Os povos defendem a paz e rejeitam a guerra e a especulação

Duas concentrações promovidas pelo CPPC, uma em Lisboa e outra no Porto, realçaram que «os povos querem paz, não o que a guerra traz», reclamando um rumo alternativo ao que tem sido trilhado, de escalada de tensão e guerra, corrida aos armamentos e aumento brutal da especulação de preços. A paz que urge construir é condição essencial para a justiça, o progresso social e o bem-estar de toda a Humanidade.

As sanções atingem profundamente as condições de vida dos povos, mas servem o grande capital e o imperialismo norte-americano

Em Lisboa, a acção realizou-se na quarta-feira, 26, no Largo José Saramago, junto à sede da Fundação que tem o nome do escritor que foi, também ele, um combatente de toda a vida pela paz e a solidariedade entre os povos. No Porto, a 27, a concentração teve lugar na Praceta da Palestina, outro nome simbólico para albergar mais uma iniciativa em defesa da paz, do desarmamento, do direito internacional e também da Constituição da República Portuguesa e dos princípios inscritos no seu artigo 7.º.

Em ambas, as intervenções ficaram a cargo do CPPC e da CGTP-IN: Rui Garcia e João Coelho, em Lisboa; Ilda Figueiredo e Nuno Coelho, no Porto. A apresentação foi dos jovens Inês Reis e Diogo Pinheiro. Em Lisboa, o conceituado cantor e compositor Sebastião Antunes interpretou canções cujas palavras interpelam à reflexão e acção sobre os tempos em que vivemos: Não há dinheiro/ é sempre a mesma conversa o ano inteiro/ Não há dinheiro/ É cada um que se amanhe/ Não há dinheiro e O mar não é de ninguém/ Ninguém é dono do mar/ Nem daqueles/ que lá sabem navegar. Difícil seria ser mais actual...

A convocatória lançada pelo CPPC, à qual aderiram várias outras organizações, era clara nos objectivos das duas concentrações: «Há que afirmar não à guerra», lê-se no texto, onde se defende que a diplomacia e os princípios do direito internacional «substituam a ingerência externa, a corrida armamentista, a ameaça do uso da força e o uso da força nas relações internacionais». O caminho a seguir, garante-se, é só um: «Pela paz, o diálogo, a solidariedade, a amizade, a cooperação!»

No entanto, lia-se ainda no apelo, o que se verifica é precisamente o contrário. O prosseguimento e agravamento de diversos conflitos (na Palestina, no Sara Ocidental, na Síria, no Iémen, na Ucrânia...), com trágicas consequências para os povos; a instigação da escalada da guerra, o fomento da produção de mais e mais sofisticadas armas, incluindo nucleares, a promoção do militarismo; e ainda a imposição de sanções e bloqueios a diversos países, que atingem profundamente as «condições de vida dos seus povos e dos povos por todo o mundo».

Há quem ganhe

Se a maioria perde com este caminho que há muito vem sendo trilhado, e que se agravou nos últimos meses, também há quem ganhe. Desde logo o complexo militar-industrial, que acumula lucros crescentes: segundo o Instituto Internacional de Investigação para a Paz de Estocolmo (SIPRI, na sigla inglesa), as despesas militares mundiais ultrapassaram pela primeira vez, em 2021, os dois mil milhões de milhões de dólares. À cabeça deste rentável negócio estão os grupos norte-americanos Lockheed Martin, Boeing, Raytheon, Northrop e General Dynamics.

Também as multinacionais dos sectores da energia, da alimentação e da distribuição alimentar têm vindo a acumular «fabulosos lucros», denunciava-se no apelo, ao beneficiarem – e especularem – com os elevados e crescentes preços de bens e serviços essenciais. Em Portugal, por exemplo, e ao mesmo tempo que o preço dos combustíveis atingia o valor máximo em anos, a GALP anunciava lucros de 608 milhões de euros nos primeiros nove meses do ano (86% acima do mesmo período do ano anterior). Já o grupo Jerónimo Martins, dono do Pingo Doce, viu igualmente os seus lucros escalarem 30% face a 2021. O mesmo sucede com outros grupos económicos, em Portugal e um pouco por toda a Europa.

Daí ter sido apropriada uma das exigências constantes no cartaz das concentrações, «Não ao aumento do custo de vida».

Não deixam de ser também relevadores os lamentos recentes dos ministros francês e alemão da Economia, queixando-se do elevado preço do gás praticado pelos EUA, «alternativa» imposta ao gás russo, este último fortemente limitado na sequência das sanções.

Construir a paz

Em Lisboa e no Porto apontou-se um caminho alternativo, que sirva efectivamente os povos e o seu direito à paz, ao progresso, ao desenvolvimento soberano. Um caminho que passa obrigatoriamente pela diplomacia e a negociação, mas também pelo desarmamento, o desanuviamento, a garantia de segurança para todos os países, o respeito pelos direitos dos povos e a igualdade dos Estados.

Portugal, e isso foi também afirmado nas duas concentrações, tem uma obrigação particular de se empenhar na construção deste caminho, devido aos princípios que tem inscritos na sua Lei Fundamental, entre os quais se contam o desarmamento, a solução pacífica dos conflitos internacionais, a não ingerência nos assuntos internos dos outros Estados, o desarmamento geral, simultâneo e controlado, a dissolução dos blocos político-militares, a abolição do imperialismo e do colonialismo.

Mas a opção tem sido outra, não só por parte do actual Governo como dos que o antecederam: a submissão às imposições dos EUA, da NATO e da UE, a participação em guerras de agressão, ameaças, ingerências e sanções.

A luta por uma política externa portuguesa soberana, respeitadora dos princípios constitucionais e da Carta das Nações Unidas, continua. Com os que estiveram nos dias 26 e 27 em Lisboa e no Porto e com muitos outros que entretanto se juntarão.

 

Elevar a luta pela paz a novos patamares

Não deixando esquecer os vários conflitos e agressões militares que marcam a actualidade, os representantes do CPPC referiram-se com detalhe à situação no Leste da Europa, garantido ser fundamental elevar a luta pela paz a «novos patamares» para assim «travar a loucura belicista que parece comandar as políticas da UE e dos governos europeus, totalmente submissos aos interesses e às ordens dos EUA». A continuação deste caminho, alertam, conduzirá a um «beco sem saída de escalada do confronto que ameaça um holocausto de escala continental».

«Cessar-fogo, negociações, paz, são conceitos ausentes das palavras dos dirigentes norte-americanos e europeus que, pelo contrário, têm promovido a escalada do conflito», mas norteiam a acção do CPPC desde sempre, ou seja, desde muito antes de Fevereiro deste ano. No próprio dia 24 desse mês, lembrou-se, o CPPC emitiu um comunicado em que apelava à «imediata cessação das operações militares, à adopção de gestos e ao avançar de propostas que permitam abrir caminho à resolução negociada do conflito, objectivo que deve ser preocupação de todos quantos verdadeiramente defendem a paz e o respeito pelos princípios da Carta das Nações Unidas». Já então o CPPC defendia a adopção de medidas que «ponham fim à política de confrontação, que promovam o diálogo e o desanuviamento das tensões e possibilitem o encontrar de soluções com vista a assegurar a segurança colectiva na Europa e no Mundo, pois todos os Estados têm direito à sua segurança».

A CGTP-IN, por seu lado, insistiu na construção de um caminho de diálogo «que construa uma solução pacífica para este conflito que, como todos os outros, vitimiza em primeiro lugar os trabalhadores e as populações, não apenas da Ucrânia e da Rússia, mas de todo o mundo». Em Portugal, os direitos dos trabalhadores estão ameaçados pelo pretexto desta guerra, que os grupos económicos utilizam para impor o aumento brutal dos preços de praticamente tudo aquilo que consumimos, para além de servir como pretexto para atacar o emprego, os direitos e rendimentos dos trabalhadores».

João Coelho e Nuno Coelho lembraram a presença constante da CGTP-IN em acções de defesa da paz: «agora, como desde 2014, na Ucrânia, e como desde sempre na Palestina e na Síria, no Afeganistão, no Sara Ocidental, na Colômbia, no Mali e no Iémen (...) no Iraque, no Afeganistão, a Jugoslávia». Também os bloqueios, as sanções e as ingerências, que «martirizam o dia-a-dia de milhões de pessoas de Cuba, da Venezuela, da Nicarágua, do Irão, da Bielorrússia, do Mali, do Afeganistão», sempre foram e continuam a ser denunciados e combatidos pela CGTP-IN.


Pôr fim a uma guerra que nunca devia ter começado

O PCP marcou presença solidária na concentração de Lisboa. Como sublinhou Miguel Soares, do Comité Central, «estamos aqui em defesa desta aspiração de sempre dos trabalhadores e dos povos, o direito a viver em paz. Estamos aqui para acabar com uma guerra que nunca deveria ter começado e a que urge pôr fim».

Para o dirigente comunista, esta é uma guerra que «não serve o povo russo e o povo ucraniano, uma guerra que não serve os povos do mundo com as sérias ameaças à paz mundial, uma guerra que não serve os povos da Europa, que não serve o povo português». Também este é afectado, lembrou, dado o «brutal aumento do custo de vida, com o brutal aumento dos preços que as sanções e os aumentos da especulação das grandes grupos capitalistas estão a infligir ao povo português».

Realçando a justeza do lema das concentrações, «os povos querem paz, não o que a guerra traz», Miguel Soares criticou os «falcões da guerra, o governo dos Estados Unidos, a União Europeia, todos aqueles que repetem até a exaustão o discurso da guerra, da continuação da guerra, do militarismo, do reforço do armamento, do ódio, da xenofobia». Todos estes, tal como o Governo português, que assume e repete esse discurso, «são cúmplices desta guerra, não querem a paz, mas a continuação da guerra».