É agora o tempo de dar combate ao aumento do custo de vida
O brutal aumento do custo de vida que se verifica exige uma resposta imediata com medidas urgentes que sejam capazes de repor o poder de compra perdido nos últimos meses: este foi o mote da sessão pública do PCP, realizada no sábado, 20, no concelho do Seixal, na qual Jerónimo de Sousa acusou o Governo de não querer tocar nos privilégios dos grupos económicos, que amealham fortunas à custa da degradação das condições de vida da imensa maioria.
É preciso enfrentar os interesses dos grandes grupos económicos
Este é um problema grave e com sérias implicações na vida da maioria da população que, garante o Secretário-geral do Partido, «reclama uma intervenção séria e de emergência para o travar», cujas medidas detalharia ao longo da sua intervenção (ver caixa).
Certo é, porém, que combater este problema só será possível se o Governo abandonar os subterfúgios que «tem vindo a utilizar para não intervir com eficácia, como se impunha», e se não forem implementadas as «falsas medidas de assistencialismo barato e hipócrita que o PSD e os partidos seus sucedâneos têm vindo a defender». O que todos pretendem, denunciou, é «não afrontar os grandes interesses económicos a quem servem» e «desviar as atenções das verdadeiras soluções».
Falando perante dezenas de pessoas que se concentravam numa zona central da Aldeia de Paio Pires, o dirigente comunista considerou ser já evidente que a inflação não é «um fenómeno passageiro, como nos queriam fazer crer, porque isso servia os interesses do capital especulativo». Ela veio para ficar e está em roda livre, com «consequências desastrosas na vida de muita gente». Assim, a persistir a «actual política do deixa andar a especulação em roda livre, ou das medidas das meias-tintas que fogem à reposição do poder de compra dos salários e reformas, vão agravar-se e transformar-se num enorme problema social que só a luta dos trabalhadores e do povo pode impedir», garantiu.
Sublinhando a «preocupante evolução» da inflação, Jerónimo de deteve-se na «brutal especulação» promovida pelos grupos económicos nacionais e internacionais», que a explica. Essa especulação, acrescentou, «começou por florescer à sombra da epidemia, aproveitada pelas grandes empresas e multinacionais da alimentação, da energia e tecnológicas, e com relevo para as do negócio da doença», e agora intensifica-se a pretexto da guerra e das sanções. Que são, estas últimas, pagas dolorosamente pelos povos, «enquanto uma minoria acumula milhões de lucro», acusou.
Travar a especulação
e a exploração
Tendo a seu lado, na mesa, Armando Farias, dos organismos executivos da Comissão Concelhia do Seixal do PCP, Jerónimo de Sousa lembrou que «uma grante parte das famílias faz cada vez mais contas e já está a cortar na alimentação», enquanto outros – «e não são poucos», garantiu – deixaram de poder assegurar o básico. Porquê? Porque o salário ou a reforma não chega ao fim do mês!
Para além da alimentação, da energia, dos combustíveis, também os custos com habitação são insuportáveis e não param de aumentar: as taxas de juro crescem acima do que «inicialmente anunciavam os representantes dos grandes potentados financeiros, instalados nos principais bancos centrais» e já se adivinha novos saltos, prevê o dirigente do Partido, alertando ainda para os «ventos» que sopram vindos do FMI e apontados à recuperação das medidas da troika, que a luta derrotou.
É todo este «trajecto de aprofundamento das desigualdades e de degradação acentuada da situação social» que o PCP quer interromper, tanto por via do aumento dos salários e pensões como do controlo e fixação de preços de bens e serviços essenciais (ver caixa). Precisamente aquilo que o Governo não faz, permitindo dessa forma que uma «minoria se sirva da guerra e das sanções para aumentar a sua já vasta fortuna». Já PSD, CDS, IL e Chega, «falam muito, mas batem sempre ao lado do que se impunha fazer, encobrindo a origem do surto inflacionista e do crescimento das dificuldades e desigualdades» e mantendo-se sempre «do lado do grande capital».
Para o PCP, «está na hora de travar a especulação e controlar os preços. Está na hora de repor o poder de compra perdido pelos salários e pelas reformas». É, também, o tempo de «passar das palavras aos actos e impedir o empobrecimento acelerado de milhões de portugueses».
Vidas concretas
Dois testemunhos partilhados naquela iniciativa evidenciaram como a conjugação destes três factores – baixos rendimentos, precariedade e aumento do custo de vida – constitui para muitos um fardo insuportável.
«É extremamente difícil ser jovem em Portugal», afirmou Sara, de 28 anos. Assistente técnica numa escola, depois de anos a transitar entre estágios, bolsas e contratos precários, tem finalmente um vínculo laboral estável, mas o salário que aufere é muito baixo e inviabiliza qualquer projecto de vida independente.
Se já não era fácil sair de casa dos pais (é em Portugal que se sai mais tarde, em média aos 33 anos) com o anunciado aumento das taxas de juro e a subida das rendas tudo se torna ainda mais difícil. É o futuro de uma geração que se encontra hipotecado, garante.
Catarina é um pouco mais velha, mas o seu percurso é semelhante. Educadora num centro de acolhimento de crianças e jovens, sofre – como os seus colegas – do congelamento das carreiras e da estagnação dos salários, a que acresce as muitas horas que trabalha para lá do seu horário sem que seja devida e legalmente compensada.
Acrescenta ao aumento dos preços dos bens alimentares e das rendas e prestações com habitação a situação específica dos docentes, muitos dos quais não sabem ainda se e em que zona do País trabalharão já a partir de Setembro. «É difícil ter filhos», lamenta.
Estas são apenas duas de milhares de vidas suspensas pela política de direita, que prossegue e – em muitas das suas expressões – se intensifica.
Resposta imediata para defender direitos e condições de vida
Na sua intervenção, o Secretário-geral do PCP reafirmou a urgência de uma «resposta imediata» para os graves problemas que atingem a maioria da população. Uma resposta que o Governo não quer assumir e que implica enfrentar os interesses dos grandes grupos económicos, que tanto têm vindo a lucrar com toda esta situação (ver caixa). Entre as medidas prioritárias propostas pelo PCP para repor o poder de compra perdido estão: aumento intercalar do Salário Mínimo para 800 euros e aumento extraordinário das pensões ainda em 2022.
• fim da caducidade da contratação colectiva e, na Administração Pública, desbloquear e valorizar as carreiras
• controlar e fixar preços em bens e serviços onde estes estejam «claramente a ser empurrados pela estratégia especulativa dos grupos económicos»: fixar preços máximos nos combustíveis, garantir o controlo de preços e a tarifa regulada na energia eléctrica e no gás, e repor nestes serviços a taxa de IVA a 6%
• concretizar um Cabaz Alimentar Essencial, que «defina um preço de referência para cada um dos produtos com base nos custos reais e numa margem não especulativa
• tributar lucros extraordinários que estejam a ser obtidos com actividades especulativas e «canalizá-los para reforçar a resposta com medidas de apoio de protecção social e aos sectores mais atingidos pelo aumento da carestia de vida»
Lucros disparam
• Os grandes grupos da distribuição no nosso País, nestes primeiros seis meses do ano, amealham como nunca antes: a Sonae (Continente) duplicou os lucros e a Jerónimo Martins (Pingo Doce) encerrou a primeira metade do ano com lucros de 261 milhões de euros, uma subida de 40,3%
• Em Portugal, o lucro dos seis maiores bancos atingiu 1,3 mil milhões de euros, ou seja, 90% mais do que no mesmo período do ano passado
• As 13 empresas cotadas no PSI já superaram 2,3 mil milhões de euros de lucro neste período. Entre elas contam-se a GALP, a EDP, a NOS, a ALTRI e a REN
• As cinco maiores empresas do sector energético duplicaram os seus lucros durante o período da epidemia para 2600 dólares por segundo. Já as gigantes do sector farmacêutico viram os seus lucros crescer, nesse período, ao ritmo de 932 euros por segundo
Alimentação pesa mais a quem menos tem
O aumento galopante da inflação foi denunciado na iniciativa: em Abril deste ano, a variação homóloga era de 7,2%, em Maio de 8% e em Junho atingia os 8,7%. «Há dias, conhecemos a de Julho, que apresenta um novo salto para 9,1%», salientou Jerónimo de Sousa, lembrando que muitos produtos – como os alimentares – registaram aumentos muito acima deste valor.
Já antes, João Silva (um dos participantes na sessão que tomou da palavra) tinha citado um estudo recente que revelava isso mesmo: o significativo aumento dos preços dos bens alimentares bem acima da taxa de inflação. No peixe e na carne o aumento atinge os 40%, com o frango a subir 34%, o peru 27% e o salmão 40%. Já a farinha subiu 47%, os óleos alimentares 41%, os ovos 22% e a manteiga 21%.
João Silva, do movimento Os Mesmos de Sempre a Pagar, sublinhou ainda que as despesas com alimentação pesam sobretudo em quem tem menores rendimentos.