- Nº 2584 (2023/06/7)

O Avanteatro, os 50 anos da Revolução de Abril e a celebração da liberdade e da cultura

Festa do Avante!

Na edição de 2023, o Avanteatro junta-se à celebração dos 50 anos da Revolução de Abril, festejando a liberdade de expressão para a criação teatral. A programação, como sempre, é diversificada e de qualidade, reunindo do melhor teatro que se faz em Portugal.

O 25 de Abril libertou o povo português e, com ele, o teatro (entre tantas outras expressões da cultura e das artes). Desde então, dramaturgos, encenadores, cenógrafos, figurinistas, aderecistas, técnicos, actores e actrizes passaram a ter a certeza de que o espectáculo que preparavam não seria proibido pela censura, deixaram de ser chamados à PIDE e presos, puderam encenar autores outrora malditos e, sem meias palavras, dizer precisamente aquilo que queriam dizer… e como o queriam dizer.

No texto de apresentação do Avanteatro deste ano realça-se que «festejar os 50 anos de Abril é celebrar o fim da incerteza e do medo. É ter a felicidade de montar espectáculos, de pisar o palco com alegria, de através do teatro contar histórias e provocar o público com temas atuais, que provoquem as pessoas e as divirtam, que as levem a questionar o quotidiano, que não as deixem indiferentes, mas sim a pensar no que acabaram de presenciar».

Da programação constam as companhias Teatro da Terra, Teatro de Ferro & Teatro de Marionetes do Porto, Lua Cheia – Teatro para Todos, e produções independentes, que trazem abordagens inovadoras, como o Grupo DOIS, Produções Acidentais e Plano/ Galateia. Cumpre-se assim o propósito firme do Avanteatro, reafirmado ano após ano: «trazer e mostrar o melhor teatro que se vai fazendo, celebrando com ele a Liberdade e continuando a defendê-la!»

É que a arte, como um dia escreveu Vladimir Maiakovski, não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para forjá-lo.

 

A Festa

DOIS

Fundada em 2014, a DOIS tem como objectivos primordiais o desenvolvimento de actividades de formação nas áreas da interpretação, tradução e publicação de textos. Desde o início que aposta na criação de textos originais e na adaptação de textos já existentes, valorizando a partilha de ideias entre dramaturgo, actores e encenadores e o diálogo estreito entre artistas e a comunidade. Aposta também na descentralização da cultura, apresentando os seus espectáculos por todo o País.

No Avanteatro estreia A Festa, terceira peça do italiano Spiro Scimone (27 de Abril de 1964, Messina), depois de Café e Nunzio, adaptada ao cinema em 2001, com o título Due Amici, vencedor do Leão do Futuro no Festival de Veneza do ano seguinte.

 

Amor de Dom Perlimpim com Belisa em seu jardim

Teatro da Terra

A incompreensão é o motor da vida, da obra e da morte de Lorca. Artista da tragédia, encontrou na incompreensão mútua dos géneros masculino e feminino o ponto de partida para esta inclassificável trama poética. Ele próprio chega a escrever a propósito de Amor de Dom Perlimplim... que se trata de uma obra grotesca, uma farsa que termina em tragédia. Lorca quer o drama no público, não nas personagens, cujos traços característicos são habilmente desconstruídos, para que a nossa percepção se debata com a visão de um mundo à frente do seu tempo, que o poeta projecta.

A montagem do Teatro da Terra transporta para a contemporaneidade os temas universais e intemporais do amor e da traição. Com encenação de Maria João Luís e cenografia de José Manuel Castanheira, conta com um competente lote de actores.

 

Maiakovski – O Regresso do Futuro

Teatro de Ferro & Teatro de Marionetas do Porto

Nesta cocriação entre o Teatro de Ferro e o Teatro de Marionetas do Porto, as companhias portuenses laboraram em conjunto para construir uma máquina-do-tempo em que se imagina uma tentativa de ressuscitar o grande poeta Maiakovski algures numa linha temporal alternativa. Aos habitantes desse tempo-da-máquina vamos chamar Os do Futuro. Nesse tempo-do-teatro está em marcha um programa experimental de ressurreição humana e Maiakovski é um dos humanos do passado que Os do Futuro desejam conhecer.

Através desta ficção, talvez pouco científica e habitada por atores e marionetas, vamos (re)animar alguns objetos do complexo universo de Vladimir Maiakovski e artefactos em que descobrimos alguns traços inconfundíveis deste autor.

Igor Gandra assina a encenação e a cenografia.

 

As mãos das águias

Três contadores vêm partilhar três histórias que aconteceram quando não era ainda nenhuma vez, quando as mães ainda não tinham nascido, quando se começaram a fazer perguntas e quando o bater das asas das águias era o único ponteiro do tempo. Através das palavras dos contos A Água e a Águia, de Mia Couto, Mãezambique, de Miguel Jesus, e As Mãos dos Pretos, de Luís Bernardo Honwana, os três actores vão fazendo perguntas e traçando o espectáculo também com as respostas dos espectadores mais novos.

 

Pequenas Fábulas de La Fontaine

Lua Cheia – teatro para todos

O corvo é o vaidoso ingénuo, que se deixa enganar! A raposa é uma matreira sem escrúpulos que usa a esperteza! O galo tem as suas artimanhas… O lobo está velho e cansado. Pode um cavalo ser mais burro do que o próprio burro? Várias fábulas do tempo em que os animais falavam... e eram sábios ou tolos maus ou bons, matreiros ou astutos, mas principalmente muito parecidos com certos figurões que encontramos no mundo dos homens...

 

Final Feliz

Produções acidentais

Desde sempre os contos tradicionais são usados como instrumentos de regulação de comportamentos, de forma a produzir uma socialização dos jovens adequada à ideologia dominante num determinado contexto histórico. Essas «normas» sempre ditaram que as mulheres são submissas e a verdade é que ainda hoje existem discursos e práticas sociais que impossibilitam uma verdadeira libertação das mulheres. O final feliz que a modernidade acrescentou aos contos de fadas só é possível porque a figura feminina está morta, ou «impedida de acordar».

Criado por Sara Castanheira, César Melo, Ricardo Cardoso, Ana Rita Ferreira, Cláudia Sousa e Luzia Paramés, Final Feliz parte de textos e reflexões de Elfriede Jelinek, Emma Donoghue, Neil Gaiman, Angela Carter, Robert Coover ou James Garner.