1553 – Auto-de-fé de Michel Servet
«Quando os genebrinos mataram Servet, não defenderam uma doutrina, mataram um homem. A violência endurece o coração que não se abre à clemência. É pela luz, não pela espada, que se vence o mal, dissipa as trevas.» As palavras são do humanista e teólogo francês Sébastien Castellion, apóstolo da tolerância e da liberdade de pensamento, a propósito da execução do médico espanhol Michel Servet, acusado de heresia por contestar a doutrina da Trindade. A execução suscitou acesa polémica entre católicos e protestantes e provocou divisões entre os calvinistas. Médico prestigiado, a quem muito se deve no âmbito da compreensão de circulação sanguínea, que intuiu um século antes de William Harvey a ter descrito, Selvet é vítima das guerras religiosas do seu tempo. Livre pensador, põe em causa o dogma da Santíssima Trindade ao publicar De trinitatis erroribus (Os erros da Trindade): «A essência divina é indivisível (...) não pode haver na Divindade diversidade de pessoas», advoga. O governo calvinista é implacável: condenado à morte a 26 de Outubro, Selvet é queimado um dia depois. O tratado de Castellion rebatendo a justificação da pena é censurado e só vem a público em 1612. Aí se encontra a famosa frase: «Matar um homem não é defender uma doutrina, mas matar um homem.»