Irene Papas e seus pares pelos caminhos da liberdade

Nuno Gomes dos Santos

Irene Papas bri­lhou no te­atro e no ci­nema e lutou sempre pela li­ber­dade

O re­cente fa­le­ci­mento de Irene Papas (1926-2022), grande ac­triz grega que bri­lhou em muitas e im­por­tantes peças de te­atro e em mais de 70 filmes, entre os quais Os Ca­nhões de Na­va­rone, de J. Lee Thompson, Elektra, de Mi­chael Ca­coyannis, Z, de Costa Gravas, e, prin­ci­pal­mente, Zorba, O Grego, também de Ca­coyannis, levou-nos a olhar para trás, no tempo, avivou-nos re­cor­da­ções e sus­citou-nos com­pa­ra­ções ine­vi­tá­veis, exac­ta­mente por causa de Zorba.

Este filme reúne um óp­timo elenco. Para além de Irene Papas, conta com as par­ti­ci­pa­ções (ex­ce­lentes) de Anthony Quinn, de Alan Bates e de Lilia Ke­drova, cuja in­ter­pre­tação lhe valeu o Oscar de me­lhor ac­triz se­cun­dária (Zorba teve sete no­me­a­ções para esse prémio da Aca­demia Ame­ri­cana de Artes e Ci­ência Ci­ne­ma­to­grá­ficas, ga­nhando mais dois Os­cares, para a me­lhor re­a­li­zação e para a me­lhor fo­to­grafia, para além do atri­buído a Lila Ke­drova).

Não cabe neste ar­tigo dizer, da obra, mais do que a re­fe­ren­ciar como uma es­tória sobre a li­ber­dade, ba­seada num ro­mance da­quele que é con­si­de­rado o mais im­por­tante es­critor grego do sé­culo pas­sado, Nikos Ka­zant­zakis. Mas cabe a cha­mada de atenção para certas coin­ci­dên­cias, al­gumas das quais não acon­te­ceram por acaso mas, sim, por von­tade dos pro­ta­go­nistas.

Po­demos co­meçar, desde logo, pela ideias. Por exemplo as de Ca­coyannis e de Irene Papas, lem­brando a di­ta­dura grega nas­cida em 1967 que levou a que a ac­triz se exi­lasse, em Itália pri­meiro e, de­pois, nos EUA. E re­ferir que a mú­sica do filme é de Mikis The­o­do­rakis que, entre ou­tros ga­lar­dões, re­cebeu o Prémio Le­nine da Paz. Irene Papas re­voltou-se contra a Junta Mi­litar grega e fugiu do país; The­o­do­rakis lutou contra a di­ta­dura, contra o ataque da NATO à Sérvia e, entre ou­tras to­madas de po­sição à es­querda, es­teve ao lado dos pa­les­ti­ni­anos no con­flito is­raelo-árabe. O com­po­sitor, de mé­ritos re­co­nhe­cidos, foi po­pu­lar­mente ce­le­bri­zado pela canção do Zorba, como passou a ser co­nhe­cido o Sir­taki que compôs para o filme.

Por ser este um ar­tigo que fala de coin­ci­dên­cias, cha­mamos à pedra Carlos Pa­redes, com­po­sitor de Verdes Anos, tema que, tal como o Sir­taki de The­o­do­rakis, per­durou para além da obra ci­ne­ma­to­grá­fica do mesmo nome e para a qual foi com­posto. E, nas voltas que a vida dá, Irene Papas tra­ba­lhou em dois filmes de Ma­noel de Oli­veira que, sendo o re­a­li­zador por­tu­guês de maior no­meada, não perdeu, ainda a con­sa­gração vinha longe, a opor­tu­ni­dade de ter uma pe­quena par­ti­ci­pação no filme Verdes Anos

Dois filmes, duas com­po­si­ções que ul­tra­pas­saram, na acei­tação po­pular e eru­dita, as obras ci­ne­ma­to­grá­ficas que ser­viram, e muitas per­so­na­gens com um de­no­mi­nador comum: a sua luta pela Li­ber­dade e contra o fas­cismo, quer na es­crita, quer na re­a­li­zação de filmes, quer nas ac­tu­a­ções ar­tís­ticas ou pres­ta­ções quo­ti­di­anas, quer nas obras mu­si­cais. E na co­ragem, aqui en­trando pela porta grande, ao lado de Carlos Pa­redes, de The­o­do­rakis, de Ca­coyannis, um re­a­li­zador pre­o­cu­pado com os di­reitos hu­manos e com a guerra e suas ne­fastas con­sequên­cias, Irene Papas, que aplau­dimos de pé en­quanto ac­triz e como mu­lher ci­dadã do mundo, can­tando-lhe a canção da Li­ber­dade de­di­lhada num bou­zouki ou numa gui­tarra por­tu­guesa, ins­tru­mentos po­pu­lares de cordas, desta vez por mera coin­ci­dência.





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