A arte do sofisma
Quem quer a paz não desenvolve acções que sabe à partida irem acicatar ainda mais os ambientes de tensão existentes
Noticia da agência Lusa de 29 de Julho, dá conta que a Ministra da Defesa Nacional (MDN), em resposta a uma questão colocada sobre a NATO, terá respondido que Tem que se considerar que a NATO não está a tentar expandir-se. Às vezes há esta opinião que a NATO se está a expandir, eu gostava de sublinhar o facto de que têm que ser os países eles próprios a decidir se querem juntar-se, e não é demais sublinhar que este tem sido o caso. Ora, a NATO foi constituída por 12 países quando da sua formação, em 1949, e está a caminho de passar a ter 32 países. Desde o fim da União Soviética, em 1991, a NATO incorporou a Polónia e a República Checa, em 1999, a Roménia, a Bulgária, a Eslováquia, a Eslovénia, a Estónia, a Lituânia e a Letónia, em 2004, Albânia e Croácia, em 2009, Montenegro, em 2017, e a Macedónia do Norte, em 2020, e está em desenvolvimento a integração da Finlândia e da Suécia. Pode a MDN chamar obesidade em vez de expansão ou se a criatividade der para tanto, dizer que a NATO não usa banda gástrica, mas factos são factos. O sofisma de misturar o tema expansão, com o processo, ou o modo, como a adesão ocorre, pode ser conveniente mas não colhe. E sobre a questão do processo/modo de entrar na NATO em que a MDN refere, com a aparente expressão cândida, de que eu gostava de sublinhar o facto de que têm que ser os países eles próprios a decidir se querem juntar-se, sempre importará dizer que essa é a condição básica mas está longe de ser condição bastante, porque como muito bem sabe a MDN há quem queira entrar há muitos anos e ainda não tenha sido aceite. Portanto, a decisão própria de entrar tem de convergir com a decisão dos que são membros de aceitarem que entre, e essa depende dos interesses que em cada contexto se colocam, desde logo à potência dominante. E não se venha com a conversa da democracia, porque Portugal foi país fundador da NATO com o regime fascista de Salazar. Não será pedir muito que o exercício de MDN se paute pelo rigor.
E o mesmo se coloca quanto à repetição da teoria da NATO como organização defensiva. Quem tal afirma, sabe bem que uma coisa é o que consta do texto que a enforma e outra coisa é a prática conhecida e bem documentada (veja-se o paradigmático caso da Bósnia, em choque frontal com o direito internacional). A arte do sofisma para melhor sustentar argumentos e posicionamentos é antigo, mas é feio, e mais feio é quando tal parte de pessoas com altas responsabilidades.
Muito do comentário sobre a deslocação de Nancy Pelosi a Taiwan usa esta mesma artimanha para a justificar, procurando desse modo apagar a natureza provocatória desse acto. Quem quer a paz, particularmente no momento que o mundo se encontra, não desenvolve acções que sabe à partida irem acicatar ainda mais os ambientes de tensão existentes. Só uma deliberada atitude provocatória o justifica. Neste quadro, é significativo, e bem ilustrativo, que 24 horas após esse acto provocatório, apareça o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, a pedir às empresas de produção de armamento dos países da NATO que intensifiquem a sua produção. Num contexto em que a deriva de sanções arrastam o mundo para uma mais grave situação económica e social, com a desenfreada especulação para gáudio dos grandes grupos económicos e financeiros, é o apelo à produção de mais armas o guião.
Os especialistas no uso do sofisma irão continuar o seu natural trilho, mas mais cedo do que tarde os trabalhadores e os povos dar-lhes-ão a merecida resposta.