à guerra
O grande desfile que na quente tarde de sábado percorreu as ruas da baixa lisboeta, entre o Largo Camões e a Praça do Município, encerrou a série de cinco acções públicas convocadas para - como se lê no Apelo - ampliar «as vozes que se unem em torno da defesa de políticas de paz, soberania, solidariedade, cooperação e amizade entre todos os povos». Vozes essas, acrescenta-se, que «são cada vez mais e soam mais alto».
Ali ouviram-se bem, sem dúvida, as palavras de ordem (replicadas igualmente em cartazes e faixas) que exigiam a paz - na Ucrânia como na Síria, no Sudão, no Iémen ou na Palestina. E as que expressavam a convicção de que para alcançar essa paz, justa e duradoura, é preciso trilhar o caminho inscrito na Carta das Nações Unidas e na Acta Final da Conferência de Helsínquia (e também na Constituição da República Portuguesa), assente na igualdade entre Estados e no respeito pela sua soberania, no desarmamento e no desanuviamento, na solução pacífica dos diferendos internacionais.
«Armamento não! Paz e cooperação!», «Conflitos a escalar, é sempre o povo a pagar», «A saúde a definhar e a NATO a engordar» e «o povo quer a paz, não o que a guerra traz» foram algumas das frases ouvidas - e lidas - durante o percurso e que levaram muitos dos que por ali passavam a juntar a sua ao coro de vozes que tão sonante se fazia ouvir.
A escalada e as sanções não servem os povos
A numerosa coluna de manifestantes desembocou na Praça do Município, onde num palco instalado mesmo em frente ao belo edifício dos Paços do Concelho da capital, Sebastião Antunes emprestava as suas palavras, a sua música e a sua voz à luta em defesa da paz e de um mundo de Estados soberanos e iguais, de solidariedade e cooperação: «o mar não é de ninguém/ ninguém é dono do mar/ nem aqueles/ que lá sabem/ navegar», uma das suas mais belas e conhecidas composições, encerrou o período musical, que antecedeu as intervenções dos representantes de algumas das organizações e movimentos que subscreveram o apelo Parar a guerra! Dar uma oportunidade à paz!.
Pelo CPPC, Ilda Figueiredo reafirmou a posição desde sempre assumida: «uma solução política negociada, no respeito pela democracia, pelas liberdades, pelo direito dos povos a decidirem do seu futuro, de forma a garantir a paz na Ucrânia e na Europa.» O que os povos precisam neste momento, acrescentou, «não é uma escalada que pode ter consequências ainda mais terríveis para os povos ucraniano e russo e para todos os povos do mundo», antes de uma aposta séria em iniciativas que «visam desanuviar a tensão e abrir caminhos para o diálogo e a paz».
Antes, o actor e encenador Fernando Jorge Lopes já tinha dado a palavra à Secretária-geral da CGTP-IN, Isabel Camarinha, para quem a paz é «condição essencial para o desenvolvimento e o progresso económico, social e cultural da Humanidade e para uma mais justa distribuição da riqueza». A guerra e as sanções, sendo contra os interesses dos trabalhadores e dos povos, «servem os interesses do imperialismo» e «propiciam a especulação».
O primeiro orador da tarde foi José Pinho, da associação juvenil Projecto Ruído, que lembrou aquilo que os povos e a juventude precisam: «não é de mais armas, de mais destruição e miséria», mas de saúde, educação e habitação digna e acessível.
Em todo o País
A urgência de travar a escalada belicista que se verifica na Europa, mas também noutras partes do mundo, nomeadamente na região Ásia-Pacífico, desrespeitando o direito que os povos têm à paz, ao desenvolvimento e à soberania foi igualmente reafirmada nas outras quatro acções, todas elas com forte impacto público.
No sábado de manhã, uma concentração junto ao Mercado dos Lavradores, no Funchal, deu expressão a este clamor pela paz e o desarmamento, divulgando o teor do apelo de mobilização para as iniciativas. Na véspera, essas mesmas reivindicações soaram pelas ruas de Coimbra e Faro, no primeiro caso com um desfile pela zona histórica e no segundo com uma sessão cultural num jardim central da cidade. Em todas elas afirmou que a os povos têm direito à paz, ao desenvolvimento e à sua soberania.
A primeira das cinco iniciativas realizou-se ao final da tarde de quinta-feira, 15, na Praceta da Palestina, no coração do Porto: centenas de pessoas proclamaram ali, bem alto, a urgência de se abrir espaço à diplomacia e à solução política dos conflitos, rejeitando a ameaça do uso da força nas relações internacionais. Para que a paz e a cooperação se sobreponham às políticas de ingerência, militarismo e guerra, acrescentaram.
Defesa da paz é imperativo constitucional
«Portugal deve ter um papel activo na construção da paz e por isso, instamos o Governo português a assumir uma posição soberana em defesa da paz, e não posições seguidistas da política belicista que nos trouxe até aqui.
No ano em que se iniciam as celebrações dos 50 anos do 25 de Abril de 1974, reiteramos a importância da Constituição da República Portuguesa, instrumento que deve determinar o posicionamento internacional de Portugal. E é essa Constituição que no seu artigo 7.º defende a solução pacífica dos conflitos internacionais – e não a escalada de guerra.
É a Constituição que consagra a não ingerência nos assuntos internos dos outros Estados – e não a promoção de golpes de Estado e o apoio a forças xenófobas e fascizantes.
É ela que reclama a dissolução dos blocos político-militares – e não o seu alargamento e reforço, como acontece com o crescente belicismo da NATO e dos seus aliados.
É a Constituição da República Portuguesa, expressão da aspiração e conquista da paz pelo povo português na Revolução de Abril, que aponta ao desarmamento geral, simultâneo e controlado – e não à corrida aos armamentos.
É a Constituição que aponta para a cooperação entre os povos visando a emancipação e o progresso da humanidade – e não o acentuar de diferenças e divisões com base na nacionalidade, na língua, na etnia ou na religião.»
- excerto da intervenção do CPPC
Paulo Raimundo: «perante um apelo destes, tínhamos de estar presentes»
O PCP solidarizou-se com as acções pela paz realizadas no final da semana passada. Em Lisboa, a delegação do Partido foi encabeçada pelo Secretário-geral, Paulo Raimundo, para quem «perante um apelo destes, de Parar a guerra, dar uma oportunidade à Paz, tínhamos de estar aqui presentes».
Referindo-se a uma situação em que «a guerra alastra no mundo inteiro», o dirigente comunista realçou que o que se coloca neste momento é «criar todas as condições para pôr fim à guerra e dar uma oportunidade à paz, como refere o apelo desta iniciativa». Para Paulo Raimundo, a «guerra não serve os povos, não serve os trabalhadores, serve acima de tudo aqueles que estão a ganhar milhões e milhões com a guerra», como as multinacionais do armamento, da energia, da alimentação. Ao mesmo tempo, os povos estão «cada vez mais apertados».
O Secretário-geral do PCP apelou a que todos os esforços sejam canalizados para obrigar os intervenientes da guerra a encontrarem uma solução pacífica para o conflito, desde logo os EUA e a NATO. «Quantos mais milhares de mortos serão necessários e quanto mais destruição será necessária para se perceber que o caminho é exactamente esse?», questionou.