Homenagear Catarina Eufémia, prosseguir a sua luta

«Homenagear Catarina implica também ter os olhos postos no futuro, para continuar a luta por melhores condições de vida», afirmou o Secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo, intervindo no domingo, 21, em Baleizão, no concelho de Beja.

Catarina Eufémia foi assassinada quando liderava uma luta por aumentos de salários

O Partido Comunista Português homenageou Catarina Eufémia no 69.º aniversário do seu assassinato por forças do fascismo, em Baleizão, quando encabeçava a luta por melhores salários e contra a exploração.

A homenagem começou com a deposição de um ramo de flores na campa de Catarina, prosseguiu com um desfile atravessando a aldeia e culminou com um comício no largo que leva o nome da camponesa baleizoeira e que se encontrava repleto de gente.

Intervindo nesse acto público, o Secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo, destacou que a vida, luta e coragem de Catarina são exemplo, símbolo e orgulho do proletariado agrícola do Alentejo, dos alentejanos e de todo o povo trabalhador que luta por um mundo melhor. E relembrou que Catarina Eufémia, militante comunista, quando tomava a frente da luta do heróico povo trabalhador de Baleizão, em greve por melhores salários e contra a exploração, foi assassinada pela repressão fascista, nesse trágico dia 19 de Maio de 1954.

Ao relembrar Catarina, o PCP relembra «todas as mulheres e todos os homens que, sujeitos à dureza de vida – falta de trabalho, trabalho de sol a sol, salários de miséria –, enquanto uma minoria concentrava a riqueza do que a terra produzia, nunca se conformaram com as injustiças e se lançaram na luta pelos direitos e pela liberdade», enfatizou o dirigente comunista.

Ao homenagear Catarina, o PCP homenageia «todos os antifascistas, muitos que deram a própria vida, outros que foram presos, torturados ou perseguidos por lutarem pela libertação do nosso povo do odioso regime fascista – essa ditadura terrorista dos monopólios e dos latifundiários».

Evocar Catarina é evocar «todos aqueles que lutaram pela liberdade, pela dignidade de quem trabalha, e todos aqueles que não desistem da luta pela transformação social, pelo aprofundamento da democracia, por um Portugal de progresso e de justiça, por uma sociedade liberta da exploração», disse Paulo Raimundo. E mais: «Se hoje enaltecemos o exemplo de Catarina Eufémia, enaltecemos o exemplo das mulheres e das comunistas na luta pela emancipação da mulher», pois a camponesa de Baleizão é também «um símbolo das mulheres que ousaram dizer não às desigualdades e à total ausência de direitos a que o fascismo as procurou sujeitar».

 

Olhos postos no futuro

Falando das lutas de hoje no País, o Secretário-geral do PCP referiu os aumentos de pensões e salários impostos ao governo pela luta dos trabalhadores mas que são muito insuficientes. «O que se impõe são aumentos reais para todos os salários e pôr fim à brutal injustiça que impera na sociedade», resumiu.

Criticou as medidas anunciadas para o sector da habitação, medidas que, «para lá da propaganda e das intenções», não resolvem os problemas concretos das pessoas, das famílias, dos jovens, antes protegem, isso sim, os lucros e a especulação.

Denunciou os lucros fabulosos da banca, em grande medida suportados pelas altas taxas de juro nos empréstimos para habitação. Exortou à intensificação da luta contra os aumentos dos preços, em especial dos alimentos. E considerou os enormes lucros dos grupos da grande distribuição «um insulto a todos os consumidores que viram o custo de vida e os preços galoparem».

Contra «a política de direita, a política dos casos, das trapalhadas e das confusões», Paulo Raimundo defendeu a alternativa patriótica e de esquerda que o PCP propõe, com medidas concretas para superar os problemas dos trabalhadores, do povo e do País.

E assegurou que, hoje, homenagear Catarina Eufémia implica «não deixar esquecer o que aconteceu, como aconteceu e os seus responsáveis». Mas implica também «ter os olhos postos no futuro, para continuar a luta por melhores condições de vida», pelo progresso, pelos valores de Abril, pelo socialismo, pelo comunismo.

 

 

«No meio da reescrita da História e de tanto ruído, apagamento, mentira, deturpação, de tanta manipulação e brutal ofensiva ideológica, esta homenagem ganha particular significado quando acabámos de iniciar as comemorações dos 50 anos da Revolução do 25 de Abril.»

 

 

Do fascismo dos latifúndios (e dos crimes) à mais bela conquista de Abril

Catarina Eufémia tombou há 69 anos. Assassinada pelo fascismo, sem direito a julgamento pelo crime de pedir salário, trabalho, horários dignos, pão.

Catarina fez sua a luta de sucessivas gerações e tornou-se num estímulo para a luta que se lhe seguiu e que hoje ainda continua. Por melhores salários. Pela redução dos horários de trabalho. Para pôr o Alentejo a produzir.

Catarina foi bandeira para todas as mulheres que, derrotado o fascismo, se levantaram nessa epopeia que representou a mais bela conquista da Revolução, ocupando terras, desmatando áreas até aí a monte, desenvolvendo estruturas de apoio, alargando a produção, criando emprego, dando respostas no plano social. Pondo um travão ao latifúndio, sistema de produção que ao longo de 48 anos foi – a par dos monopólios, da ditadura terrorista.

Nesse tempo luminoso, os operários agrícolas tomaram nas suas mãos os destinos das suas vidas, outras, fazendo brotar das terras alentejanas e ribatejanas não apenas o pão de que o País precisava, mas a dignidade e as condições de vida que são devidas a quem trabalha.

Fizeram-no garantindo dois objectivos, que ainda hoje são actuais: a distribuição de riqueza de forma justa e a posse nacional da terra.

 

 

«Passados oito anos [do assassinato de Catarina Eufémia] a luta irrompia forte em toda a zona do latifúndio, incluindo aqui em Baleizão, essa extraordinária onda de mobilização e coragem conduziria à mais significativa vitória de sempre dos assalariados rurais durante a ditadura fascista: a conquista do horário das oito horas.»


Contra-revolução e capitalismo agrário

A Reforma Agrária foi destruída. E o investimento público que em Alqueva se fez, de milhares de milhões de euros, serve hoje para alimentar a concentração da propriedade e intensificar a exploração.

Novos operários agrícolas produzem riqueza (azeite, amendoal, frutos frescos ou hortícolas) sob condições de trabalho igualmente duras. De novo, ranchos de trabalhadores, como ontem os ratinhos que iam à monda ou à ceifa, se deslocam para as colheitas ou outras actividades agrícolas. Hoje em terras e em explorações agrícolas que estão nas mãos de multinacionais do agronegócio, de fundos financeiros sem rosto.

O capitalismo agrário cresce. E, no entanto, a região continua a despovoar-se e a balança agro-alimentar do País agrava-se a cada ano que passa.

E isso é assim porque o que cresce são culturas permanentes, com muito pouco recurso a mão-de-obra estável, e as pastagens permanentes – ou seja, terrenos que ficam pelo menos cinco anos como pastagens, tenham ou não animais associados.

Entre 2011 e 2021, a população no Alentejo decresceu 6,9%.


«Cá estamos a fazer frente à política de direita, à política dos grupos económicos, à política dos interesses da minoria que lucra com a exploração, com o ataque aos direitos laborais, com a especulação, com as dificuldades da grande maioria da população.

Cá estamos para esclarecer e afirmar a alternativa que se impõe. Continuando a transformar o sonho em vida. Para fazermos desta uma terra sem amos.»

 

 

Pela soberania alimentar do País

Só uma outra política agrícola, que rompa com as orientações da política de direita e da Política Agrícola Comum, que coloque no centro das suas prioridades a defesa de soberania alimentar do País e a valorização do trabalho e dos trabalhadores, garantindo políticas de planeamento e de promoção da produção dos alimentos para alimentar o nosso povo, assegurando as estruturas públicas para defenderem e apoiarem a produção, que coloque a terra nas mãos e ao serviço de quem a trabalhe, pode aliviar esta dependência que esmaga o País.






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