Jaime Cedano e Marta Bolívar, do Partido Comunista Colombiano

As forças do Pacto Histórico deram voz às reivindicações populares

Pela primeira vez na história, forças de esquerda assumem a presidência e o governo da Colômbia. Jaime Cedano e Marta Bolívar, do Partido Comunista Colombiano (PCC), explicam como se deu esta extraordinária vitória e revelam os principais objectivos do governo de Gustavo Petro e Francia Marquez e das forças que o sustentam, reunidas no Pacto Histórico.

Só se põe fim ao conflito social e armado resolvendo os problemas que lhe estão na origem

Como se alcançou esta vitória eleitoral, num país onde é tão forte a influência do imperialismo?
Jaime Cedano (JC)
: É o resultado de muitos anos de convergências das forças de esquerda, que se foram fortalecendo não só nos momentos eleitorais mas também nas lutas populares – pela paz e os direitos humanos, em defesa dos direitos do povo, contra os chamados tratados de livre comércio.

O dado novo foi a revolta social do ano passado, espoletado pela reforma tributária lançada em plena pandemia pelo governo de Ivan Duque, de conteúdo neoliberal e muito lesiva dos direitos dos mais desfavorecidos. Mas o que começou por ser uma greve nacional de 24 horas transformou-se numa revolta que se estendeu por meses, com muita gente nas ruas, sobretudo jovens dos bairros pobres, indígenas, negros, populações das zonas mais esquecidas do país. A repressão foi violenta – com mortos, feridos e presos –, mas quanto mais endurecia, mais a mobilização crescia.

As forças do Pacto Histórico apoiaram as reivindicações populares, deram-lhes voz. A dada altura, Gustavo Petro lançou a consigna «das barricadas às eleições» e muita gente que tinha estado na greve participou na campanha e nas listas. Vários foram eleitos.

Marta Bolivar (MB): Para os comunistas, e incluo aqui o PCC mas também as FARC, os Acordos de Paz de Havana constituem um momento decisivo deste processo. Se o Pacto Histórico existe foi porque os comunistas forçaram o processo de paz, com elevados custos políticos e até humanos. O «macartismo» sobre a nossa militância, e a das FARC, foi muito forte, com assassinatos de antigos guerrilheiros e ameaças sobre membros do nosso partido.

A paz alcançada nos Acordos de Havana foi curta e permanecem sem resolução aquelas que consideramos serem as quatro principais fontes do conflito social e armado no país: a reforma agrária, a reforma política, a questão das vítimas do conflito armado e a substituição de consumos ilícitos. Mas mesmo com todas estas limitações, o processo de paz aumentou a nossa visibilidade junto da opinião pública e mudou percepção que muitos tinham sobre os comunistas.

Que prioridades estão colocadas pelas forças que compõem o Pacto Histórico, desde logo o PCC, e pelo presidente Gustavo Petro?
JC
: Há problemas muito graves para resolver: a pobreza e a fome, a violência, o atraso industrial. E para sustentar isto está prevista uma reforma tributária, oposta à outra, que taxe quem mais tem. Não estamos a falar de um conjunto de reformas, mas de um conceito de país e de sociedade, a construção de uma democracia económica, social e política.

MB: O Pacto Histórico foi fundado no ano passado com um programa que tem como alguns dos seus eixos fundamentais a reconversão económica, a resolução do problema do narcotráfico, o relançamento do processo de paz. Defendemos a industrialização do país, a reforma agrária, o combate ao neoliberalismo. Até hoje, o Estado não deu qualquer impulso aos direitos do povo e ao desenvolvimento técnico e científico. A capital, Bogotá, nem sequer tem metropolitano. A elite burguesa que sempre governou o país não serviu para nada…

Quanto à «guerra ao narcotráfico», consistiu ao longo dos anos em armar o exército (o mesmo que, em grande medida, se encontra tomado por esse mesmo narcotráfico) e fumigar vastas zonas de produção de coca, prejudicando os pequenos produtores e envenenando as terras, onde também são produzidas outras coisas. Isso acabou!

Queremos também alargar e aprofundar o acordo de paz e combater o paramilitarismo.

São objectivos muito importantes e será preciso apoiar o governo nas ruas.

JC: A ruptura com a muralha bipartidária que governa a Colômbia há décadas é um objectivo táctico do nosso partido. Nos anos 50, após a ditadura, os liberais e os conservadores construíram uma «frente nacional», que durou oficialmente 16 anos, mas que se prolongou de facto até às últimas eleições: governavam à vez e dividiam os lugares entre os seus membros. Quaisquer outras forças que apareciam eram duramente reprimidas.

Ora, esta «muralha» era o inimigo e já em 1981 o PCC assumia em Congresso a possibilidade de avançar para uma solução política negociada do conflito social e armado e para a construção de uma democracia avançada, o que só agora está a ser possível. Os nossos objectivos de fundo são mais amplos, mas este é um objectivo táctico de grande importância.