Nos valores de Abril está a resposta para os problemas do povo e do País
Prosseguir Abril é tarefa de todos nós, de todos os que acreditam nos seus valores, e é neles que está, «sabemo-lo hoje mais do que nunca, a solução para os problemas estruturais do nosso País». Esta foi uma ideia-chave deixada no Parlamento pelo deputado Manuel Loff na sessão solene comemorativa do 25 de Abril.
A democracia está sob ameaça quando não se cumprem os direitos
Lusa
«Fazem-no recordando que não há democracia sem justiça social, exigem respeito pelos direitos dos trabalhadores, das mulheres, dos jovens, de todos independentemente da sua origem étnica e identidade de género, dos reformados que trabalharam para o bem estar das gerações que se lhes seguiram e que hoje têm direito à solidariedade de quem trabalha e ao respeito do Estado», sublinhou Manuel Loff na sessão que contou com a participação das mais altas individualidades do Estado. Presentes estiveram também o Secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo, e Jerónimo de Sousa, do CC. Entre os convidados que preencheram as galerias estavam vários capitães de Abril.
À tribuna subiram todas as forças políticas com representação parlamentar, precedendo as intervenções do presidente da Assembleia da República e do Presidente da República, que encerrou a sessão solene.
Começando por abordar o alcance e profundidade das transformações ocorridas no 25 de Abril de 1974, Manuel Loff aclarou as diferenças que distinguem o que ocorreu em Portugal da «grande maioria dos processos democratizadores que lhe foram contemporâneos, desde a Grécia e a Espanha até à América Latina», para realçar que a «libertação de Portugal em 1974 da longa ditadura fascista de 48 anos foi, não uma transição mais ou menos arrancada a ferros de dentro de uma ditadura em fase degenerativa, mas uma Revolução».
Comemorar a Revolução de Abril não é contudo apenas um acto de memória. Muito pelo contrário, anotou, «quando dizemos “25 de Abril sempre!” estamos a dizer que não renunciaremos em cada dia que passa ao que se conquistou em Abril – direitos, liberdades e garantias cívicas que não aceitaremos nunca mais ver restringidas, direitos sociais como os de uma educação, um SNS e uma Segurança Social públicas, que assegurem o bem estar de todos e não apenas de alguns».
Ameaças à democracia
A merecer uma atenção particular do parlamentar da bancada comunista esteve também a questão das ameaças que pairam sobre a democracia, que não podem ser escamoteadas. Essa realidade, alertou, ocorre «em todos os lugares, a começar por Portugal, onde reiteradamente não se cumprem as naturais, justíssimas, expectativas de quem espera que a democracia seja sempre acompanhada de bem-estar e de justiça social, de direitos universais à saúde, à educação, à habitação, ao trabalho com direitos e garantias, de salários e pensões dignos, do direito a uma infância feliz longe do espectro da pobreza, a uma velhice com dignidade e qualidade de vida».
Considerou, por isso, que «sempre que algum ou todos estes direitos se não concretizam nas nossas vidas, alimenta-se a descrença na democracia e esta estará sempre ameaçada».
«Sempre que o autoritarismo patronal precariza impunemente a vida de quem trabalha, chantageia os trabalhadores para impedir que se sindicalizem, que defendam, que exerçam os seus legítimos direitos, a democracia, mais do que ameaçada, é atacada», afirmou o deputado do PCP, observando que não se pode «andar a lamentar a baixa participação eleitoral e fingir não perceber a que esta se deve». Foi mesmo mais longe e, numa alusão directa ao Governo, advertiu que «não pode comemorar o 25 de Abril e a democracia e ao mesmo tempo deixar degradar a condição de vida dos portugueses, depois de se terem enterrado incontáveis recursos públicos no apoio aos grandes grupos económicos e financeiros».
Para Manuel Loff, é assim iniludível que a «democracia está há anos ameaçada, de novo, pelo fascismo de cuja sombra nos julgávamos ter libertado por todo o mundo há 80 anos». Mais, considerou «ilusório» pensar-se que o «assalto que a extrema-direita fascista está a fazer ao poder deixa incólume a democracia». E o melhor exemplo disso, dos perigos que a extrema-direita representa, acrescentou, é a luta que os democratas brasileiros tiveram de travar para «derrotar o que foi a maior ameaça, absolutamente real, contra a democracia brasileira desde o fim da ditadura civil-militar».
Daí Manuel Loff ter concluído a sua intervenção com palavras de confiança no sentido de que o 25 de Abril continuará «a ser feito por nós, por quem acredita nos seus valores», na certeza de que esse é o caminho – e citando versos da Grândola de Zeca Afonso - para construir a «terra da fraternidade» onde o «povo é quem mais ordena», «em cada uma das nossas cidades e aldeias de um País verdadeiramente democrático».