- Nº 2584 (2023/06/7)

Greve da Mala é um exemplo de coragem para os que lutam

Trabalhadores

A Fectrans e o STRUP assinalaram, no dia 1, o 55.º aniversário da jornada de luta na Carris que ficou conhecida como a «Greve da Mala». A evocação realizou-se na antiga estação de Santo Amaro, em Lisboa.

«Ao fim de três dias de greve na cobrança dos bilhetes, de marcha lenta dos eléctricos e autocarros, numa extraordinária luta que conquistou a admiração e simpatia do povo de Lisboa, 7.000 trabalhadores da Carris conquistaram 20$00 diários de aumento e o compromisso da revisão da convenção colectiva», dá conta, na primeira página, o Avante! n.º 393, de Julho de 1968.

A jornada de luta dos trabalhadores da Carris culminou nessa grande mobilização que abalou a cidade de Lisboa durante os dias 1, 2 e 3 de Julho de 1968. Foi o 55.º aniversário desse momento que o Sindicato dos Trabalhadores de Transportes Rodoviários e Urbanos de Portugal (STRUP) e a Federação dos Sindicatos dos Transportes e Comunicações (Fectrans) decidiram assinalar. A iniciativa contou com a presença de vários activistas e dirigentes sindicais, antigos trabalhadores que participaram na própria greve e Isabel Camarinha, Secretária-geral da CGTP-IN. A convite dos organizadores, uma delegação do PCP também esteve presente.

Os três dias da greve culminaram um processo de luta que durava já há mais de um ano. Salários baixíssimos e más condições de trabalho, entre outras questões, alimentaram muitos momentos de luta ao longo de 1968. No início de Junho, aumentava a firmeza dos trabalhadores da Carris perante o aparelho repressivo do estado fascista. Concentrações amplamente participadas, algumas com até 2000 trabalhadores, marcaram os dias 3, 4, 5, 6 e 7 do mês de Junho. Seguiu-se outra, no dia 19, brutalmente reprimida.

A partir de dia 25, os trabalhadores começam a recusar a realização de horas extra. Os veículos eram abandonados no momento em que terminava a labuta diária de oito horas. Generalizou-se, entre os trabalhadores, a ideia de que se até ao final do mês não houvesse aumento salarial, passar-se-ia à greve. Assim foi, no dia 1 começou a greve à cobrança de bilhetes. Os alicates e as malas utilizadas pelos cobradores eram deixadas nas estações, cobertas por bandeiras nacionais e guardadas por outros trabalhadores. A greve termina com a mobilização de um grande dispositivo policial que põe fim à ocupação das estações.

«Atemorizado com o desenvolvimento da luta e das suas eventuais consequências, o governo, em medida de emergência, é obrigado a ceder a concessão de 20$00 diários. Vendo que nem as ameaças, nem a brutalidade repressiva chegam para vergar os trabalhadores e receando que a luta tome formas ainda mais decisivas e se alargue a outras empresas e classes profissionais, o governo é obrigado a ceder», afirma a mesma edição do Avante!.

 

Manter viva a memória da luta

«É uma maravilha ter sido feito o 25 de Abril porque, quer queiramos ou não, as lutas são sempre algo muito difícil. Os trabalhadores nunca as fazem com prazer, mas sim porque sentem necessidade de as fazer. Todos os trabalhadores que aderiram à Greve da Mala temiam. Nós temíamos porque o sistema político nem permitia falar sobre greves, muito menos fazê-las. Posso dizer-vos que nesses dias, e após a greve, foram buscar muitos camaradas a casa para os levarem para a prisão.»

José Cordeiro, ex-trabalhador da Carris, interveniente na Greve da Mala

«Apresentámos um caderno reivindicativo que tinha um sentido geral em torno destas reivindicações: o aumento do salário; regalias sociais, entre elas um mês de férias; subsídio nocturno e horários de trabalho, porque tínhamos apenas um intervalo de sete horas.»

António Santos, ex-trabalhador da Carris, interveniente na Greve da Mala

«As manchetes dos grandes jornais no dia a seguir diziam que depois de três dias de luta, os trabalhadores da Carris venderam-se por uma folha de alface [nome popularmente dado a uma nota de 20 escudos]. Este é um exemplo do que enfrentámos nessa luta. É preciso dizer que todos os direitos que os trabalhadores da Carris têm foram adquiridos através da sua luta.»

Virgílio Revez, ex-trabalhador da Carris, interveniente na Greve da Mala

«A Greve da Mala, numa época em que o direito à greve não existia, foi um êxito. O patronato inglês ficou privado das receitas diárias, mantendo-se os veículos em circulação. A população, com parcos recursos económicos, encheu os autocarros e os eléctricos. Salazar, à cabeça do regime fascista, não conseguiu fazer de conta que nada tinha acontecido»

Luísa Bota, trabalhadora da Carris e ex-dirigente sindical

«O STRUP é herdeiro directo, na sua forma de organização e luta, de todos aqueles que antes e após o 25 de Abril de 1974, tudo têm feito para conquistar e manter direitos e lutar por aumentos de salários. Assim continuaremos, com a memória do vosso acto de coragem de 1968, a intervir na continuação do nosso grande objectivo, a luta pela melhoria de condições de vida e trabalho.»

Anabela Carvalheira, Coordenadora Nacional do STRUP

«A melhor homenagem que podemos prestar aos protagonistas desta greve é continuar a luta que eles iniciaram, sempre com este objectivo central do movimento sindical e que a CGTP-IN tem, de valorizar o trabalho de todos. Assinalamos este momento no sentido de demonstrar às gerações mais novas que um conjunto de direitos sociais e laborais que hoje têm, não caíram do céu. Não foram uma esmola que nos deram, foi conquista da luta de gerações e gerações que ao longo de muitos anos foi feita.»

José Manuel Oliveira, Coordenador Nacional da Fectrans

«Estamos a começar as comemorações do 25 de Abril. É muito importante que não deixemos que se passe uma borracha sobre a história da luta dos trabalhadores. Que não se apague essa memória de lutas e de unidade de organização e acção, que são de facto o motor da transformação social. É a luta dos trabalhadores o mais importante factor para alterar a situação, para melhorar as condições de vida e trabalho e para colocar o País no caminho de uma sociedade mais justa, mais solidária, que garanta uma vida digna a todos.»

Isabel Camarinha, Secretária-geral da CGTP-IN