Morreram bem aqui ao lado, quase em frente ao Algarve. Homens, mulheres e crianças que fugiam da fome e das guerras, de uma África que o colonialismo explorou até ao tutano e o neocolonialismo continua a explorar, enquanto os serviços secretos «ocidentais» se encarregam de tentar corromper os seus líderes, e assassinar os que não se vendem.
Na semana em que o dente de Lumumba regressa à sua terra, mostrando quão falso era o pedido de desculpas que o acompanhou, mais 47 africanos foram assassinados, às portas da «Europa», pelo grande aliado «ocidental» na região. Condenados à morte por um desespero que os faz saltar todos os muros, apesar do arame farpado, apesar das metralhadoras, apesar das balas. Mortos transparentes para uma «Europa» abjecta, que se recusou a vê-los vivos e se recusa a ver a sua criminosa morte. Ou pior, quando os vê, vê-os como inimigos, como os caracterizou o primeiro-ministro espanhol, justificando os assassinatos com um «assalto violento e organizado», e por isso são da NATO os navios que os buscam no Mediterrâneo para os devolver a Porto inseguro.
Na «Europa» só pode entrar o petróleo africano, o ouro africano, o urânio africano, as riquezas de África. Na «Europa» só pode entrar o dinheiro africano, mesmo quando roubado por elites corruptas e sangrentos ditadores. Na «Europa» só pode entrar o cidadão – quase sempre criminoso – com dinheiro para comprar vistos gold. Na «Europa» podem ainda entrar alguns africanos mais, para trabalhar, mas filtrados, e precarizados, e perseguidos, para que seja mais fácil explorá-los como se um favor se lhes fizesse.
É verdade que é também na Europa que se situa a Universidade Patrice Lumumba, exemplo perene da cooperação e amizade para com o continente africano. Mas essa fica em Moscovo, longe daquela parte da Europa que gosta de se chamar a si própria «Europa». E tem o seu reitor suspenso da Associação Universitária Europeia por ser «diametralmente oposto aos valores Europeus».